Resenha: Tratado de Simbólica

Alguns sistemas filosóficos são grandes demais ou exigem muitos prolegômenos para que caibam em apenas um livro; e assim é com Mário Ferreira dos Santos e sua Filosofia Concreta.

O Tratado de Simbólica é o sexto volume da grande Enciclopédia das Ciências Filosóficas e Sociais e dentro da estrutura desta, possui a função de, de certo modo, harmonizar o conteúdo fornecido nos volumes anteriores e contribuir com seu próprio. Trata-se de uma breve, mas profícua introdução ao estudo dos símbolos, variando entre explicações do próprio autor a pequenos resumos de outros; mas por trás da carapaça de obra introdutória, esconde-se a estrutura simbólica da decadialética e das dez categorias pitagóricas reconstruídas que só serão explicitadas no grande Sabedoria das leis Eternas. Tal lampejo estrutural é chamado daqui de Via Symbolica ou Dialética Simbólica, método que pode ser visto em uso por Olavo de Carvalho em seu livro de mesmo nome. [1]

O livro se inicia explicitando seu tema: do que se trata a simbólica? Aqui, trata-se do “estudo da gênese, desenvolvimento, vida e morte dos símbolos” [2]. Mas o que é o símbolo? Para explicar, Mário vê que é uma boa ideia distingui-lo do sinal.

Sinal é aquilo que aponta para outro segundo certa relação; se o símbolo exerce essa função, então é um tipo de sinal; mas se o sinal pode ser arbitrário, o símbolo não pode: então é uma relação de gênero e espécie. Entre as várias análises e distinções entre ambos, Mário chega a definir o símbolo mais ou menos como um sinal que analogicamente carrega ou aduz a certas notas de um simbolizado apresentando-se convencionalmente em seu lugar; a arbitrariedade é restrita ao simples sinal, que pode sinalizar algo, mas nunca simbolizá-lo. Por referir-se sempre a outro, o autor percebe que o símbolo pode ser visto como o modo de significação do ente, o que o coloca no campo das categorias intensistas [3], tratadas no Filosofia e Cosmovisão. Sendo assim, o símbolo insere-se no seguinte quadro de categorias:

1. Símbolo – objeto da Simbólica, tratado no presente livro.
2. Valor – objeto da Axiologia, tratado sobretudo no Filosofia Concreta dos Valores.
3. Tensão – conceito original, tratado no inacabado Teoria Geral das Tensões.
4. Ethos – objeto da Ética, tratado em especial no Sociologia Fundamental e Ética Fundamental.
5. Esthetos – objeto da Estética, tratado no Convite à Estética & Convite à Dança.
6. Haecceitas – objeto da henótica, estudo da unicidade individual; Mário irá trata-lo em muitos volumes, mas podemos citar o Pitágoras e o Tema do Número como referência útil.

Para Mário Ferreira dos Santos, o símbolo nasce quando a representação destaca-se da ação; resumidamente, trata-se de certa substituição, quando como uma criança ao brincar com um ursinho de pelúcia sabe que aquilo não é um urso de verdade: o brinquedo representa, simboliza algo. Aproveitando-se da terminologia biológica, dirá ainda que o símbolo é adaptativo na medida em que adequamos certa simbolização a certos simbolizados no processo de acomodação quando direcionado ao simbolizado e assimilado quando o inverso. A redução do simbolizado ao símbolo é uma forma de perversão que segundo o autor causa a caricaturização das crenças religiosas; é curioso atentar que tal observação pode ser vista como análoga à observação Voegeliana da redução do transcendente ao imanente [4].

Vertendo ao jargão filosófico, o símbolo opera segundo o more analógico, – a saber, de atribuição intrínseca e extrínseca – o que força o autor a colocar um capítulo especial sobre no livro, seguido de uma breve explicação sobre a participação em Platão, aludindo ao curioso tema do mundo como símbolo das formas. A Via Symbolica é apresentada logo após; resumidamente, trata-se da gradativa ascensão na hierarquia participativa do logos simbolizado nas coisas que nos revela o mundo como símbolo do ser supremo:

Todas as essências finitas são similitudes e, em suma, símbolos da essência infinita. Assim a perfeição convém à perfeição primeira por essência, e ao ser finito por participação. [5]

Tal “movimento ascendente” é possibilitado pelo extenso uso da filosofia tomista e é perceptível na construção das cinco vias da existência de Deus, como pode-se conferir em O Homem Perante o Infinito.

A dialética é certo tratamento das questões que visa a harmonização dos opostos no todo concreto; aqui a dialética simbólica nasce no sentido de, após a concreção, galgar a hierarquia da participação que, partindo do imanente, concebe meios de vislumbre do transcendente que de certo modo já estava presente naquele.

Por fim, o autor nos apresenta a simbólica dos números, ou, nomeadamente, as dez categorias pitagóricas vistas de forma simples através dos vários usos dos números da década através do tempo, como o uso do “um” como representação do absoluto e do “dois” como da díada indeterminada [6].

Embora pareça simplista, o Tratado de Simbólica, assim como pelo menos os nove primeiros volumes das Enciclopédia, funciona como index temático para todas as outras obras como se estivessem ligadas por uma rede. Aqui, somos introduzidos e reintroduzidos nos temas platônicos pela necessidade de absorção da [noção de] participação para que entendamos a Dialética Simbólica que trabalha a nível ontológico, tema tratado no volume anterior, o Ontologia e Cosmologia, que por sua vez também trabalha o tema da analogia que inevitavelmente nos liga ao Lógica e Dialética e sua explicação da Decadialética;  uma explicação mais vasta é vista em Métodos Lógicos e Dialéticos, que retoma os mesmos temas mas agora com uma vasta lista de distinções que podem ser usadas para alargar o escopo do topo da primeira série e escritos, o Filosofia Concreta, que construído com os métodos e conteúdos apresentados ao leitor nos nove primeiros volumes, fornecerá o exemplo e o material necessário para, após a dialética ascendente que executou, nos apresentar a dialética descendente, partindo dos primeiros princípios da Mathesis [7], vistos no Sabedoria das Leis Eternas. Assim temos que a obra do Mário Ferreira é essencialmente um sistema circular que repete e acrescenta novas camadas aos mesmos temas.

Assim, o Tratado de Simbólica nos apresenta peças fundamentais para a compreensão da Filosofia Concreta em sua operação e construção, em especial aos interessados na dialética concreta – junção das dialéticas dos dez campos, simbólica e ontológica. Recomenda-se ter lido os volumes anteriores por motivos já expostos, embora possa ser lido normalmente pelo estudante mais acostumado.

“A Simbólica é, assim, um método também de concreção, pois permite captar, através das heterogeneidades, a homogeneidade absoluta do Ser Supremo, graças às providências que aconselhamos nesta obra.”[8]

 

Notas:

[1] Dialética Simbólica p.21

[2] Tratado de Simbólica p.10

[3] Filosofia e Cosmovisão, p. 168 e seguintes.

[4] Pode ser vista especialmente em A Nova Ciência da Política.

[5] Tratado de Simbólica p.68

[6] Tratado de Simbólica p.143

[7] Mathesis Megiste, instrução suprema, são os primeiros princípios da filosofia de Mário Ferreira dos Santos.

[8] Tratado de Simbólica p.256

 

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1 comentário em “Resenha: Tratado de Simbólica”

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