Resenha: Filosofia e Cosmovisão

“Nada melhor atesta a conveniência do método escolhido que o progresso verificado entre aqueles dedicados ao estudo da filosofia”[1]

Pode-se dizer que a filosofia é a mãe da cosmovisão e vice-versa; não sabemos se Mário Ferreira dos Santos pensou nisso ao juntar os dois temas no primeiro volume da Enciclopédia das Ciências Filosóficas e Sociais, mas é inegável a ligação entre os temas.

Trata-se de um pequeno manual de filosofia que visa ser introdutório, embora não consiga na maioria das vezes; o objetivo aqui é a apresentação – extremamente – sintética de uma pilha de pensamentos vindos de vários autores com maior ou menor precisão, algo que o próprio autor deixa claro na introdução – não é a intenção aqui pressupor algum conhecimento filosófico do leitor. Iniciamos o livro observando que o autor procura nos dar alguns exemplos de experiências que podem suscitar o pensamento filosófico, como o fato de que conhecemos através da percepção sensível. Comenta e dá algum norte à construção do conceito de filosofia, não poupando o leitor de certo exercício de memorização para lembrar de tantos problemas dados em menos de vinte páginas; após tal bombardeio, nos brinda com alguns pontos que considera necessários à existência da filosofia:

  • O homem;
  • Uma provocação, uma incitação;
  • Um pensar, um desejo, um anelo;
  • Uma necessidade de saber, de responder;
  • Uma insatisfação ou uma satisfação.

O homem é incitado a pensar sobre algo e a responder em virtude de sua insatisfação com a própria ignorância. Há outras notas sobre no decorrer do livro, e que irão desenvolver-se com pormenor em outras obras, em especial no Filosofia Concreta, o último volume da primeira série da Enciclopédia.

Na parte de filosofia somos introduzidos na terminologia básica, e o autor nos instrui sobre os conceitos de fato, identidade, semelhança, diferença, razão, entre outros, para que possamos manejar com alguma precisão as informações que serão postas mais à frente. Após exposição preliminar, temos temas mais complexos como dualismo antinômico, gnoseológico, e ontológico, seguidos de várias outras noções, como abstração e experiência. Os nomes assustam, mas o didatismo característico do livro faz com que tudo seja absorvido com fluidez desde que haja certa atenção por parte do leitor, mesmo que tal se trate de uma apresentação das categorias de Kant – expostas na página 54 da edição de 1956. Algumas noções de filosofia da ciência, epistemologia, metafísica e suas possibilidades também nos são mostradas com todo o cuidado que um livro sobre o tema exige, e a primeira parte do livro se encerra com uma análise unitária da filosofia apresentada até aqui.

Já na parte de cosmovisão, temos muitos conceitos originais que serão utilizados em todas as obras do autor, como os de intensidade e extensidade, tão caros aos que desejam aprender a usar o método decadialético que será ensinado no volume II da Enciclopédia, o Lógica e Dialética – mais tarde complementado pelo grande Métodos Lógicos e Dialéticos. São apresentados também alguns princípios, como os de identidade, razão suficiente e causalidade; estes serão desenvolvidos no Ontologia e Cosmologia e construídos no Filosofia Concreta. Também somos apresentados às clássicas noções de ser, gênero, espécie, e as categorias de Aristóteles, ainda de que de forma superficial por conta de sua intenção introdutória; acredito que o autor tenha sido bem feliz em seus objetivos neste ponto.

Logo em seguida, nos parece que o autor se empolga: resolve analisar os princípios usando seu método próprio, aparentando esquecer-se de que está escrevendo uma introdução à filosofia; aqui há vários termos técnicos que só serão esclarecidos em obras posteriores. Este ritmo é constante no fim do livro, como podemos ver no áspero capítulo dos conceitos da intuição e da razão, que embora interessantes, poderiam ter sido melhor introduzidos, de preferência com tradução dos vários termos técnicos latinos e citações em rodapé de autores citados, como Klages. O leitor precisará de um caderno de anotações para aproveitar o fim do livro e sua exposição do pensamento matemático e uma pequena introdução a Einstein, Sitter, Lemaitre e Eddington, além de uma pequena exposição da filosofia da consciência.

O livro se encerra com uma exposição preliminar da estética e da ética, temas a serem desenvolvidos em Sociologia Fundamental e Ética Fundamental e Convite à Estética & Convite à Dança. Embora de execução desajeitada em suas últimas páginas, trata-se de uma ótima introdução à filosofia geral e peça indispensável à compreensão da filosofia de Mário Ferreira dos Santos, por conter, entre os muitos apresentados, conceitos originais caros em especial ao estudo de sua dialética e o movimento hierárquico que executa até o cume de seu pensamento. Acredito que a melhor resenha deste livro foi feita pelo próprio Mário em sua introdução:

O que dissemos acima não esgota o que se entende por Filosofia. Toca de leve apenas no seu sentido, que é muito amplo, o qual iremos examinar aos poucos, à proporção que penetremos por esses jardins maravilhosos que são as mais belas criações da inteligência humana.[2]

Notas:

[1] Filosofia e Cosmovisão p.13

[2] Filosofia e Cosmovisão p.17

Os livros do Mário utilizados são versões da década de 50. Os disponíveis atualmente podem ser encontrados nos seguintes links:

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Filosofias da Afirmação e da Negação –>http://amzn.to/2z8YKUa

Filosofia e Cosmovisão –> https://amzn.to/2C7dAfB

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1 comentário em “Resenha: Filosofia e Cosmovisão”

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