Correspondência de Leo Strauss e Eric Voegelin sobre Karl Popper

Leo Strauss:

Gostaria de pedir-lhe que, quando estiver livre, me responda o que acha do Sr. Popper. Ele palestrou por aqui sobre os objetivos da filosofia social, que é comumente desprezada; e foi um desbotado e descarado positivismo colocando sua cabeça para fora da cova[1], ligado a uma completa incapacidade de pensar ‘racionalmente” embora venda-se aos incautos como racionalismo – foi horrível. Não consigo me imaginar lendo-o, mas, no entanto, parece ser nosso dever profissional estarmos familiarizados com suas produções. Poderia me dizer algo sobre – e se o desejar, guardarei a resposta para mim.

Eric Voegelin:

Prezado Sr. Strauss, a oportunidade de dizer algumas poucas, porém profundas palavras sobre Karl Popper a uma alma tão querida é algo que deve ser feito sem demora. Esse Popper foi por anos não exatamente uma pedra no meu sapato, mas um irritante cascalho que precisa ser a todo momento chutado para fora do caminho, pois algumas pessoas insistem em colocá-lo na minha frente constantemente como se A Sociedade Aberta e Seus Inimigos fosse alguma obra prima da ciência social de nossa era. Essa insistência me convenceu a ler obra, que em outras circunstâncias permaneceria intocada. E você está certíssimo em dizer que é nosso dever estarmos familiarizados com as obras de nosso campo de estudo; mas contra esse dever há outro: o de não escrever ou publicar tal obra. Em sua obra, Popper violou esse dever profissional [de não publicar tal obra] básico e me roubou muitas horas de vida que foram dedicadas ao dever profissional [de estar atualizado] de forma que me sinto justificado em dizer sem reservas que esse livro é uma porcaria sem vergonha e impudente. Cada um de seus períodos é escandaloso e é possível destacar algumas de suas pérolas.

  1. As expressões “Sociedade Aberta” e “Sociedade Fechada” foram retiradas do As Duas Fontes da Moral e da Religião do Henri Bergson. E sem explicar os pormenores de Bergson na criação destes conceitos, Popper os tomou para si por “soarem bonitinhos”, mas comenta de passagem que Bergson dava a eles um “sentido religioso”, mas que ele usaria o conceito de sociedade aberta com um sentido próximo do de “Grande Sociedade” do Graham Wallam ou do de Walter Lippman. Talvez eu seja sensível demais a essas coisas, mas eu não creio que filósofos sérios como Bergson desenvolvam conceitos como a intenção de que estes sejam deturpados a fim de que a escória do bar da esquina tenha algo para conversar sobre.[2] Isso nos traz o notório problema de que, se a teoria da sociedade aberta de Bergson for historicamente defensável (e de fato acredito que o seja), a de Popper não passa de lixo ideológico.[3]
  1. O impertinente desrespeito com os méritos de sua e com os problemas de sua área de pesquisa – que é muito presente em Bergson – é onipresente na obra. Quando lemos considerações acerca de Platão ou Hegel, temos a impressão de que Popper não está familiarizado com a bibliografia do assunto – embora ele ocasionalmente cite um ou outro autor. Em alguns casos, como por exemplo o de Hegel, tendo a acreditar que ele nunca viu uma obra como Hegel e o Estado de Rosenweig. Em outros casos, ele cita obras sem parecer ter entendido seu conteúdo, e ainda tem mais.
  1. Popper é filosoficamente tão inculto, tão completa e intratavelmente um ideólogo tosco, que não consegue sequer reproduzir corretamente o conteúdo de uma única página de Platão. Ler é algo dispensável para ele; ele é muito limitado intelectualmente para entender o que o autor diz. Disso surgem terríveis erros, como quando traduz o “Mundo germânico” de Hegel como “Mundo alemão” e desse erro de tradução tira conclusões sobre a propaganda nacionalista de Hegel.
  1. Popper não se empenha na análise textual pela qual poderia se saber qual é a intenção de um autor; em vez disso, ele transpõe clichês ideológicos modernos nos seus escritos, esperando que o texto traga os resultados junto ao entendimento do sentido dos clichês. Seria especialmente prazeroso para você ler que, por exemplo, Platão passou por uma evolução, partindo de um período “humanitário” ainda reconhecível no Górgias, para algo (não consigo mais lembrar se ele disse “reacionário” ou “autoritário”) na República.

… Em suma: o livro de Popper é um escândalo sem qualquer circunstância extenuante; sua atitude intelectual é o típico produto de um intelectual fracassado: espiritualmente, faz-se necessário o uso de expressões ríspidas como patife, impertinente, ou indecente; em termos de competência técnica, como peça da história do pensamento, é diletante, e o resultado é desprezível.

Não seria adequado mostrar esta carta aos não qualificados. No que diz respeito ao seu conteúdo factual, eu consideraria uma violação do dever vocacional que você identificou, apoiar esse escândalo através do silêncio.

Leo Strauss:

Caro Sr. Voegelin, nunca o agradeci pela interessante carta do dia 18/4. Em privado, eu gostaria de dizer que mostrei sua carta para o meu amigo Kurt Riezler, que foi então encorajado a empenhar a influência não desprezível que possui para se contrapor à provável indicação de Popper para esta instituição. Você, portanto, nos ajudou a prevenir um escândalo.[4]

Original: http://www.freerepublic.com/focus/f-news/886472/posts?page=72#72

[1] “It was the most washed-out, lifeless positivism trying to whistle in the dark”. Gíria.

[2] “Concepts for the sole purpose that the coffeehouse scum might have something to botch.” Preferi abrasileirar a expressão para fins de melhor entendimento do – explosivo – sentimento ali exposto.

[3] “Then Popper’s idea of the open society is ideological rubbish.” Isso deveria ser posto num quadro.

[4] A última parte copiei da tradução de Leonildo Trombela Júnior, por não ter encontrado o original disponível. Utilizei-a ainda para fins de refinamento.

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