Da arte da tradução

por Carlos Augusto Ancêde Nougué
Transcrição feita por Cássio Gabriel

1. Sobre a arte da tradução

A arte de traduzir é, antes de tudo, uma arte subalternada e auxiliar da Linguagem e da Gramática. Como vimos, a linguagem é a arte da fala e mediante ela comunicamos hic et nunc (aqui e agora) nossas concepções e raciocínios. Enquanto a gramática é a arte da escrita e a escrita visa a comunicar nossas concepções e raciocínios e juízos aos que estão distantes no tempo e no espaço. Ora, ambas estas artes — a linguagem e a gramática — veem-se prejudicadas pela multiplicidade de línguas. Como dizia Aristóteles, “os que falam línguas diferentes não podem conviver bem”. E a multiplicidade de línguas  e sua incompreensibilidade mútua vão em sentido contrário ao da finalidade da linguagem e da gramática (da língua falada e da língua escrita). Por isso, desde Babel terá havido tradutores, antigamente chamados de linguas (aqueles que traduziam diálogos entre pessoas de línguas diferentes)[1].

Importa esta distinção porque não basta traduzir — fazer com que duas pessoas se entendam — para que isto se constitua um ofício artístico (hábito artístico). Pode ser por experiência: como determinada pessoa sabe duas línguas, é capaz de fazer com que duas pessoas de línguas diferentes se entendam razoavelmente; mas isto não constituí ainda arte. Para que se tenha arte, é preciso que se saiba as causas e os efeitos daquilo sobre que atua a arte. E a partir daí, compor uma série de normas ou regras sem que não haverá arte. Como sempre digo, arte sem regras e normas não é arte, de modo algum! Trate-se da arte fabril, trate-se da arte liberal!

A tradução começa ser arte quando aquele que a pratica domina o sujeito de sua arte com respeito às causas e efeitos, partes e propriedades. Por exemplo, em todos meus cursos de tradução dei o que chamo de regra de ouro da tradução, a saber: deve traduzir-se palavra a palavra na ordem em que está no texto original até o momento em que fazê-lo fira a índole da língua para qual se traduz. Vejam, esta é uma regra de ouro. Certamente causará horror aos antiliteratistas, mas certamente não entrarei aqui no mérito da questão.

A partir do momento em que o tradutor domina o sujeito de sua arte, seu fim, as causas, os efeitos, as partes e propriedades pode ele não só elaborar regras e normas para sua arte senão que pode ensiná-la. Esta é uma diferença fundamental entre o artista e o que apenas atua por experiência — é que o artista pode ensinar sua arte; aquele que atua por experiência não pode fazê-lo, porque não domina tudo o que acabo de dizer.

Esta tradução de que estou falando — e que é auxiliar da linguagem e da gramática; é uma arte — é a tradução prosaica. Que chamo de tradução prosaica? Aquela que atua no âmbito da língua corrente. Assim, a tradução de um manual de liquidificador entra nesta categoria; mas também um livro de História, e igualmente a tradução de um livro de Direito. Tudo entra nesta categoria, e esta que é a tradução propriamente dita — a tradução prosaica.

No entanto, há outro tipo de tradução que é a tradução literária, que só se pode dizer tradução se por secundum quid (por certo aspecto). Imagine-se, como de fato o fiz, que eu traduzisse uma série de poemas de Cervantes (fi-lo na tradução de Dom Quixote[2]), faço tradução no mesmo sentido em que faria tradução de um manual de um liquidificador ou de um livro de História? Não. Por quê? Se o poema tem por matéria as palavras e a língua, obviamente também verto a língua em que estão plasmados estes poemas de Cervantes, mas não faço a transposição apenas disso. Por quê? Eu tenho, o tradutor de poemas, de participar de algum modo da capacidade poética do autor, porque o que traduzo não é só o conteúdo do dito naqueles poemas, mas também a métrica, a rima, a forma, a configuração externa geral do poema — a figura do poema. E isto já não é linguagem estrito senso; já não estamos no campo ou da Linguagem ou da Gramática, senão que estamos no campo da arte da Poética, aquela que Aristóteles estudou tão brilhantemente exatamente em seu livro Poética.

Quando traduzo um poema, ou quando traduzo qualquer texto literário — seja romance, novela, conto —, verto sim as palavras que ali estão para a língua a qual traduzo, mas tenho de trazer junto com isto (ou até antes disto, e isso em muitos sentidos) a figura do poema, do romance, do conto, da novela; e isto é participar de outra arte que a linguagem ou a gramática: é participar da arte poética. Claro que aquela regra de ouro que dei para a tradução prosaica vale de alguma maneira, também, para a tradução literária.[3]

Quero primeiro acentuar esta diferença; há duas espécies de tradução: a tradução prosaica e a tradução literária. A prosaica é a que pode dizer-se tradução, simpliciter (diretamente). Enquanto a outra [literária] só o é secundum quid (sobre certo aspecto), porque está acavaleiro (posto em posição elevada) entre duas artes, a arte da gramática  e a arte da poética. Se a coisa se cingir-se a esta divisão tudo se tornaria mais fácil. Sucede, porém, que muitos autores de obras prosaicas fazem o que costumei chamar de “arte aplicada”. Por exemplo, entre os primeiros filósofos gregos alguns puseram sua doutrina filosófica em versos. Pergunta-se Aristóteles no [livro] Poética: o que fazem esses filósofos, poesia ou filosofia? Filosofia, mas valem-se de recursos poéticos para fazer filosofia. A eficácia filosófica disso é questionabilíssima, mas tampouco quero entrar no mérito. Mas vejam que Santo Tomás de Aquino (aquele que depurou a linguagem filosófica até o ponto máximo eficiente) também faz arte aplicada. Na faculdade de artes de Paris, onde estudou o Trivium e o Quadrivium, S. Tomás aprendeu o cursus. Que é o cursus? É uma aplicação das regras oratório-retóricas de Marsílio Capella para a prosa filosófico-teológica. Por isso que ao ler S. Tomás em latim tem-se a sensação de que se lê algo ritmado, e o é; é uma prosa poética em certo sentido, com ritmo, e obedecendo a certas regras desta redução das regras de Capella à prosa filosófico-teológica. O tradutor da obra, disse Santo Tomás de Aquino, haverá não só de traduzir perfeitamente só o conteúdo daquilo que diz S. Tomás mas também adaptar este recurso poético chamada cursus ao português.[4]

Então, há duas espécies de tradução e há um como meio termo. A obra de Santo Tomás de Aquino não deixa de ser prosaica, mas vale-se de arte aplicada; assim como numa roupa pode-se ter certo bordado de caráter artístico, e isto significará arte aplicada, conquanto a roupa em que se aplica não seja ela mesma arte.

A arte de traduzir, sobretudo se se trata da arte literária, repita-se, só é tradução secundum quid e a arte de tradução prosaica, quando se tem arte aplicada, é muito difícil.[5] No entanto, é uma arte serviçal.[6]

Sobretudo no século XX multiplicaram-se as teorias de tradução, e algumas passaram a chamar o tradutor de “coautor”; outra, “recriador”; outras, que se dá uma liberdade total diante do original. Não é nada disso! O tradutor esforça-se para atingir cem por cento de perfeição em seu ofício, mas nunca o consegue. Trata-se de algo assimptótico, ou seja, busca-se o cem por cento de acordo com condições várias; atinge-se oitenta, oitenta e cinco; noventa, noventa e cinco. A felicidade perfeita é praticamente impossível, embora tenha chegado, em alguns casos, a altíssima proximidade. Por exemplo, as traduções de Guilherme de Moerbeke das obras de Aristóteles ao latim consertando as traduções siríacas e latinas feitas de segunda mão siríaco [muito defeituosas]. Guilherme de Moerbeke foi quem traduziu a obra de Aristóteles a pedido de um papa, por sua vez a pedido de Santo Tomás de Aquino (era confrade — dominicano). Perfeição é impossível.

Outra coisa que deve evitar-se é o considerar que a tradução é impossível[7], mas não o é. É bem verdade que cada língua vê o mundo por certo ângulo, mas isto não quer dizer que não se veja o mesmo. Ponhamos pessoas com capacidades visuais distintas vendo a mesma coisa. Ora, um verá de um modo, outra verá de outro, mas verão a mesma coisa. Assim, as línguas expressam o mesmo ainda que por ângulos distintos. Por exemplo, grande distância vai entre dizer gracias (em espanhol) e obrigado (em português). Gracias significa prestar graças a algo; obrigado é comprometer-se. Quando digo obrigado, digo implicitamente: “estou obrigado a retribuir o favor que me fizeste.” Isto não está implícito em gracias, no entanto, havemos de traduzir obrigado por gracias e gracias por obrigado, ainda que vistos por ângulos diferentes.[8] Alguns pensadores modernos têm o péssimo hábito de negar milênios de história — milênios que se traduzem coisas —, como sendo impossível. Como conheceria eu a Homero se não tivesse havido a tradução deste [já que não sei grego]? Perde-se algo? Algo se perde! Perde-se um pouco deste ângulo pelo qual o povo grego de então via o mundo. Se perde o ângulo, mas não a coisa, e a coisa é traduzível. Cabe ao tradutor literário sim, quanto possível, reproduzir até o mesmo ângulo pelo qual dado autor via o mundo.

Quero dizer que exatamente porque a arte de traduzir é uma arte serviçal, porque o tradutor não é coautor, recriador nem nada  semelhante senão que é um servo, é que tudo vale para que determinada obra seja o mais perfeitamente legível para o público para o qual traduzo. Assim, não há nada de mal — desde que se aponte — em valer-se do sucesso alheio. Dou um exemplo: no livro de Duns Scot, Sobre o [ou Tratado do] Primeiro Princípio (É Realizações, 2015), do qual traduzi, não tinha nenhuma experiência na tradução de Duns Scot (que, ademais, inventava muitos termos e giros sintáticos desconhecidos para mim); então vali-me grandemente nestas partes difíceis da tradução ao espanhol de Félix Ayuntis (Macchi), e embora a tradução não se faça do texto da Macchi, vali-me sempre que necessário dos achados de Félix. Por quê? Ele é um escotista, domina a matéria e eu não poderia senão segui-lo. Aliás, pude exercer na tradução deste livro de Duns Scot algo que é muito bom, ou seja, pude contestar em nota, o mesmo Duns Scot, sempre que ele — sem citar — critica Santo Tomás de Aquino.

Então, quer dizer que vale sim o uso de traduções alheias desde que isto favoreça a leitura de dada obra pelo público a que se dirige a tradução. E isto é assim porque, repita-se, porque o tradutor é um serviçal. Ele não é o autor, coautor ou recriador da obra. Ele é um homem esforçado que tem o hábito artístico intelectual da tradução, que o domina. Mas sua mesma arte é uma arte essencialmente auxiliar, nada mais que isso. É uma arte auxiliar que visa a superar, na medida do possível, a contradição que implica a variabilidade linguística das línguas à contradição que se implica com o fim precípuo da linguagem e da gramática, ou seja, da língua falada e da língua escrita, a saber, a comunicação de concepções, juízos e raciocínios.

É uma bela arte, mas exige humildade, esforço, disciplina e crescimento. Não recomendo a ninguém que se aventure por esta arte sem estar dotado exatamente desta arte.

 

2. Sobre a tradução e a gramática

Trata-se de duas artes. A Gramática é a arte da escrita, como aliás indica seu etmo grego mesmo. Que arte é a Tradução? A tradução é a arte de tornar mutualmente compreensíveis línguas diversas, e portanto incompreensíveis em algum grau. Obviamente, o espanhol nos é mais compreensível que o russo, mas ainda sim a tradução é a arte que se ocupa de tornar compreensíveis mutualmente as diversas línguas que há, ou que houve. Ainda há línguas desaparecidas que ainda é possível traduzir.

Naturalmente, a tradução não é só tradução escrita, pois também o é a falada. E neste sentido, o que vamos dizer aqui vale também para a tradução falada; mas, como é natural, valerá maiormente para a tradução escrita, e em particular para a chamada tradução literária. Vejam, não entenda tradução literária em sentido estrito, ou seja, apenas como tradução daquelas obras de literatura artística, chamadas artísticas, senão que também incluo na chamada tradução literária os livros de História, Ciências, Direito e coisas que tais — meu conceito de tradução literária é bastante amplo, mas o que direi aqui também vale para a tradução mais estritamente considerada técnica.

Como já disse, durante dez longos e profícuos anos, ministrei aulas numa Pós-Graduação de Tradução em que ministrava tanto tradução de autores clássicos como também de autores contemporâneos, e também [a cadeira de] Língua Portuguesa. Ou seja, ocupava-me destas três cadeiras, mas agora ao final, pois no início eram duas: os clássicos e a língua portuguesa; por fim, acabei por assumir também a tradução de literatura contemporânea.

Um dos problemas principais, senão o principal que pude constatar entre os milhares de alunos que tive, é que vinham eles com a seguinte ilusão (porque disto se trata — ilusão): “Conheço muito bem a língua inglesa, portanto sou capaz de traduzi-la ao português. Conheço perfeitamente o espanhol, pois vive dez anos em Madrid, logo tenho plena capacidade de traduzir o espanhol ao português. Vive tantos anos em Paris! Por esta razão, tenho plenas condições de traduzir esta árdua língua [o francês] ao português. Pois bem, é uma ilusão, um equívoco e fonte de diversas frustrações desse mesmo alunato quando se vê diante da realidade, ou seja, diante do mercado de trabalho.

Partamos de um pressuposto claro, límpido, transparente — não é possível traduzir bem ao português, por mais que se saiba a língua de que se traduz se não se tem domínio muito grande, ao menos, da língua portuguesa. Por quê? Porque é nela que vamos escrever. Não vamos escrever na língua inglesa, mas traduzir a língua inglesa para escrever aquilo que está dito nela agora em português; tampouco se trata somente de entender o que se lê. Quantos e quantos conheci que tem perfeita — ou quase isso — proficiência na leitura de uma língua estrangeira, e, no entanto, na hora de plasmar aquilo que ele lê em sua própria língua — ou seja, na língua portuguesa — fracassa. Obviamente, traduzir, que é uma arte, como acabei de dizer, pressupõe certo pendor; não nos iludamos também quanto a este ponto, isto é, certo pendor, certo talento. Mas pressuposto este pendor, este talento, o que se lhe segue de principal não é o domínio da língua estrangeira, senão que é o domínio do próprio português. Exemplifiquemo-lo com um simples fato: dizem que o melhor tradutor de Shakespeare ao francês era um grande poeta que não sabia inglês, que não dominava perfeitamente. Que fez ele? Diante daquele muro intransponível que era o inglês antigo de Shakespeare, perturba durante uma década a todos os seus amigos que tinham proficiência na língua inglesa, aos melhores dicionários Inglês-francês e, entendido o que aquela poesia inglesa queria dizer e a maneira em como ela se expressava artisticamente em versos, pôde ele plasmá-lo na melhor tradução francesa deste autor inglês. Isto é plenamente possível. Vejam que não é isto que recomendo, obviamente. Este é um caso excepcionalíssimo, até porque se tratava de um grande poeta.

O normal é que sejamos da seguinte maneira: tenhamos o mais perfeito domínio da língua portuguesa e um grande domínio da língua estrangeira — quanto maior, melhor. Se se iguala ao domínio que temos de nossa língua, o que também é raro, melhor. Mas o alicerce da arte, o principal, a viga mestra, a pedra de toque, a pedra angular do bem traduzir é o domínio, suposto aquele pendor, da língua para a qual se traduz. Esta é a pedra angular da construção tradutória.

Vou dar-lhes alguns exemplos do espanhol. Lembro-me que nestes dez anos de ensino de tradução dava eu sempre um conto de certo autor conhecido em língua espanhola. O conto começava com a seguinte frase: “[…] hubiera querido quedarme em mi cuarto leyendo…”.[9] Pois que me lembre muito poucos acertaram na tradução desta primeira frase. A tradução correta não pode não ser “teria querido [ou gostado] de ficar em meu quarto lendo”; mas retocavam-me: “Mas não é comum esse português! ” Não é comum porque não se tem domínio perfeito de nossa língua. É um tempo verbal composto perfeitamente legítimo e usado perfeitamente pelos melhores — ao espanhol, ao francês, e ao português.

Vejam, não se trata de exercer um ofício meio daninho que é o de caçar na tradução alheia erros. Não há tradução sem erros, nunca houve, nem as mais importantes; é impossível, somos humanos! E tem que ver com a dificuldade com certa impenetrabilidade das próprias línguas. Há sempre errinhos, mas claro que há limites. Lembro-me que quando traduzi um livro de Chesterton busquei socorro numa tradução espanhola renomada, reputada, excelente, magnífica, definitiva, e para minha surpresa encontro ali no conto deste livro do autor inglês chamado “The Reed House” (ou seja, A Casa de Junco) como tradução disto em espanhol — La Casa Roja (A Casa Vermelha). Ou seja, nosso tradutor confundiu gravemente reed (junco) com red (vermelho), o que é um absurdo total. Também em certa tradução de Don Quixote se lê como tradução de um personagem apelidado de “El zurdo” com z (zeta), ou seja, um canhoto com todas as repercussões religiosas e morais que esta palavrinha implica em português e em espanhol; e vê-se ali por tradução “O surdo” com s, como se estivera escrito em espanhol com s. Ou seja, não se trata destes errinhos, e estes “errinhos” que são, na verdade, grandíssimos erros, não se pode cometer; os demais se podem, mas tão grave ou talvez mais do que estes grandes erros é o não conseguir plasmar no que em nossa língua haja de mais equivalente com respeito àquele texto que se traduz. Trata-se de algo geral. Conseguiu-se ou não se conseguiu transpor corretamente para nossa língua? Depende em parte, claro, daquele pendor, mas depende grandemente de um perfeito domínio de nossa própria língua com o que podemos plasmar — então aquelas ideias mais perfeitamente em nosso idioma. É o que acabamos de ver com este exemplo da frase “[…] hubiera querido quedarme em mi cuarto leyendo…” (teria querido [ou gostado] de ficar em meu quarto lendo). Assim se deve começar a tradução deste conto, mas há mais em espanhol. Por exemplo, todos sabemos que em espanhol se põe a preposição a antes de nome de pessoa ou de animal. E em português? Sim ou não? Depende. Há casos em que sim e há casos em que não; depende, portanto, de sabermos em que casos sim e em que casos não.

Passemos ao inglês. Nós [falantes de português] temos duas vozes chamadas passivas: a voz passiva analítica e a voz passiva sintética. Em inglês há uma só voz passiva: a analítica. Devemos traduzi-la sempre por nossa voz passiva analítica? Não. Mas quando devemos traduzi-la por nossa voz passiva analítica ou por nossa voz passiva sintética? Depende do domínio que tenhamos da língua portuguesa, porque devemos usar (ao contrário do que diz a maioria das gramáticas) um ou outra de acordo com o caso de que se trata — há normas para isso, há regras, há tendências, há orientações para isto. O inglês, ademais, é uma língua que costuma muito mais que nós elidir o artigo. Pois bem, em que situações devemos acompanhar o inglês nesta elisão ou devemos não acompanhá-lo? Devemos usar ou não usar o artigo? Em que condições? Em que contextos gramaticais? Pensam que é uma coisa simples? Não é; é muito complexo. E o que se mais vê em traduções de inglês, de todos os níveis, são as famosas enumerações em que se começa no primeiro elemento da enumeração usando-se artigo e nas demais não. Isto, em princípio, não está bem em português, e tantos outros casos. Ademais, na mesma língua inglesa, usa-se obrigatoriamente, pela perda flexional dos verbos, os pronomes pessoais do caso reto. Ora, em português às vezes os usamos, às vezes não os usamos. Quando devemos fazê-lo ao traduzir do inglês? É preciso dominar as regras de nossa língua, de nossa gramática que no-la indicam.

Passemos agora ao francês. O francês tem o mesmo problema pela flexional dos verbos na fala, não na escrita; é de regra sempre se usarem os pronomes pessoais do caso reto. Pois bem, uma boa tradução do francês implicará, assim como uma boa tradução do inglês, que saibamos quando devemos ou não devemos usar estes pronomes. Em francês ainda: o imperfeito do indicativo francês pode traduzir-se por nosso imperfeito do indicativo ou pelo imperfeito do subjuntivo. Quando fazê-lo? Quando usar um ou outro? É preciso aprofundar-se, estudar, dominar as regras dos usos dos diversos usos, modos, vozes verbais em nossa língua. Sem isso não se fará uma boa tradução do francês. Também neste quesito, um último caso ainda para o francês: o famoso on. Se digo on chante (canta-se), este on é o famoso indeterminador universal do sujeito. Pois bem, este pronome on pode traduzir-se quer pelo nosso se indeterminador do sujeito quer pelo se apassivador com a consequência da devida flexão verbal. Quando usá-lo? Quando usar um, quando usar outro? Podemos aliás traduzir muitas vezes on chante por nós cantamos, por exemplo. Quando usar o nós, quando usar o se apassivador, quando usar o se indeterminador em português? Depende do domínio que tenhamos de nossa língua. E ainda um último exemplo em francês, uma partícula dificilíssima: on.[10] Podemos traduzi-lo por um pronome oblíquo de posse; podemos traduzi-lo por um simples possessivo, e assim por diante. Ainda em francês, há um y que é a tortura desta língua árdua que é o francês. Às vezes, este ípsilon pode ser um advérbio de lugar; em outras pode ser um acusativo, um objeto direto, e traduzir-se-á então por um pronome adequado; ou até por um pronome que indique o dativo ou o objeto indireto.

Isto são pequeníssimos, parquíssimos exemplos da dificuldade tradutória com respeito a três línguas, e que não se revolvem satisfatoriamente senão com o domínio que tenhamos de nossa própria língua.

Pois bem, mais uma vez, a todos vocês que são ou querem ser tradutores, e especialmente a todos que passaram pelas minhas aulas, repito aqui o que disse ao longo de todas elas: “Aprendam o português, tenham domínio, tornem-se senhores de nossa língua, tornem-se senhores de sua própria língua”. Claro que isto não elimina o estudo da gramática, não elimina a leitura dos nossos melhores autores ao longo do tempo. Não elimina o pendor, a queda, o talento, a leitura (mais ou menos assídua dos nossos melhores escritores), mas é ponto imprescindível, é viga mestra do bem traduzir o ter domínio de nossa língua.

Ora, como se trata especialmente da tradução escrita, trata-se então de ter domínio das regras da arte gramatical, o que por reflexo fará com que também se domine melhor a tradução oral. Porque como vimos, o bem falar em grande parte decorre do bem escrever, do exercício da escrita e da boa leitura; e do domínio das regras, insista-se, da arte gramatical.

Referências e notas diversas:

— Video da primeira parte;

— Video da segunda parte.

[1] Convido-os que releiam um artigo que está na página Estudos Tomistas chamado “O    que é a Ideologia”. Ali faço uma distinção entre arte e experiência.

[2] Miguel de Cervantes Saavedra. O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote da Mancha. São Paulo: Record, 2005.

[3] É neste sentido que recomendo a leitura de um autor com que nada mais tenho em comum que é Umberto Eco, seu livro Quase a Mesma Coisa. Pois exatamente coincide grandemente com meus pontos de vista; sobretudo por um conceito muito importante que propõe Umberto Eco que é o de “margem de negociação”.

[4] Traduzi vários livros de S. Tomás, mas aquele em que fui mais bem-sucedido foi no último,  [o  que  não  é  de  se  estranhar]  porque  a  idade vai melhorando-nos em  várias coisas.   É   minha  tradução  do  Compêndio  de  Teologia  para  a  editora  Concreta. Ali, parece-me, que consegui o melhor de mim quanto a tradução, não só fidelíssima do ponto de vista filosófico e teológico e linguístico de S. Tomás, mas a mesma maneira  de plasmar essas ideias nesta forma adaptada chamada cursus.

[5] É muito difícil que se tenha alta qualidade em seu trabalho antes que se tenha 50, 60 anos; é muito difícil! Claro que sempre há espaço para genialidades.

[6] Para melhor aproveitar a venusta e distinta pronúncia deste l lateral alveolar final, recomendo que se remetam a exatamente 18:06 do outrora referido vídeo. Em seguida, agradeçam-me. [NT]

[7] Esta era uma tese de Benedetto Croce. A tradução [para ele], sobretudo a literária, afigurava-se impossível.

[8] Isto de que as línguas vejam o mundo por ângulos diferentes, conquanto vejam a mesma coisa, explico detidamente [uma vez mais] na Suma Gramatical da Língua Portuguesa (É Realizações, 2015); mas impossível não o é.

[9] Trecho de conto de Julio Cortázar chamado “Después del almuerzo”.

[10] Depois, aliás, reclamam das nasais portuguesas, pois o francês abunda em nasais muito mais que nós. Possui um grau de complexidade muito maior que nós na própria flexão fonética.

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