Russell Kirk: A Ilusão dos Direitos Humanos

Russell Kirk, 1987

“Existe algo ainda mais importante que as liberdades civis: a sobrevivência de governos legítimos”.

Os Direitos Humanos, dizem alguns, não são integralmente assegurados em El Salvador. Outros descobriram, tardiamente, que os direitos humanos não são totalmente assegurados no Camboja. Nosso governo nacional engaja-se em um curioso cálculo moral quando tenta sopesar os vários méritos e deméritos dos regimes em Uganda, Granada, Chile e Iugoslávia – sem falar na União Soviética e na China Comunista.

Por quais padrões os “direitos humanos” devem ser mensurados? O que, de fato, queremos dizer com esta controversa expressão “direitos humanos”? Ofereço-lhes algumas reflexões sobre este assunto.

A expressão “direitos humanos” apareceu pela primeira vez na política americana, acredito, quando o presidente Woodrow Wilson opôs-se aos “direitos de propriedade”. O presidente Franklin Roosevelt também opôs os direitos humanos contra os direitos de propriedade. Provavelmente, o presidente Jimmy Carter pensou em empregar este termo por influência de seus antecessores, quando montou um aparato burocrático para julgar as nações, censurando os estados subordinados por não alcançarem aquela perfeição dos direitos humanos desfrutada nos Estados Unidos da América.

Desde o início, o odor da demagogia impregnou-se no uso político da linguagem dos “direitos humanos”. Pois todos os direitos são direitos humanos. Alguém sugere um código de direitos desumanos? Cães e gatos não gozam de direitos. Os estados não possuem direitos (apesar dos argumentos constitucionais); estados gozam de poderes. Deus está acima dos direitos e a humanidade não pode reivindicar direitos contra Deus.

A propriedade não possui direitos, é inanimada e não humana. Os seres humanos, ao contrário, têm direitos sobre sua propriedade legal. O direito de manter as propriedades reais e pessoais é um dos mais importantes direitos civis; o crítico Paul Elmer More declarou que, no que concerne à civilização, o direito à propriedade é mais importante que o direito à vida. O presidente Wilson, bem familiarizado com teoria política e história, devia ter consciência de sua falsidade quando opôs os “direitos de propriedade” aos “direitos humanos”. O presidente Franklin Roosevelt poderia ter alegado ignorância, fosse ele acusado deste abuso de termos.

Estou sugerindo, você há de perceber, que um termo tão vago como direitos humanos pode ser facilmente distorcido a favor dos políticos; e que pode ser perigoso empregá-lo. Não obstante, por trás deste termo débil, repousam velhas verdades e velhos erros.

Quando políticos e publicitários aclamam “direitos humanos”, a quais conceitos eles estão se referindo? Provavelmente, há no fundo de suas mentes – supondo que sejam reflexivos – o conceito de “lei natural, ou o conceito de direitos civis, ou ambos os conceitos.

Estes dois termos podem ser definidos bem mais facilmente que “direitos humanos”. No entanto, atualmente, a etiqueta “direitos humanos” está em voga. Está incorporada na Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas. Aparece, inclusive, em traduções de documentos emitidos pelo Vaticano. E, claro, é amado pela mídia das massas.

Podemos extrair alguma substância por trás da etiqueta? A suposição subjacente aos direitos humanos parece ser esta: da natureza do homem derivam certas imunidades pessoais as quais todos os governos e todas as pessoas no poder deveriam respeitar. Esta é a doutrina do direito natural, como a encontramos em Cícero e nos escolásticos. A esta visão jusnaturalista, conferindo certas imunidades contra a operação do poder, está vinculado o conceito de dignidade humana – uma crença de origens cristã e clássica misturadas. Uma vez que a noção de “direitos humanos” está fundada sobre as doutrinas do direito natural e da dignidade humana, ela pode reivindicar uma origem venerável. Algumas palavras de definição podem ser úteis aqui.

Este termo jurídico e político, direito natural, pode ser definido como um conjunto de regras de ação frouxamente entrelaçadas, prescritas por uma autoridade superior ao Estado. Estas regras presumem-se derivadas do mandamento divino, da natureza do homem ou da experiência humana em geral ao longo de milhares de anos. Partindo de Aristóteles, através de Cícero e dos jurisconsultos romanos, uma continuidade da crença no direito natural deu parte ao que chamamos de “o Ocidente”. Após o triunfo da Fé Cristã, esta doutrina jusnaturalista entrelaçou-se à moralidade cristã e ao pensamento social. Foi exposta com um vigor especial por São Tomás de Aquino.

Como Sir Ernest Barker escreveu sobre o direito natural, “Esta justiça é concebida como sendo a lei superior ou última, procedente da natureza do universo – do Ser de Deus e da razão do homem. Segue-se que a Lei – no sentido da lei de última instância – está de alguma forma acima do processo legislativo”.

A dificuldade de definir o direito natural de perto e de descobrir sanções claras para invocá-lo envolve necessariamente a doutrina do direito natural em controvérsias. Mas permanece nos Estados Unidos e em alguns outros países um apego popular à crença do direito natural que ainda possui vigor.

Em essência, como observa A. P. d’Entreves, a doutrina do direito natural é “uma afirmação de que o direito é uma parte da ética”. Assim, quando muitas pessoas se referem a “direitos humanos”, elas têm em mente, vagamente pelo menos, a doutrina do direito natural: a convicção de que um ser humano é titular do direito a um certo tratamento porque, por sua própria natureza, ele é algo melhor do que uma besta.

Esse entendimento está intimamente ligado ao que Pico della Mirandola, cinco séculos atrás, chamou de “a dignidade do homem”: a aspiração dos humanistas, por uma disciplina da razão e da vontade, de tornar o homem não muito inferior aos anjos. Em suma, o político que emprega a expressão “direitos humanos” evoca em algum grau, no entendimento popular, espíritos ancestrais; ele evoca tanto o modelo medieval do homem quanto o modelo renascentista do homem, mesmo que nem o político nem seu ouvinte estejam cientes da magia. Presenças fantasmagóricas, crenças ressuscitadas, parecem justificar este encantamento dos direitos humanos.

Então, em novembro de 1983, dirigindo-se à Assembléia Nacional da Coréia do Sul, o presidente Ronald Reagan declarou: Os Estados Unidos saúdam as metas que os senhores estabeleceram para o desenvolvimento político e para incentivar o respeito aos direitos humanos”. Presidentes democratas introduziram direitos humanos ao nosso discurso político; um presidente republicano agora aceita a expressão como um jargão político convencional. Por este termo, presumo, o presidente Reagan queria se referir às liberdades civis.

E quando muitas outras pessoas escutam as palavras “direitos humanos”, elas as tomam como sinônimo de “direitos civis” ou “liberdades civis”. Assim, o apego americano aos conceitos de direito natural e dignidade humana está ligado à ênfase americana nas liberdades civis; e estas duas predileções, fundindo-se, parecem conferir uma substância à amorfa doutrina dos direitos humanos.

Porém, a noção de direitos humanos não descende do ensino do direito natural que se estende de Aristóteles a Burke; nem é “direitos humanos” sinônimo de liberdades civis. Há alguns instantes, procurei definir brevemente o conceito de direito natural; agora deixe-me dizer algo à respeito dos direitos civis.

Um direito civil é uma garantia de que o cidadão está protegido contra certas ações que, de outra forma, o Estado poderia tomar para a desvantagem do cidadão. Tais direitos são comumente declarados como negativos – que as tropas não devem ser instaladas em residências privadas, por exemplo, ou que as punições não devem ser cruéis ou inusuais. Entende-se que os direitos civis acarretam os deveres civis correspondentes, sendo o mais importante deles o dever de manter a supremacia da lei da qual tais direitos são derivados.

A extensão e o exercício dos direitos civis variam muito de uma cultura ou comunidade política para outra – porque “direitos civis” são produtos da experiência histórica de determinados povos. Nunca existiu um código universal de liberdades civis.

O direito ao julgamento pelo júri, por exemplo, tão zelosamente assegurado na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, nunca prevaleceu na França. Isso não significa que os “direitos humanos” sejam reprimidos pelos franceses. De outro modo, sugere que a ordem, a liberdade e a justiça são obtidas de diversas maneiras em diferentes lugares e épocas.

As liberdades civis existem tanto no direito comum (“commom law”) como no direito Romano (“civil law”), mas o caráter particular desses direitos varia de um sistema político para outro. Impor um padrão americano de direitos civis a uma sociedade de origens muito diferentes – sobre um estado muçulmano, por exemplo – derrubaria o antigo padrão de justiça sem estabelecer efetivamente os padrões americanos.

Para resumir minhas definições, o direito natural é uma teoria da justiça, derivada de convicções religiosas ou quase religiosas sobre a natureza do homem; enquanto liberdades civis são imunidades práticas na lei, derivadas do desenvolvimento político de uma nação durante um longo período de tempo. Superficialmente, a ilusão do século XX dos direitos humanos pode aparentar ser a filha desses pais veneráveis. Mas, na realidade, a noção de direitos humanos é uma ideia bastarda recém-nascida. Seu pai foi a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, a qual o governo dos Estados Unidos da América recusou-se a assinar. Seu avô era a Declaração dos Direitos do Homem, promulgada pelos Revolucionários Franceses e por Tom Paine – e também rejeitada, em sua época, pelo governo americano. Amigos do direito natural e das liberdades civis americanas seriam tolos se permitissem que esta noção ilegítima de direitos” universais imprescritíveis lhes fosse impingida. A fedelha poderia causar sua ruína.

***

Os direitos só podem ser criados se derivarem de algum corpo de lei. As abstrações que chamamos de direitos humanos” não têm sanção no direito positivo da maioria dos países; a Declaração Universal dos Direitos Humanos pode receber o consentimento formal de vários governos, mas em nenhum lugar essa Declaração é observada e aplicada. A que lei positiva apela o oprimido no Camboja ou em Uganda? A nenhuma, de fato. Em tais domínios, o único apelo é para as leis da natureza – isto é, para uma justiça de origem mais que humana. E os esquálidos oligarcas que presidem a anarquia do Camboja e de Uganda sorriem sobre os fundamentos da lei natural. “Pague os soldados”, como disse Septimius Severus; o resto não importa”.

“Direitos” são imunidades, garantias de que certas coisas não podem ser feitas a uma pessoa contra sua vontade. Os direitos podem ser garantidos apenas em uma ordem social civil. Em uma condição de anarquia, ninguém goza de direitos, porque não existe autoridade justa à qual uma pessoa possa apelar contra a violação de direitos. Portanto, o que chamamos de Estado, ou comunidade política organizada, é necessário para a realização de qualquer direito.

Nada obstante, o governo de qualquer estado pode se tornar opressivo. Pode ignorar ou virtualmente extirpar direitos de minorias ou maiorias. Portanto, direitos permanentes não devem ser considerados apenas concessões de um governo particular. Os verdadeiros direitos encontram sua sanção ou em uma teoria da natureza humana ou nos costumes estabelecidos há muito tempo em um povo. A primeira destas sanções é o que chamamos direito natural; a última, o que chamamos de direitos civis.

Devemos ter cuidado ao supor que todos os benefícios sociais civis que os cidadãos dos Estados Unidos desfrutam atualmente são direitos “naturais”, universalmente aplicáveis. Tampouco deveríamos supor que as liberdades civis de nosso próprio país podem ser exportadas para culturas de países diferentes. Seria desumano que nos tornássemos ideólogos fanáticos, exigindo um padrão universal inflexível de “direitos humanos.

Na atual e confusa discussão dos direitos humanos na América e no estrangeiro, precisamos recordar uma observação de Dostoiévski, em Os Demônios. Aqueles que começam com liberdade ilimitada, diz Dostoiévski, devem terminar com um despotismo ilimitado.

Nem tudo que homens e mulheres desejam é seu direito. Sendo a política a arte do possível, os direitos não existem ilimitados, no abstrato. Todo direito é limitado por algum dever correspondente; e aqueles que reivindicam o direito a tudo, logo descobrem que lhes resta o direito a nada.

Ao final do século XVIII, Edmund Burke, em resposta aos revolucionários franceses, fez uma distinção entre os direitos “reais” e os “pretensos” direitos dos seres humanos.¹ Burke foi ao mesmo tempo um defensor do direito natural e um defensor das liberdades civis em sua forma inglesa. Ele declarou que a doutrina militar” (que agora chamamos de ideologia) estava destruindo os direitos reais de homens e mulheres, mesmo quando proclamava os pretensos direitos, que não podem ser obtidos.

Há certos direitos reais inerentes a todos os seres humanos na sociedade, escreveu Burke. Como argumentara em seu processo contra Warren Hastings, esses direitos são tão válidos na Índia quanto na Grã-Bretanha. “Se a sociedade civil é feita para a vantagem do homem”, escreveu Burke em 1789, “todas as vantagens para as quais é feita se tornam seu direito. É uma instituição de beneficência; e o direito em si só é beneficência atuando pela lei. Os homens têm o direito de viver de acordo com essa lei; eles têm o direito de obter justiça, como os seus companheiros, quer estejam em função pública ou em ocupação comum. Eles têm direito aos frutos de sua indústria e aos meios de tornar sua indústria frutífera. Eles têm direito às aquisições de seus pais; à nutrição e melhoria de seus descendentes; à instrução na vida e ao consolo na morte. O que quer que cada homem possa fazer separadamente, sem passar sobre os outros, ele tem o direito de fazer por si mesmo; e ele tem direito a tudo o que a sociedade, com todas as suas combinações de habilidade e força, possa fazer a seu favor”.

Burke enfatizou que os homens também têm o direito de serem restringidos pelo governo – isto é, o direito de serem salvos de sofrer as consequências de seus próprios vícios e paixões, o que equivale ao direito de viver sob o domínio da lei; ao direito de ser protegido em seu trabalho, sua propriedade, sua herança; ao direito de instrução religiosa e consolo; ao direito à igualdade de tratamento pelo Estado.

Ainda assim, não nos voltamos preferencialmente para estas afirmações gerais e abstratas sobre o direito, Burke continuou explicando. Ao contrário, quando tratados injustamente, recorremos primeiro ao que Burke chamou de “direitos escriturados” – isto é, os direitos civis de nosso país, conforme expressos em cartas, constituições, estatutos, costumes antigos. O direito estatutário e o direito comum (common law), e não o direito natural, são os meios regulares para garantir direitos definidos.

Apelos ao direito natural são o nosso recurso apenas em tempos de extrema opressão sem meios regulares de reparação; pois o direito natural não é um código de regras aplicável; é um conjunto de princípios jurídicos pelos quais devemos ser guiados em nossa construção do direito positivo.

Embora as formas políticas e legais variem amplamente de nação para nação, ainda existe em toda civilização uma apreensão da lei natural, derivada de uma compreensão da natureza humana. Todos os legisladores devem ter em mente os direitos reais dos seres humanos quando lidam com os direitos escritos de seu país.

A compreensão de Burke do direito natural e dos direitos escritos não foi totalmente esquecida nos Estados Unidos. De fato, o pensamento de Burke entrou na Constituição e em sua interpretação, especialmente, através do Chefe de Justiça John Marshall, que foi poderosamente influenciado por sua leitura de Burke. Esta subjacente afirmação americana de justiça natural e direitos civis prescritivos deu aos Estados Unidos uma tensão saudável entre as reivindicações de ordem e as reivindicações de liberdade. Em nossa política interna, pelo menos, entendemos que a segurança perfeita não pode ser alcançada, nem pode aperfeiçoar a liberdade: precisamos equilibrar uma em relação à outra. Da mesma forma, entendemos razoavelmente que todo direito está casado com alguma responsabilidade. Assim, por trás disso, o estranho termo “direitos humanos” possui, na opinião pública norte-americana, alguma substância.

Mas o século XX são tempos tortos; Burke previu a chegada do nosso tempo problemático. Em país após país, a ideologia totalitarista submergiu tanto a lei natural quanto as liberdades civis. Se não fosse pelo poder sobrevivente dos Estados Unidos, o remanescente da ordem, da justiça e da liberdade poderia ser engolido pela Ideologia do Leviatã.

Nos assuntos internacionais, no entanto, os Estados Unidos precisam tomar cuidado com o que Sir Herbert Butterfield chama de retidão”, um erro fundamental na diplomacia – isto é, a autojustiça nacional. A República Americana não possui virtude e poder suficientes para impulsionar as noções americanas de “direitos humanos” em todo o mundo. Mesmo uma afirmação maciça do poder americano, uma cruzada pelos “direitos humanos”, poderia destruir mais do que restaurar. O compromisso da América no Vietnã, a versão dos direitos humanos do presidente Lyndon Johnson, foi uma lição salutar a este respeito, se em nenhum outro. Não é missão dos Estados Unidos estabelecer universalmente alguma imitação da ordem política e econômica americana. Todo povo precisa encontrar seu próprio caminho para a ordem, a justiça e a liberdade. Como Daniel Boorstin escreveu, a Constituição americana não é para exportação. Ele quer dizer que nossa Constituição nasceu da peculiar experiência histórica dos americanos. Assim também é com a constituição de todos os povos. Não devemos esperar que o modelo americano de tribunais seja estabelecido prontamente na Indonésia, por exemplo; ou que o sufrágio universal (que até os suíços não adotaram até anos muito recentes) seja adotado da noite para o dia na África do Sul; ou que as grandes e prósperas corporações privadas industriais apareçam abruptamente na Iugoslávia.

Uma tentativa de impor a curto prazo o padrão americano de direitos, além de ser irremediavelmente impraticável, teria consequências distintas daquelas que a maioria dos americanos deseja. É bem concebível que esta insistência forçada em um programa total de direitos humanos”, neste momento, possa trazer o triunfo de ideologias totalitaristas hostis tanto ao direito natural quanto ao direito positivo. Há um governante pior que o Rei Log: ele é o Rei Stork.²

Considere como a demanda induzida por “direitos humanos” tornou-se o instrumento principal para derrubar o governo Diem no Vietnã do Sul. Esse governo estava envolvido em uma luta desesperada para repelir a agressão dos comunistas do norte; simultaneamente, teve de lutar contra facções dentro de suas próprias fronteiras – partidos e seitas munidos de suas próprias forças armadas. Apesar destas enormes dificuldades, o governo Diem era uma ordem constitucional, sustentando uma Assembleia Nacional e realizando eleições para ambos os cargos legislativo e executivo. No entanto, a esquerda trouxe contra o governo Diem a acusação de que o regime não assegurava perfeitamente as liberdades civis, “direitos humanos”; foi dito, um pouco vagamente, que os budistas eram discriminados. Figuras dominantes dos meios de comunicação americanos repetiram essas acusações até que o governo Kennedy abandonou Diem – e tornou possível o seu assassinato. Que triunfo para os direitos humanos! Agora, reina em Saigon, como em Hanói, uma impiedosa dominação de marxistas que eliminaram o último vestígio de liberdades civis. A demanda por liberdade ilimitada terminou em despotismo ilimitado.

O mesmo processo pode ser observado em El Salvador. Até Henry Kissinger exortou o governo sitiado daquele infeliz pequeno estado – um governo democraticamente eleito – a expandir seus “direitos humanos” em tempos de guerra civil, com inimigos mortais a poucos quilômetros da capital. Existe algo ainda mais importante que as liberdades civis: a sobrevivência de governos legítimos. Acho curioso que os inimigos do Estado tenham direito à proteção total de suas liberdades pelo próprio Estado que pretendem derrubar. Durante a Guerra Civil nesta República, o Presidente Abraham Lincoln não hesitou em rejeitar este tipo de liberalismo desintegrado: suspendeu mandados de habeas corpus. Constituições não são pactos de suicídio.

Alguém se incomodou em indagar aos fanáticos por “direitos humanos” quais condições políticas e sociais podem ser consideradas como um cumprimento satisfatório do ideal dos “direitos humanos”? Podemos supor que, no mínimo, todos os artigos da Declaração de Direitos da América teriam que ser observados e aplicados com muito escrúpulo; que os governos seriam levados a cabo por partidos “moderados” ou “intermediários” de um elenco socialdemocrata (partidos quase inexistentes na maior parte do mundo); que a perfeita liberdade de expressão, incluindo manifestações de rua de facções militantes, não seria meramente garantida, mas encorajada; que as forças armadas de um país seriam reduzidas a um mínimo, caso não fossem abolidas por completo; que, é claro, as forças da polícia secreta seriam proibidas e a polícia comum, dirigida por comitês de cidadãos; que o sufrágio universal prevaleceria, com eleições frequentes; que um Estado de bem-estar social proveria uma grande proporção de cidadãos com generosos direitos; que toda demanda por direitos mais abundantes seria prontamente satisfeita. Com efeito, a visão dos “direitos humanos” para o mundo é uma versão moderna do liberalismo sentimental mais avançado da Inglaterra vitoriana, somada a uma considerável dose de socialismo.

Uma dificuldade principal dessa noção utópica de “direitos humanos” triunfante é que tal sociedade, na maior parte do mundo, seria derrubada em muito pouco tempo por uma gangue ideológica ou outra – ainda que não colapsasse com seu próprio peso. O imperialismo soviético daria pouca atenção a alguns desses países; outras variedades de totalitarismo fanático triunfariam em outros lugares. O sonho liberal começou a se transformar em um pesadelo há um século. O mundo torto em que nos encontramos não tolerará uma filosofia política de cafeteria. As coisas serão como serão; por que devemos procurar nos enganar?

E por que deveríamos esperar que outras nações, sem as nossas tradições políticas e instituições sociais estabelecidas há tanto tempo, não fossem dotadas dos recursos materiais dos EUA, para alcançar o que é imperfeitamente alcançado nos Estados Unidos? Nós, americanos, desfrutamos do cumprimento total dos “direitos humanos”? Andar pelas ruas com segurança razoável é a mais básica das liberdades civis; no entanto, milhões de americanos não ousam sair à noite, e alguns dificilmente ousam se aventurar de dia. Presumivelmente, a segurança das crianças na escola é um direito civil básico; mas em todas as cidades americanas os alunos são agredidos diariamente e alguns mortos. Não temos reivindicações de direitos insatisfeitos? Médico, cure-se a si mesmo.

Não almejo deboches. É muito desejável que a recuperação da ordem, da justiça e da liberdade seja promovida em todo o mundo; devemos ser gratos, neste tempo difícil, por pequenas compaixões. Mas a política internacional, como as políticas internas, é a arte do possível. Exigir que outros países atinjam rapidamente o ideal liberal é esperar o que não podem realizar; em alguns casos, é de esperar que eles trabalhem sua própria destruição.

É também uma demanda muitas vezes pouco sincera, às vezes hipócrita. Os Estados Unidos apoiam, com empréstimos gigantescos, o déspota assassino que governa o Zaire, porque em qualquer momento ele pode servir à nossa vez na África; mas nossos diplomatas não se preocupam em investigar severamente sua aplicação dos “direitos humanos”. Nosso Departamento de Estado se abstém vigorosamente de qualquer palavra que possa incomodar aos senhores da Iugoslávia, onde qualquer esperança de recuperar algum grau de liberdade civil fora destruída como na Polônia; para a Iugoslávia é uma espécie de baluarte contra a União Soviética. Nós reservamos nossos sermões sobre direitos humanos para estes aliados e estados subordinados como se não pudessem ou não fossem romper com os Estados Unidos sob qualquer circunstância.

Nos assuntos das nações, dificilmente pode ser de outro modo. Pois o objetivo da política externa é manter e promover o interesse nacional – não embarcar em cruzadas morais. Buscamos uma aliança informal com a China comunista e, portanto, fazemos grandes concessões aos oligarcas de Peiping, até mesmo ao ponto de sustentar que o governo legítimo do Camboja é o regime feroz do Khmer Vermelho, agora dirigido para a Tailândia – o domínio com os piores “direitos humanos” se registra neste desumano século XX – simplesmente porque esse reconhecimento é conveniente à política chinesa. Isto é o realismo na diplomacia. Depois, descarregamos nossas consciências pedindo a El Salvador que seja gentil com os terroristas.

A política externa, repito, não é um exercício de moralismo. Nós ajudamos na conversão da Rodésia para o Zimbábue, com muita conversa farta sobre direitos humanos dirigida ao governo anterior, porque a América precisa dos recursos minerais daquele país; e nossos estadistas calcularam que seria possível destacar a principal facção negra da influência soviética. Por mais imperfeita que seja a realização dos direitos humanos na Rodésia, a justiça e a liberdade civil estão sendo extintas no Zimbábue. Acho desagradável encobrir o interesse nacional com frases impactantes sobre direitos humanos. O que nós buscávamos, na verdade, era o cromo – não o estabelecimento de um paraíso de direitos humanos no coração da África.

O que quer que seja feito pelo exemplo e pela persuasão para manter os altos princípios do direito natural e da liberdade civil, devemos fazê-lo. Mas não devemos nos iludir imaginando que o mundo possa ser redimido por jawboning³ – muito menos pelo jawboning que enfraquece e ofende governos que não são hostis aos Estados Unidos. E em 1987, não devemos falar em Newspeak. Direitos humanos” é um termo da moda, muitas vezes arrogante, prontamente empregado para promover causas hostis às genuínas ordem, justiça e liberdade. Não nos deixemos assoberbar pelo nosso próprio petardo verbal.

Tradução: Valéria Cutrim

NOTAS:

[1] Os “pretensos direitos”, nos termos de Burke, “são todos extremos: na medida em que são metafisicamente verdadeiros, eles são… politicamente falsos”. (Burke, Reflexions). N. do T.

[2] Referência à fábula The Frogs Who Desired a King (As Rãs que Desejavam um Rei), de Esopo. N. do T.

[3] “Jawboning” é um termo comumente utilizado para referir-se a apelos públicos (como de um presidente) para influenciar as ações especialmente de empresários e sindicalistas. N. do T.

© Russell Kirk. The Wise Men Know What Wicked Things Are Written on the Sky. Regnery, 1987.

 

3 comentários em “Russell Kirk: A Ilusão dos Direitos Humanos”

  1. Que texto senhores, parabéns para a tradutora. Esse texto deveria ser leitura obrigatória nas faculdades de direito do país, local em que infelizmente se tem pouca ou nenhuma noção do que são direitos humanos, naturais e liberdades civis.

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