Resenha: Lógica e Dialética

Se em Filosofia e Cosmovisão percebemos certa disparidade de dificuldade entre a primeira e a segunda parte do livro, em Lógica e Dialética temos o mais profundo e belo abismo.

  1. Lógica

Talvez o leitor estranhe a expressão “belo abismo”, mas esta não é dita sem bons motivos. O segundo volume da Enciclopédia das Ciências Filosóficas e Sociais é apresentado como um manual de lógica clássica não muito diferente do que encontramos no Curso de Filosofia de Régis Jolivet ou no Manual de Filosofia de C. Lahr, não raramente sendo superado por estes em capacidade explicativa; que o leitor não veja isso como uma depreciação, visto que Jolivet é um expositor magnífico e raramente será superado, especialmente por um filósofo que estava mais preocupado em criar um público capacitado para entender sua própria filosofia, tarefa que tinha medo de não conseguir concluir.

A lógica para Mário Ferreira trata-se da ciência do pensamento enquanto pensamento, que talvez estranhe os leitores das Investigações Lógicas[1], mas não nos enganemos: isso em nada desmerece as explicações posteriores. Após breve explicação da função da lógica e de alguns de seus princípios – os clássicos identidade, não-contradição e terceiro-excluído – temos exposições acerca do conceito e dos modos como se apresenta, atentando-se em especial ao sentido lógico e ontológico: o primeiro se contradiz apenas em conceito, o segundo no objeto mesmo. Em seguida vemos explicações sintéticas e extensas sobre os juízos e o clássico quadro AEIO[2], que assim se dá: quando tratamos dos juízos contraditórios, faz-se necessário atentar que deve-se ajuizar algo sempre sob o mesmo aspecto ao mesmo tempo; por exemplo, algo não pode ser totalmente preto e totalmente branco ao mesmo tempo. Os juízos contraditórios são

  1. Universais afirmativos (A)
  2. Particulares negativos (O)
  3. Universais negativos (E)
  4. Particulares afirmativos (I)

Deste modo, algumas relações se formam: dizemos que juízos são contrários quando entre dois universais, um afirma e o outro nega; dizemos que juízos são subcontrários quando entre dois particulares, um afirma e o outro nega. Os primeiros caracterizam-se por “todos” e os segundos por “alguns”. Por fim temos os juízos subalternos, que são os que possuem o mesmo sujeito e mesmo atributo, mas não a mesma quantidade; os juízos particulares são subalternos dos universais.

Em seguida, temos a elucidação do conceito de definição e suas regras práticas, com o clássico esquema de identifica o gênero próximo e a diferença específica[3]. Temos também uma breve explicação da teoria da significação, do raciocínio, e uma mais extensa sobre a construção dos silogismos, que pode facilitar extensamente a vida de quem não aguenta mais as explicações de Aristóteles nos Analíticos Anteriores; este capítulo é algo como um grande resumo daquele livro. Por fim, temos algumas regras práticas para o bom uso da lógica, uma breve explicação sobre o conceito de verdade, – lógica, obviamente – e método científico. E aqui se encerra a parte de lógica e chegamos à beira do abismo.

  1. Dialética

Como um interlúdio, temos algumas páginas tratando da dialética e sua história, que é preliminarmente vista como “arte de esclarecer através das idéias”[4], de atingir certa iluminação da verdade através da harmonização dos opostos. A dialética tem então sua história contada através de Heráclito e seus fragmentos, Platão e sua tríada[5], Nicolau de Cusa e a coincidentia oppositorum onde os opostos se tocam, sua fase depreciativa no idealismo alemão aqui representado por Kant, Fichte e Schelling e enfim as ásperas páginas que procuram ao custo de suor e sangue, explicar sintética e didaticamente a dialética hegeliana – empreendimento surpreendentemente feliz. O interlúdio se encerra com uma análise da dialética no materialismo histórico em Marx e da dialética trágica até Nietzsche.

  1. Decadialética.

E aqui o abismo é revelado; nesta parte do livro, o autor procura explicar seu método próprio que convencionou chamar de decadialética ou dialética dos dez campos, um tipo especial de modulação de dez categorias duplas para análise e harmonização de objetos vários e seus aspectos. Este será utilizado mais ou menos explicitamente em toda obra posterior, às vezes auxiliado pela dialética ontológica e dialética simbólica; a tríada metodológica é chamada de dialética concreta, exposta com mais rigor na obra final sobre o tema, o grande Métodos Lógicos e Dialéticos.

Aqui a dialética é tratada como lógica polivalente; por isso, entende-se que utilizará o princípio de não contradição de modo diverso da lógica, sem negá-lo: os princípios lógicos não são negados, mas são complementados por princípios dialéticos. Para que o empreendimento seja bem-sucedido, o autor irá utilizar as explicações de Hegel dadas anteriormente na dialética antinômica da qualidade e da quantidade[6], um capítulo um tanto áspero ao estudante leigo, e que deve ser lido com atenção e um caderno à postos para as várias anotações que será forçado a fazer se quiser ter um bom entendimento do tema. Em seguida os conceitos de intensidade e extensidade, largamente explicados em Filosofia e Cosmovisão surgem novamente, agora imbuídos numa relação de reciprocidade e dinamismo antinômico; é aqui que os princípios lógicos e dialéticos serão explicitados e correlacionados. Há breves explicações sobre o conhecimento, e em seguida o importantíssimo capítulo sobre contradição dialética[7], que se estenderá até que finalmente cheguemos ao raciocínio decadialético[8]; aqui será explicado o sentido da expressão lógica polivalente visto anteriormente.

A decadialética trabalha com dez categorias:

  • Sujeito e Objeto.
  • Atualidade e virtualidade.
  • Possibilidades reais (virtualidades) e não-reais.
  • Atualidade e antinomia entre intensidade e extensidade.
  • Oposições de intensidade e extensidade nas oposições.
  • Oposições do sujeito: razão e intuição.
  • Oposições da razão: conhecimento e desconhecimento.
  • Oposições da razão: atualização e virtualização racionais e intuicionais.
  • Oposições da intuição: conhecimento e desconhecimento.
  • Variante e invariante.

Cada campo de análise procura em conjunto com quantos mais forem necessários, decompor e recompor todos os aspectos possíveis do objeto em questão, intencionando um conhecimento preciso e que não deixe escapar informação alguma, segundo as limitações humanas. Metodologicamente, adicionam-se mais cinco campos, os da pentadialética; enquanto a primeira faz uma análise micro, a segunda faz uma análise macro. Eis os campos:

  • Unidade.
  • Totalidade.
  • Série.
  • Sistema.
  • Universo.

O autor se esforça para explicar cada campo e como usá-lo, utilizando-se do que sobra de páginas para que o autor o aprenda, tendo como auxílio muitos exemplos e ainda uma demonstração de seu uso em Aristóteles e no conceito de Valor na economia. Com alguma atenção e esforço é possível aprender, mas não antes de ler o mesmo trecho várias vezes, algo que pode se tornar excruciante ao estudante leigo; a diferença de complexidade para a primeira parte do livro é grande e não adianta correr para o Métodos Lógicos e Dialéticos, pois lá as explicações pressupõem a leitura do Lógica e Dialética em algum nível de compreensão. Mas a beleza do funcionamento desse esqueleto da Filosofia Concreta faz com que o passeio pela profundidade desse abismo de informações se torne prazeroso quando se sai dele vitorioso. Lógica e Dialética começa como um pequeno manual de lógica e encerra como um denso tratado de dialética, que se precisarmos colocar um defeito, este está apenas na brusca mudança de tom e na desatualização dos fundamentos da lógica. De qualquer forma, o segundo não prejudica o método e o primeiro é sanado com uma boa dose de atenção e paciência.

Notas:

[1] Nas Investigações Lógicas de Husserl, tal posição pode ser acusada de Psicologismo. Para tal tema, ver Investigações Lógicas. Prolegômenos Para Uma Lógica Pura

[2] p.37

[3] p.39

[4] p.88

[5] p.96

[6] p.177

[7] p.215

[8] p.237

Os livros do Mário utilizados são versões da década de 50. Os disponíveis atualmente podem ser encontrados nos seguintes links:

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