Russell Kirk: A Imaginação Moral

Nas franquias de livrarias, as prateleiras estão cheias de peras espinhosas e frutos do Mar Morto da decadência literária. No entanto, nenhuma civilização repousa para sempre contente com o tédio literário e a violência literária. Mais uma vez, uma consciência pode falar a outra consciência nas páginas dos livros, e a geração ressecada pode avançar em direção às fontes da imaginação moral. A primeira palestra anual neste novo Centro para o Estudo dos Valores Cristãos na Literatura é um esforço para descrever o alto poder de percepção e descrição que tem sido chamado de “imaginação moral”, e relacionar essa imaginação ao que Chateaubriand chamou de “o gênio do cristianismo”. O que uma vez foi, pode ser novamente.

O que é essa “imaginação moral”? A frase é de Edmund Burke, e ocorre em suas Reflexões sobre a Revolução na França. Burke descreve a destruição de maneiras civilizadoras pelos revolucionários:

“Toda a roupagem decente da vida está para ser rudemente arrancada. Todas as ideias ajuntadas, oferecidas no guarda-roupa de uma imaginação moral, que o coração possui, e o entendimento ratifica, como necessárias para esconder os defeitos de nossa natureza árida e corrompida, e para erguê-la à dignidade de nossa estima, estão para ser rebentadas como uma moda ridícula, absurda e antiquada.

Neste esquema de coisas, um rei não é senão um homem; uma rainha não é senão uma mulher; uma mulher não é senão um animal; e um animal não da mais alta ordem. Toda homenagem prestada ao sexo em geral como tal, e sem visões distintas, é para ser considerada como romance e tolice… No esquema dessa bárbara filosofia, que é a prole de corações frios e entendimentos lamacentos, e que é tão vazia de sabedoria sólida como é destituída de todo gosto e elegância, leis são para ser suportadas apenas por seus próprios terrores, e pela concernência que cada indivíduo pode encontrar nelas de suas próprias especulações privadas, ou pode poupar a elas de seus próprios interesses privados. Nos arvoredos da academia deles, ao fim de toda vista, você não vê nada a não ser a forca…

Nada é mais certo que nossas maneiras, nossa civilização, e todas as coisas boas que são conectadas com maneiras e com civilização, têm, nesse nosso mundo Europeu, dependido por eras sobre dois princípios; e foram de fato o resultado de ambos combinados; eu quero dizer o espírito de um cavalheiro, e o espírito de religião.”

Por essa “imaginação moral”, Burke significa aquele poder de percepção ética que ultrapassa as barreiras da experiência privada e eventos momentâneos “especialmente”, como diz o dicionário, “a forma mais elevada desse poder exercida na poesia e na arte”. A imaginação moral aspira à apreensão da ordem correta na alma e a ordem correta na comunidade. Essa imaginação moral era o dom e a obsessão de Platão, Virgílio e Dante. Delineados a partir de séculos de consciência humana, esses conceitos da imaginação moral – postos de forma tão vigorosa, embora breve, por Burke – são expressos novamente de era em era. Assim é que os literatos em nosso século cujo trabalho parece mais provável de durar não foram neoteristas, mas sim portadores de um padrão antigo, abandonados por nossos modernos ventos de doutrina: os nomes de Eliot, Frost, Faulkner, Waugh e Yeats podem ser suficientes para sugerir a variedade dessa imaginação moral no século XX.

É a imaginação moral que nos informa sobre a dignidade da natureza humana, que nos instrui que somos mais do que macacos nus. Como Burke sugeriu em 1790, as letras e o aprendizado são vazios se privados da imaginação moral. E, como sugeriu Burke, o espírito da religião sustentou por muito tempo essa imaginação moral, juntamente com todo um sistema de boas maneiras. Faltando essa imaginação, para citar outra passagem de Burke, somos lançados “deste mundo da razão e ordem, e paz, e virtude, e penitência frutífera, para o mundo antagonista da loucura, discórdia, vício, confusão e irremediável sofrimento.”

Burke sugere que existem outras formas de imaginação além da imaginação moral. Ele estava bem ciente do poder da imaginação de Jean Jacques Rousseau, “o Sócrates louco da Assembléia Nacional”. Com Irving Babbitt, podemos chamar o modo de imaginação representado por Rousseau de “a imaginação idílica” – isto é, a imaginação que rejeita velhos dogmas e velhas maneiras e se alegra com a noção de emancipação do dever e da convenção. Vimos essa “imaginação idílica” fascinar muitos jovens na América durante os anos sessenta e setenta – embora a maioria desses devotos nunca tenha lido Rousseau. A imaginação idílica normalmente termina em desilusão e tédio.

Quando isso ocorre, muitas vezes uma terceira forma de imaginação obtém ascendência. Em suas palestras intituladas After Strange Gods (1934), T. S. Eliot aborda a imaginação diabólica: aquele tipo de imaginação que se encanta no perverso e no subumano. O nome de Sade vem logo à mente; mas Eliot encontra “as operações frutíferas do espírito maligno” nos escritos de Thomas Hardy e D. H. Lawrence também. Quem estiver interessado na imaginação moral e na imaginação anti-moral deve ler atentamente After Strange Gods. “O número de pessoas que possuem algum critério para discriminar entre o bem e o mal é muito pequeno”, conclui Eliot; “o número de meios-vivos famintos por qualquer forma de experiência espiritual, ou para o que se oferece como experiência espiritual, alta ou baixa, boa ou má, é considerável. Minha própria geração não os serviu muito bem. Nunca a imprensa esteve tão ocupada, e nunca houve tantas variedades de disparates e doutrinas falsas. Ai dos profetas loucos, que seguem o seu próprio espírito, e nada viram!”

Essa “imaginação diabólica” domina a maioria da ficção popular hoje em dia; e na televisão e nos teatros, também, a imaginação diabólica se pousa e se firma. Em certa noite, hospedei-me em um novo hotel da moda; meu quarto de solteiro custa cerca de oitenta dólares. Eu poderia ajustar o aparelho de televisão do quarto a certos filmes, por um extra de cinco dólares. Depois das dez horas, todos os filmes oferecidos eram extremamente pornográficos. Mas até mesmo os filmes “da tarde”, antes das dez, sem exceção, eram produtos da imaginação diabólica, na medida em que serviam à ânsia de violência, destruição, crueldade e desordem sensacional. Aparentemente, nunca ocorreu aos gerentes deste hotel da moda que qualquer de seus afluentes patronos, de qualquer idade e sexo, desejassem filmes decentes. Como Eliot falou na Universidade de Virgínia em 1933, chegamos muito longe na estrada para Avernus. E, à medida que a literatura se afunda no perverso, a civilização moderna cai para sua ruína: “A maré ofuscada pelo sangue se solta, e em todos os lugares / A cerimônia da inocência se afoga.”

Assim, tendo observado a existência da imaginação moral, a imaginação idílica e a imaginação diabólica, atrevo-me a lembrá-lo do verdadeiro propósito das humanidades. Como C. E. M. Joad aponta em seu livro Decadence: A Philosophical Inquiry (1948), o que chamamos de “decadência” equivale à perda de um fim, um objeto. Quando a literatura perde de vista seu objeto ou propósito real, a literatura é decadente.

Qual é então o fim, objeto ou propósito das humanidades? Ora, a expressão da imaginação moral; ou, para colocar esta verdade em uma frase mais familiar, o fim dos grandes livros é ético – nos ensinar o que significa ser genuinamente humano.

Todas as principais formas de arte literária tomaram por seus temas mais profundos as normas da natureza humana. O que Eliot chama de “as coisas permanentes” – as normas, os padrões – têm sido a preocupação do poeta desde o tempo de Jó, ou mesmo desde Homero: “o cego que vê” que cantou as guerras dos deuses com os homens. Até muito recentemente, os homens tinham como certo que a literatura existe para formar a consciência normativa – isto é, ensinar aos seres humanos sua verdadeira natureza, sua dignidade e seu lugar no esquema das coisas. Tal era o esforço de Sófocles e Aristófanes, de Tucídides e Tácito, de Platão e Cícero, de Hesíodo e Virgílio, de Dante e Shakespeare, de Dryden e Pope.

A própria frase “humanidades” [1] implica que a grande literatura serve para nos ensinar o que é ser totalmente humano. Como Irving Babbitt observa em seu pequeno livro Literature and the American College (1908), o humanismo (derivado do latim humanitas) é uma disciplina ética, destinada a desenvolver a pessoa verdadeiramente humana, as qualidades da virilidade, através do estudo de grandes livros. A literatura do niilismo, da pornografia e do sensacionalismo, como Albert Salomon sugere em The Tyranny of Progress (1955), é um desenvolvimento recente, surgido no século XVIII – embora tenha atingido o auge em nosso tempo – com a decadência da visão religiosa da vida e com o declínio do que tem sido chamado de “A Grande Tradição” em filosofia.

Esse propósito normativo das letras é especialmente poderoso na literatura inglesa, que nunca sucumbiu ao egoísmo que dominou as letras francesas no final do século XVIII. Os nomes de Milton, Bunyan e Johnson – ou, na América, de Emerson, Hawthorne e Melville – podem ser ilustrações suficientes do ponto. Os grandes romancistas populares do século XIX – Scott, Dickens, Thackeray, Trollope – assumiram que o escritor está sob uma obrigação moral de normalidade – isto é, explícita ou implicitamente, de certos padrões duradouros de conduta privada e pública.

Agora, não quero dizer que o grande escritor expressa incessantemente as homilias. Com Ben Jonson, ele pode “flagelar as loucuras do tempo”, mas ele não costuma murmurar: “Seja boa, doce empregada, e deixe quem seja inteligente”.[2] Em vez disso, o literato ensina as normas de nossa existência através de alegoria, analogia e segurando o espelho da natureza. O escritor pode, como William Faulkner, escrever muito mais do que é mau do que daquilo que é bom; e, no entanto, exibindo a depravação da natureza humana, ele estabelece na mente do leitor a consciência de que existem padrões duradouros dos quais caímos; e que a natureza humana caída é uma visão feia.

Ou o escritor pode lidar, como fez J. P. Marquand, principalmente com a trivialidade e o vazio de uma sociedade que esqueceu padrões. Muitas vezes, em seu apelo de uma consciência a outra consciência, ele pode remar com remos abafados; às vezes ele pode estar apenas vagamente ciente de sua função normativa. Quanto melhor o artista, pode-se dizer, mais sutil o pregador. A persuasão imaginativa, não a exortação contundente, comumente é o método do defensor literário das normas.

Vale a pena observar que o poeta mais influente de nossa época, Eliot, buscou restaurar à poesia, ao drama e à crítica modernos suas funções normativas tradicionais. Nisso ele se via como o herdeiro de Virgílio e Dante. O poeta não deve forçar seu ego sobre o público; em vez disso, a missão do poeta é transcender o pessoal e o particular. Como Eliot escreveu em “Tradition and the Individual Talent,” o primeiro ensaio encontrado em Selected Essays, 1917-1932 (1932):

Não é em suas emoções pessoais, as emoções provocadas por eventos particulares em sua vida, que o poeta é de alguma forma notável ou interessante. Suas emoções particulares podem ser simples, cruas ou planas. A emoção em sua poesia será uma coisa muito complexa, mas não com a complexidade das emoções de pessoas que têm emoções muito complexas ou incomuns na vida. Um erro, de fato, de excentricidade na poesia é procurar novas emoções humanas para expressar; e nessa busca por novidade no lugar errado se descobre o perverso. O negócio do poeta não é encontrar novas emoções, mas usar as comuns e, ao transformá-las em poesia, expressar sentimentos que de fato não estão em emoções reais.

Então a poesia pura, e as outras formas de grande literatura, buscam o coração humano para encontrar nele as leis da existência moral, distinguindo o homem da besta. Ou assim foi até quase o final do século XVIII. Desde então, o egoísmo de uma escola dos românticos obscureceu o propósito primordial das humanidades. E muitos dos realistas escreveram sobre o homem como se ele fosse apenas brutal – ou, na melhor das hipóteses, brutalizado pelas instituições. (Assim surgiu a definição de Ambrose Bierce em The Devil’s Dictionary (1906): “Realismo, n. Uma representação precisa da natureza humana, como vista pelos sapos.”) Em nosso tempo, e particularmente na América, vimos a ascensão à popularidade de uma escola de escritores mais niilistas do que jamais foram os niilistas russos: a literatura do nojo e da denúncia, suficientemente descrita em Man in Modern Fiction (1958), de Edmund Fuller. Para os membros desta escola, o escritor não é defensor ou expositor de padrões, pois não existem valores para explicar ou defender; um escritor simplesmente registra, sem reservas, seu desgosto com a humanidade e consigo mesmo. (Isso é um mundo distante de Dean Swift – que, apesar de odiar a maioria dos seres humanos, os detestava apenas porque estavam aquém do que deveriam ser.)

Os nomes de nossos autores niilistas do século XX serão esquecidos em menos de uma geração, suspeito eu, enquanto de nossa época durarão as obras de alguns literatos cujo apelo é para as coisas duradouras e, portanto, para a posteridade. Penso, por exemplo, no romance de Gironella, The Cypresses Believe in God (1951). O gentil noviço que corta o cabelo e lava os corpos dos mais pobres dos pobres na velha Gerona, embora ele morra com balas comunistas, viverá por muito tempo no campo das letras; enquanto as personalidades escassamente disfarçadas de nossos autores niilistas, orgulhosamente arrogantes como personagens em best-sellers, serão extintas no momento em que a moda do público se aproximar de uma nova sensação. Pois, como a consciência normativa dá vida à alma e à ordem social, a compreensão normativa dá ao autor fama duradoura.

Malcolm Cowley, escrevendo alguns anos atrás no Horizon sobre a recente safra de primeiros romancistas, observou que os vários escritores que ele discutia mal haviam ouvido falar das Sete Virtudes Cardinais ou dos Sete Pecados Capitais. Crimes e pecados são apenas infelicidades para esses jovens romancistas; amor verdadeiro e ódio real estão ausentes de seus livros. Para esta crescente geração de escritores, o mundo parece sem propósito e as ações humanas sem sentido. Eles buscam expressar apenas um ego errante. (Jacques Barzun, em The House of Intellect [1959], tem algumas coisas sagazes a dizer sobre o orgulho injustificado dos aspirantes a escritores da década.) E Cowley sugere que esses jovens homens e mulheres, introduzidos a nenhuma norma na infância e na juventude exceto a atitude vaga de que se tem o direito de fazer o que gosta desde que não prejudique outra pessoa, são desprovidos de disciplina espiritual e intelectual, vazios, de fato, de desejo real por qualquer coisa.

Esse tipo de escritor sem propósito e infeliz é o produto de um tempo em que a função normativa das letras foi grandemente negligenciada. Ignorante de sua própria missão, tal escritor tende a pensar em sua ocupação como uma mera habilidade, possivelmente lucrativa, às vezes satisfatória para sua sanidade, mas dedicada a nenhum fim. Mesmo a escrita “proletária” dos anos vinte e trinta reconheceu algum fim; mas isso morreu de desilusão e inanição. Se os escritores estão nessa situação difícil, em consequência do clima de opinião “permissivo” predominante, o que dizer de seus leitores? Comparativamente, poucos leitores de livros hoje em dia, suspeito, buscam conhecimento normativo. Eles buscam divertimento, às vezes de caráter grosseiro, ou então buscam uma vaga “consciência” dos assuntos atuais e correntes intelectuais, adequada para conversas de coquetel.

Os jovens romancistas descritos por Cowley são do número dos “Homens Ocos” de Eliot. A natureza abomina o vácuo; nas mentes vagas de normas deve vir alguma força nova; e muitas vezes essa força nova tem um caráter diabólico.

Um crítico perceptivo, o Sr. Albert Fowler, escrevendo na Era Moderna, faz a pergunta: “Pode a Literatura Corromper?” – e responde afirmativamente. Então a literatura pode; e também é possível ser corrompida por uma ignorância das humanidades, sendo muito do nosso conhecimento normativo necessariamente derivado de nossa leitura. A pessoa que lê maus livros em vez de bons pode ser sutilmente corrompida; a pessoa que não lê nada talvez fique para sempre à deriva na vida, a menos que viva em uma comunidade ainda poderosamente influenciada pelo que Gustave Thibon chama de “hábitos morais” e pela tradição oral. E a absoluta abstinência de material impresso tornou-se rara. Se um menino não ler A Ilha do Tesouro (1883) de Robert Louis Stevenson, as probabilidades são de que ele leia Mad Ghoul Comics.

Então, acho que vale a pena sugerir os contornos da disciplina literária que induz alguma compreensão de valores duradouros. Durante séculos, tal programa de leitura, embora nunca chamado de programa, existia nas nações ocidentais. Isso influenciou poderosamente as mentes e ações dos líderes da infantil República Americana, por exemplo. Se alguém examina quais livros foram lidos pelos líderes da Revolução, os autores da Constituição e os principais homens da América antes de 1800, descobre-se que quase todos eles estavam familiarizados com alguns livros importantes: a versão do Rei James da Bíblia, Vidas Paralelas de Plutarco, Shakespeare, algo de Cícero, algo de Virgílio. Este foi um corpo de literatura altamente normativo. Os fundadores da República pensavam em sua nova comunidade como uma mistura da República Romana com instituições inglesas prescritivas; e eles tomaram como seus modelos em liderança os profetas, reis e apóstolos da Bíblia, e os nobres gregos e romanos de Plutarco. A virtude teimosa de Catão, os vaticínios eloquentes de Demóstenes, o impulso de reforma apressado de Cleomenes – tudo isso estava em sua mente; e eles temperaram sua conduta de acordo. “Mas hoje em dia”, como Chateaubriand escreveu há mais de um século, “os estadistas entendem apenas o mercado de ações – e isso mal”.

É claro que não foi apenas pelos livros que a compreensão normativa dos autores da Constituição, por exemplo, foi formada. Sua apreensão de normas foi adquirida também na família, na igreja, na escola e nos negócios da vida cotidiana. Mas aquela porção de sua compreensão normativa que foi obtida dos livros era grande. Pois não podemos atingir muito bem padrões duradouros se confiarmos simplesmente na experiência pessoal real como um mentor normativo. Experiência pura, como Franklin sugeriu, é o professor de tolos nascidos. Nossas vidas são breves e confusas demais para a maioria dos homens desenvolverem qualquer padrão normativo a partir de sua experiência privada; e como Newman escreveu: “A vida é para a ação”. Portanto, nos voltamos para o banco e capital das eras, o conhecimento normativo encontrado na revelação, autoridade e experiência histórica, se buscamos orientação em moral, gosto e política. Desde a invenção da imprensa, esse entendimento normativo tem sido expresso, cada vez mais, em livros, de modo que hoje em dia a maioria das pessoas forma suas opiniões, em parte considerável, a partir da página impressa. Isso pode ser lamentável às vezes; pode ser o que D. H. Lawrence chamou de “mastigar os jornais”; mas é um fato. Negue um fato, e esse fato será seu mestre.

Outro fato é que, por cerca de trinta anos, temos fracassado, aqui nos Estados Unidos, em desenvolver uma consciência normativa nos jovens através de um cuidadoso programa de leitura da grande literatura. Nós falamos sobre “educação para a vida” e “treinamento para adaptação à vida”; mas muitos de nós parecem ter esquecido que as disciplinas literárias são o principal meio de aprender a se ajustar às necessidades da vida. Além disso, a menos que a vida a que somos instados a nos ajustar seja regida por normas, ela pode ser uma vida muito ruim para todos.

Uma das falhas do típico “ajustamento à vida” ou do currículo “permissivo” nas escolas –paralelos, comumente, a atitudes similarmente indulgentes na família – tem sido a substituição do estudo da literatura verdadeiramente imaginativa por “situações da vida real”. Essa tendência tem sido especialmente perceptível nas séries mais baixas da escola, mas se estende acima até certo ponto no ensino médio. A escola de letras “Dick and Jane” e “run, spot, run” não desperta a imaginação; e transmite pouca apreensão de normas. Os apologistas deste aspecto da escola de ajuste à vida acreditam que estão incutindo respeito pelos valores prescrevendo leituras simples que recomendam um comportamento tolerante, amável e cooperativo. No entanto, esta não é uma forma eficaz de transmitir um conhecimento de normas: didatismo moral direto, seja da variedade vitoriana ou do século XX, geralmente desperta resistência no receptor, especialmente se ele tem algum poder intelectual natural.

O louvável elogio da bondade pode alienar; pode aguçar o apetite pelo pote de biscoitos na prateleira de cima. Em “The Story-Teller” de Saki, um solteirão travesso diz a três crianças em um trem a história de uma menina maravilhosamente boa, que recebeu medalhas por sua conduta. Mas ela conheceu um lobo no parque; e embora ela corresse, o barulho de suas medalhas levou o lobo diretamente a ela, de modo que ela foi devorada completamente. Embora as crianças tenham ficado encantadas com essa narrativa não convencional, sua tia protesta: “Uma história muito imprópria para contar a crianças pequenas!” “Mulher infeliz!”, murmura o solteirão que parte. “Nos próximos seis meses, essas crianças vão atacá-la em público com exigências por uma história imprópria!”

Bem, mitos gregos e nórdicos, por exemplo, às vezes não são muito adequados; contudo, despertando a imaginação, eles fazem mais para obter uma apreensão antecipada das normas do que qualquer número dos aborrecidos e intermináveis feitos de Dick e Jane. A história de Pandora, ou da aventura de Thor com a velha e sua gata, dá a qualquer criança uma visão das condições da existência – vagamente compreendida no momento, talvez, mas ganhando poder com o passar dos anos – que nenhuma utilitária “real situação de vida” pode equiparar. Por serem eternamente válidos, Hesíodo e os cantores de saga são modernos. E as versões de Hawthorne ou de Andrew Lang são muito melhores do que o inglês quasi-básico imposto aos jovens em muitos livros-texto recentes.

Se privarmos os jovens de imaginação, aventura e algum tipo de heroísmo – para nos voltarmos agora para um nível mais tardio de aprendizado – eles provavelmente não aceitarão os Contos Bem Aprovados da Boa Vida para Garotos e Garotas Bem Aprovados da Vida Real; pelo contrário, eles podem recorrer às escórias das letras, em vez de ficarem completamente entediados. Se não forem apresentados a Stevenson e Conrad, digamos – e bem cedo – eles encontrarão os pornógrafos mais próximos e mais novos de Grub Street. E as conseqüências serão sentidas não apenas em sua falha de gosto, mas em sua compreensão errônea da natureza humana ao longo da vida; e eventualmente, em todo o espírito de uma nação. “Neste esquema de coisas… uma mulher é apenas um animal; e um animal não da mais alta ordem.” A teoria Naked Ape da natureza humana, a noção “reducionista” do homem como um autômato respiratório, é reforçada pela ignorância da imaginação moral da literatura.

Em uma de suas Causeries, Sainte-Beuve fala de um dramaturgo de pé na janela de um amigo para assistir a uma frenética multidão parisiense atravessando a rua: “Veja meu desfile passar!”, murmura o autor complacentemente. A arte é a natureza do homem; e é verdade, como disse Oscar Wilde, que a natureza imita a arte. Nossas ações privadas e públicas, em anos maduros, foram determinadas pelas opiniões e gostos que adquirimos na juventude. Grandes livros influenciam as sociedades para melhor; e os livros ruins realmente derrubam o nível geral de conduta pessoal e social. Tendo visto o desfile, a multidão continua a se comportar como um dramaturgo acha que ela deveria. Suponho que um público que chega com frequência suficiente às peças de Tennessee Williams possa começar a se comportar como Williams acredita que os americanos já se comportam. Nós nos tornamos o que os outros, em uma voz de autoridade, nos dizem que somos ou devemos ser.

Então, acho que no ensino da literatura, algumas das teorias da educação para o ajuste à vida e das escolas permissivas causaram danos consideráveis. Hoje em dia, os defensores da educação para o ajuste à vida estão ganhando espaço, sombriamente, diante de seus críticos. O ancestral intelectual de suas doutrinas é Rousseau. Embora eu não seja um caloroso admirador das idéias de Rousseau, gosto ainda menos das doutrinas de Gradgrind, em Hard Times (1845); por isso, espero que os métodos de ajuste à vida de ensinar literatura não sejam suplantados por algo concebido de forma ainda pior. Afinal, o ajuste real às condições da existência humana é o ajuste às normas. Até mesmo um esforço ineficaz para ensinar normas é melhor do que ignorar ou negar todos os padrões. Um zelo equivocado pelo treinamento vocacional utilitário no lugar da instrução normativa; uma ênfase nas ciências físicas e biológicas que empurrariam a literatura para um canto empoeirado do currículo; uma tentativa de assegurar a competência falada em línguas estrangeiras às custas das grandes obras de nossa língua – estas podem ser mudanças na educação tão hostis à transmissão de normas através da literatura como qualquer coisa que as pessoas permissivas e do ajusta à vida tenham feito.

Assim, atrevo-me a sugerir aqui, em reduzido esboço, como é possível formar uma consciência normativa através do estudo das humanidades. O que tenho a dizer deveria ser comum; mas essas idéias parecem ter sido esquecidas em muitos quadrantes. Esse esforço normativo deveria ser o trabalho conjunto da família e da escola. Como a arte da leitura muitas vezes é ensinada melhor pelos pais do que pode ser ensinada em uma turma grande na escola, o conhecimento de bons livros vem ao menos com tanta frequência de casa quanto da escola. Meu próprio gosto por livros cresceu a partir de ambas as fontes: estantes de livros de meu avô, de minha mãe e de uma ótima pequena livraria da escola primária. E se uma escola está deixando de transmitir um gosto por bons livros, isso muitas vezes pode ser remediado por atenção interessada na família.

Provisoriamente, distingui quatro níveis de literatura pelos quais uma consciência normativa é desenvolvida. Os níveis superiores não suplantam os anteriores, mas complementam-se e se juntam com eles; e o processo de familiarizar-se com esses quatro níveis ou corpos de conhecimento normativo estende-se da idade de três ou quatro anos aos estudos da faculdade e universidade. Podemos chamar esses níveis de fantasia; história narrativa e biografia; prosa reflexiva e ficção poética; e filosofia e teologia.

1. Fantasia. O fantástico, longe de ser insalubre para crianças pequenas, é precisamente o que uma criança saudável precisa; sob tal estímulo, a imaginação moral de uma criança acelera. Dos primeiros contos de admiração, surge um sentimento de surpresa e o começo da filosofia. Todas as coisas começam e terminam em mistério. Aliás, uma consciência normativa pode ser despertada por temas menos impressionantes do que as lendas arturianas ou as Norsetales. O segundo livro que li para mim foi Little Black Sambo (1899). Aprendendo de cor na época, eu ainda posso recitá-lo. (Um sintoma da tolice de nosso tempo foi a exigência, há alguns anos, de que o Little Black Sambo fosse banido como “racista”.) Embora com isso eu corra o risco de cair no patético, não posso resistir a comentar que mesmo o Little Black Sambo toca nas normas. Que criança não consegue refletir sobre a arrogância dos tigres, a prudência do Sambo?

Se as crianças estão para começar a entender a si mesmas, as outras pessoas e as leis que governam nossa natureza, elas devem ser encorajadas a ler a coleção de contos de fadas de Lang, dos Irmãos Grimm (até mesmo as mais cruéis), de Andersen, as Mil e Uma Noites e todo o resto; e, atualmente, os melhores romancistas para jovens, como Blackmore e Howard Pyle. Até a Bíblia, no começo, é fantasia para os jovens. A alegoria de Jonas e da baleia é aceita, inicialmente, como um conto do maravilhoso, e assim fica na memória. Somente nos últimos anos alguém reconhece a história como o símbolo do exílio dos judeus na Babilônia, e de como a fé pode preservar homens e nações através das mais terríveis das provações.

2. História narrativa e biografia. Meu avô e eu, durante as longas caminhadas que costumávamos fazer quando eu tinha seis ou sete anos, falávamos do caráter de Ricardo II, da vida doméstica puritana e da ferocidade dos assírios. A parceria intelectual de um homem imaginativo de sessenta e um garoto inquisitivo de sete é uma coisa edificante. Minha preparação para essas conversas veio de livros na biblioteca de meu avô: Uma História da Inglaterra para Crianças (1910) de Dickens, Cadeira do Avô (1840) de Hawthorne, os quatro volumes ilustrados de História do Mundo (1897) de Ridpath. Mais tarde, meu avô me deu Esboço de História (1920) de H. G. Wells. Na plenitude do tempo, eu vim a discordar das interpretações da história de Dickens e Wells; mas tudo foi para o bem, pois estimulou minhas faculdades críticas e me conduziu aos estudos apropriados da humanidade – e aos grandes historiadores, Heródoto, Tucídides, Xenofonte, Políbio, Tácito e todos os demais; às grandes biografias, também, como as Vidas de Plutarco, Johnson (1791) de Boswell e Scott de Lockhart. A leitura de grandes vidas faz algo para criar vidas decentes.

3. Prosa Reflexiva e Ficção Poética. Quando eu tinha sete anos, minha mãe me deu um conjunto de romances de James Fenimore Cooper; e mais ou menos na mesma época eu herdei de um tio-avô meu conjunto de Hawthorne. Isso me lançou na leitura de romances, de modo que, aos dez anos, eu já havia lido tudo de Hugo, Dickens e Twain. A ficção é mais verdadeira do que o fato: quero dizer que na grande ficção obtemos a sabedoria destilada dos homens de gênio, entendimentos da natureza humana que poderíamos alcançar – se alguma vez alcançamos – sem a ajuda de livros, apenas no final da vida, depois de inúmeras experiências dolorosas. Comecei a ler Sir Walter Scott quando tinha doze ou treze anos; e acho que aprendi com os romances Waverley e com Shakespeare, mais das variedades de caráter que jamais obtive de manuais de psicologia.

Essa navegação diversa no reino da ficção raramente faz mal. Quando eu tinha onze ou doze anos, fui muito influenciado por Mysterious Stranger (1916) de Twain, um trato ateu disfarçado de romance da Áustria medieval. Não me transformou em um ateu juvenil; mas isso me levou a inquirir sobre as causas primeiras – e com o tempo, paradoxalmente, isso me levou a Dante, meu principal suporte desde então. De certa forma, o grande romance e o grande poema podem ensinar mais sobre normas do que podem a filosofia e a teologia.

4. Filosofia e Teologia. Para o coroamento dos estudos literários normativos, nos voltamos, em torno da idade de dezenove ou vinte anos, à abstração e generalização, moderadas pela lógica. Simplesmente não é verdade que

Um impulso de uma madeira vernal
Pode te ensinar mais sobre o homem.
Do mal moral e do bem
Do que todos os sábios podem.

Não é da natureza vegetal que se adquire algum conhecimento das paixões e anseios humanos. Existem, sim, na frase de Emerson, uma lei para o homem e uma lei para as coisas. A lei para o homem aprendemos com Platão, Aristóteles, Sêneca, Marco Aurélio; com os profetas hebreus, São Paulo, Santo Agostinho e tantos outros escritores cristãos. Nossa pequena racionalidade privada baseia-se na sabedoria dos homens de eras mortas; e se nos esforçarmos para guiar nossos egos somente por nossas limitadas percepções privadas, caímos na vala da irracionalidade.

A verdade “científica”, ou o que é popularmente considerado verdade científica, varia de ano para ano com velocidade acelerada em nossos dias. Mas a verdade poética e moral muda pouco com o lapso dos séculos. Para o inalterável na existência humana, as humanidades são um ótimo guia.

O que eu tenho tentado descrever na análise sumária precedente é aquele corpo de literatura que ajuda a formar a consciência normativa da geração em ascensão: isto é, animar a imaginação moral. Aqui tenho sido historiador e diagnosticador; eu não me esforcei para oferecer-lhe remédios fáceis para nossa torta condição atual.

Se um público não terá a imaginação moral, tenho dito, então cairá primeiro na imaginação idílica; e presentemente na imaginação diabólica – esta última se tornando um estado de narcose, figurativa e literalmente. Pois somos seres morais criados; e quando negamos nossa natureza, em letras como em ação, os deuses dos cadernos com fogo e abate retornam. Eu atesto a visão moral de homens como Aleksandr Solzhenitsyn; alguns começaram a se posicionar, na república das letras, contra a imaginação diabólica e o regime diabólico. Um corpo humano que não pode reagir é um cadáver; e um corpo de letras que não pode reagir contra ilusões narcóticas pode melhor ser enterrado. As virtudes teológicas podem encontrar fortes campeões nestes últimos anos do século XX: homens e mulheres que se lembram de que no princípio era o Verbo.

Tradução: Guilherme Cintra.

Notas:

[1] – Kirk usa o termo “humane letters”, o qual resolvi traduzir para “humanidades”, já que não é corrente o uso da tradução literal, “letras humanas”. Quando Kirk usa apenas o termo “letters”, optei simplesmente pela tradução como “letras”. [N. do T]

[2] – Do inglês: “Be good, sweet maid, and let who will be clever.”

Dos títulos dos livros que se seguem no texto, embora a maioria permaneça no original em inglês, alguns eu resolvi traduzir para o português para proporcionar um melhor entendimento das ideias que Kirk busca transmitir no texto. [N. do T]

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