As Ideologias de Esperança

Por Christos Yannaras

Parte da “fisionomia” característica da idade moderna é a transposição de perspectivas sociais em projetos ideológicos e teleologias.

O termo “ideologia” tem a sua origem nas primeiras esquematizações teóricas da era moderna: Destutt de Tracy usou pela primeira vez em 1796, marcando o início da fé no Iluminismo ao afirmar que a reforma social resulta da reorganização de idéias: Apenas quando as ideias das pessoas mudam — suas percepções individuais, convicções e interpretação da realidade, sua compreensão da natureza e da história, das metas e obrigações, do sentido da existência e de vida — é que formas sociais desejadas e novas surgem.

A demanda por novas “ideias” implica que a mudança deva ser expressa em um sistema e colocado em prática. Se as “ideias” precisam ser mudadas, as existentes devem ser prejudiciais e enganosas. A confirmação de um erro ou de nocividade justifica a apresentação de uma contra-proposta, legitimando o esforço de imposição.

Assim, a ideologia é engendrada pela lógica de romper e lutar contra o passado. Torna-se específica, propondo novas ideias que as pessoas devem adotar se quiserem libertar-se como indivíduos e como sociedades “sombrias” do passado medieval: ideias que bloqueiam o progresso em direção às formas de sociedade desejadas devem ser postas de lado e a fé nos objetivos desejados deve ser imposta a todos.

Tais demandas ignoram as áreas marginais onde novas ideias podem ser geradas naturalmente pelas necessidades do corpo social. A ideologia domina porque seus seguidores estão convencidos de que as ideias predominantes são erradas e prejudiciais. As ideias corretas e mais rentáveis são moldadas com antecedência sem referência ao corpo social. A ideologia interpreta necessidades sociais e individuais, as necessidades que as pessoas devem ter, por si só e a priori. E impõe sistematicamente ideias previamente moldadas.

A ideologia é, por definição, uma construção racionalista. Ela emerge da crítica racional de ideias existentes, e sua própria contra-proposta não pode ser mais do que argumentos racionais em modelos “objetivamente” válidos do ponto de vista social pretendido. A sistematização racionalista antecipa as necessidades sociais e não teria nenhuma chance de sucesso se não tivessem como objetivo, dentre outros, o de despertar desejos coletivos. Desejos coletivos e gerais brotam de impulsos inatos, como o desejo de auto-preservação ou a busca egocêntrica pelo poder.

Assim, a ideologia representa algo mais que suas propostas de novas percepções, convicções e interpretações. Ela pode transformar o desejo em uma convicção-interpretação-meta, que não precisam corresponder às circunstâncias reais da vida, uma vez que estas estão a ser transformadas. Partindo de motivos racionais para mudar a realidade, a ideologia, muitas vezes transforma o seu próprio racionalismo em um misticismo, atingindo uma completa negação da realidade por causa da ilusão desejada. Freud demonstrou como esse “poder da ilusão” funciona e estudos posteriores, baseados em Freud, constituíram uma crítica impressionante das ideologias modernas.

Certamente, a função de ideologias na idade moderna é complicada, contribuindo para a “fisionomia” das sociedades modernas; ideologias têm substituído a ontologia que foi rejeitada ou conscientemente marcada como falsas. O caráter “soteriológico” das ideologias, significa que elas prometem cumprir esperanças coletivas.

As ideologias não respondem diretamente a questões ontológicas — nem pretendem responder. Elas são sempre claramente antropocêntricas e sociocêntricas: prometem mudanças institucionais e organizacionais na sociedade como um todo, nas relações de trabalho e no funcionamento da economia, que levará a “felicidade geral”. A ideologia entrelaça programas esquemáticos com promessas eudamonísticas assim casando o racionalismo com ilusões estimadas incompatíveis.

Este casamento perfeito sempre tem seus pressupostos ontológicos invisíveis ou não reconhecidos, que ajudam a ideologia estabelecer sua aceitação, se não auto-evidente, obrigatória. Ideologias sociais modernas tipicamente ignoram as questões relativas ao princípio da existência, a auto-consciência subjetiva, o caráter absoluto existencial da alteridade, a relatividade definitiva do sujeito, ou qualquer outra questão em sua maior parte sem resposta. Ideologias sociais funcionam no nível dos desejos coletivos e nas promessas eudamonicas com critérios antropocêntricos concomitantes pressupondo o princípio “aleatório” da existência, e um agnosticismo correlativo. Concebem a existência, a natureza e a história em uma suposição axiomática da auto-suficiência existencial, a autonomia humana livre de todas as ideias sobre casualidade ou providência.

Esta autonomia existencial explica o poder das ideologias na meta de “progresso”. Dentro deste quadro ideológico, os seres humanos aspiram a ser gestores de suas esperanças, criadores de seu próprio futuro. A natureza com seus ricos recursos e fontes de energia está à espera da mente humana para domá-la, intervindo em seu funcionamento mais íntimo para satisfazer a necessidade de conforto e facilidade. Ideologias irão propor formas e meios para uma gestão mais produtiva da autonomia existencial da humanidade, que pode ser imposta constituindo uma esperança de “progresso” e “felicidade geral”. O elemento de esperança, a promessa eudamonística material ou espiritual constitui a dinâmica ideológica. As ideologias de esperança, de esquemas racionalistas realistas para as mais loucas ilusões utópicas, em grande parte formada na idade moderna.

Metafísica Pós-Moderna por Christos Yannaras (Meta-neoterike meta physike, Athens, 1993

Traduzido Por Tony Pedroza

1 comentário em “As Ideologias de Esperança”

Deixe uma resposta

Spam Protection by WP-SpamFree

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.