O Ordenamento das Leituras

O Guia definitivo das listas de leitura.

Sobre o leitor que chegou até aqui, pressupomos que esteja em busca de um programa de leitura ordenado que lhe permita iniciar seus estudos sem arrastar-se em meio às várias pedras de tropeço que com alguma certeza encontrará pelo caminho.

Inicialmente o Ordenamento foi escrito para suprir as constantes dúvidas acerca de nosso programa de estudos, que no momento encontrava-se espalhado entre instruções no início de cada lista de leitura. Mas regras são regras; e os que resolveram pagar o preço de ignorá-las acabaram virando material para o Monumento dos Teimosos.

Como dito, todas as listas de leitura possuem instruções próprias que visam ajudar no aproveitamento de seu conteúdo.  Essas instruções normalmente indicam se seu conteúdo pode ou deve ser lido antes ou depois de outras listas, formando uma rede de informações entre elas de forma semelhante ao que ocorre com nossos artigos. Um bom exemplo é a Lista de Leitura de Direito pressupondo a Lista de Leitura de Filosofia para que seu conteúdo seja bem aproveitado; como um bom argumentum ad verecundiam, alegamos que o mesmo irá ocorrer em cursos universitários de direito e será ainda mais intenso se dermos uma olhada nos clássicos do direito e sua extensa bibliografia filosófica. Miguel Reale e José Pedro Galvão de Sousa são testemunhas de que a qualquer um que tenha certa proficiência no tema sabe que a Filosofia do Direito é ininteligível sem a plena posse do entendimento de uma miríade de conceitos filosóficos mais ou menos avançados.

Ainda assim segundo o dito, tivemos problemas com os estudantes mais teimosos que opuseram hercúlea resistência a colocar um freio em suas paixões e vontade de refutar o amiguinho. Na expectativa de sanar esse fato horroroso que demonstra muito bem o motivo do Brasil estar no Hades do ranking de educação mundial.

Escrevendo neste tom, talvez o leitor acredite que o Contra os Acadêmicos possui algum tipo de projeto educacional ou propostas para resolver o problema do ensino no Brasil. Pois não há projeto algum; não temos idéia alguma de como resolver problemas maiores do que tentar educar nossas próprias cabeças e a de quem mais quiser nossa ajuda. De grão em grão a galinha enche o papo, e de cabeça em cabeça nos tornamos um pouco melhores.

  1. Para um programa de leitura ordenado

O coração de nosso programa de estudo são os Prolegômenos da Lista de Leitura de Filosofia. Ali temos alguns livros que servem de formação mínima – bem mínima – ao interessado nos assuntos que tratamos. Por isso pedimos encarecidamente que não pulem ou troquem os livros listados de lugar; a menos que um livro avise que não podemos pular seus capítulos sem prejudicar a mensagem geral, não o pulamos; tratemos aqui do mesmo modo. Pedimos ainda que não sejam adicionados outros livros. A experiência mostra que muitos acharam uma boa idéia ler sobre a ontologia de Lacan logo após A Vida Intelectual se achando capacitados para tal – e com outras intenções por trás, como refutar o amiguinho – e não se deram muito bem. Se a administração achar por bem adicionar ou retirar um livro ou outro por conta de os leitores terem dificuldades com os já postos, assim será feito; mas até lá, a presente ordem deve ser respeitada. Essa regra é importante para que o leitor iniciante em sua inocência e vontade de ler certos livros não adicione leituras desnecessárias e fora de contexto. Isso é bem comum entre os interessados em política e economia, matérias que pressupõem certos conhecimentos que são encontrados apenas em filosofia e sua falta pode facilmente criar a criatura grotesca que diz coisas sem o saber, o temido palpiteiro.

Mas como saber se estou preparado para a Lista de Filosofia?

Se o interessado não possui certa carga de leitura, as listas de literatura são mais indicadas; assim o digo, pois, o vocabulário dos livros de filosofia, mesmo as introduções, pressupõem que o leitor já possui algum domínio da língua e seu léxico; e há até aqueles que definitivamente não foram escritos para o público leigo, como basicamente a obra Inteira de Eric Voegelin, que como lemos na introdução de alguns de seus livros, até alguns eruditos reclamavam de seu vocabulário áspero.

Por carga de leitura digo sobretudo literatura clássica em geral; se você foi um bom aluno e leu todas as leituras de vestibular recomendadas no ensino médio ou está acostumado com literatura brasileira, é possível que esteja pronto – ainda que o ideal fosse uma cultura clássica desde cedo como o pessoal do homeschooling costuma pregar. Essa carga de leitura NÃO INCLUI literatura teen e contemporâneos: Harry Potter, Crepúsculo, Leviatã, Saga Divergente, As Crônicas de Gelo e Fogo, estão peremptoriamente excluídos. É preciso que o interessado faça certo exame de consciência; literatura clássica nada tem que ver com isso e filosofia não é brincadeira de criança.

Ainda que falemos de cultura clássica, é importante frisar que o Contra os Acadêmicos não é um projeto que vise ensiná-la aos moldes daqueles que querem ensinar o Trivium e o Quadrivium modernamente. Admiramos e temos algum contato com pessoas interessadas nisso e são muito mais capacitadas para tal que nós, mas por aqui não é o que pretendemos.

  • A organização das listas de leitura.

Cada lista de leitura possui certa lógica interna que oscila entre cronologia e dificuldade. É sabido que para se ler filosofia, ainda que se comece com introduções atuais, é inevitável ter de ler os filósofos antigos, a saber, os gregos. Por isso, ao ler nossas listas, alguns ficarão com a impressão de que se trata de uma linha do tempo. E de fato o é, a menos que se trate das listas de literatura, onde a ordem cronológica prevalece, mas por um motivo especial: as listas de literatura não possuem ordem de leitura rígida, então não é necessária uma organização férrea.

Não se deve fixar-se em apenas uma das listas de leitura gerais [exclui-se aqui as de literatura]. Louis Riboulet ensina que a atenção excessiva às ciências naturais tende a alimentar o cientificismo [ver Conselhos sobre o Trabalho Intelectual], e do mesmo modo uma atenção excessiva a apenas uma de nossas listas pode facilmente viciar o estudo do leitor. Um bom exemplo é que não raro os afeitos à lógica a têm como mãe das outras disciplinas e caem no famigerado logicismo. Muitos autores citados não concordam entre si e é assim que o deve ser; por exemplo, uma lista apenas de autores existencialistas fecharia o estudante em uma só escola de pensamento, o que é extremamente perigoso – e é exatamente isso que fazem os mais exaltados. O fechar-se do modo descrito faz com que o leitor se transforme exatamente no que acusa os outros de serem, digo, estar preso em uma bolha fora da realidade. E eis o motivo pelo qual não faremos lista alguma de vertentes filosóficas ou temas filosóficos específicos. É de conhecimento público que o estudante preguiçoso não lê o que deve, mas o que quer; uma lista de fenomenologia seria um convite para que não se lesse o básico para chegar até ela. Husserl já foi suficientemente deturpado por filósofos, e não queremos que o seja também por refutadores de internet.

Muito do que se vê em Matemática se verá em Lógica – especialmente após a ascensão da lógica de Frege -, então uma serve de complemento à outra; e que ninguém se ache um bom lógico até possuir bom domínio da lógica matemática.

Para que não se tenha problemas em encontrar os livros, a esmagadora maioria deles foi linkado na Amazon para que o interessado possa adquirir. Nas listas de Literatura, é frequente que encontremos obras disponíveis apenas em e-book. Por conta disso, recomenda-se adquirir um Kindle ou eventualmente assinar o Amazon Prime.

 

2. Adendo:

As Listas de Literatura pedem uma completação de pelo menos 70% para que se prossiga para a próxima. É altissimamente recomendado que todos aqueles com menos de 18 anos permaneçam nas Listas de Literatura até que atinjam a maioridade. Os Livros de Apoio podem ser lidos a qualquer momento, embora seja recomendável que estejam à mão para consulta apenas enquanto se lê algum dos livros próprios da lista. Os jovens são conhecidos como deturpadores profissionais de filósofos e em sua esmagadora maioria são presa fácil do “discurso do pensamento crítico”. Por conta desses problemas, é melhor que se mantenham preenchendo a cabeça com os temas apresentados nos níveis propostos antes de se aventurar na filosofia.

Alguns mais velhos costumam se sentir acanhados com nosso programa por acreditarem ter “passado do tempo”. Isso não existe. Para Kant, só se deve filosofar após os 30. Todos são bem-vindos à vida de estudos desde que se tenha dedicação.

Demais instruções estão na descrição das listas. Bons estudos.

 

Literatura

1.      Grécia Antiga

2.      Roma Antiga

3.      O Medievo

4.      Portugal

5.      Brasil

6.      Inglaterra

7. França

 

Humanas

Exatas

Biológicas

1.      Filosofia
2.      História
3.      Matemática
4.      Lógica
5.      Física
6.      Direito
7.      Economia
8.      Psicologia
9.     Ciência Política

Observação

A lista de Matemática pode ser acessada logo após o término dos prolegômenos da lista de leitura de filosofia e seu conteúdo pode ser seguido simultaneamente a outras leituras. Sem a lista de Matemática não se pode acessar a de Física. A lista de Lógica pode ser parcialmente estudada sem a de matemática, mas que o leitor saiba que estará brutalmente defasado nessa matéria e não poderá prosseguir sem aprender um pouco da matéria em questão.

As três Listas de Exatas procuram oferecer conteúdo semelhante ao encontrado em uma graduação e podem ser especialmente úteis àqueles que frequentam cursos do tipo, como Engenharias e afins.

  1. Específicas

As listas de leitura específicas foram idealizadas para facilitar a pesquisa individual de certos autores; não devem ser lidas antes de, ao menos, – e sendo generoso – metade da lista de filosofia. Cada autor possui obras de dificuldades e temas muito diferentes; quem lê o Beleza e o Desejo Sexual de Roger Scruton mal acredita que se trata do mesmo autor.

Por não seguirem o programa de leitura geral não possuem ordem entre si, apenas ordem interna de cronologia e dificuldade.

Atualmente as listas são:

  1. Platão
  2. Aristóteles
  3. Santo Agostinho de Hipona
  4. Santo Tomás de Aquino
  5. Immanuel Kant
  6. Georg Wihelm Friedrich Hegel
  7. Arthur Schopenhauer
  8. Soren Kierkegaard
  9. Edmund Husserl
  10. Gilbert Keith Chesterton
  11. Clive Staples Lewis
  12. Louis Lavelle
  13. José Ortega y Gasset
  14. Hannah Arendt 
  15. Albert Camus
  16. Eric Voegelin
  17. Eric Weil
  18. Michel Foucault
  19. Xavier Zubiri
  20. Giovanni Reale
  21. Roger Scruton
  22. Theodore Dalrymple
  23. Olavo de Carvalho
  1. O Projeto do Polímata

Polímata é aquele que domina muitas áreas do conhecimento simultaneamente. Quase todos os filósofos que citamos são ou foram polímatas, como Platão, Aristóteles, Santo Tomás de Aquino, Immanuel Kant, Eric Voegelin e Xavier Zubiri. O ordenamento das leituras com sua esmagadora quantidade de livros listados tem como um de seus objetivos esse grau [insano] de interdisciplinaridade para que o leitor entenda que as matérias ligam-se umas às outras num todo completo e que não se pode atentar a apenas uma como se fosse o suficiente para falar das outras. Não queremos que surjam abominações como Stephen Hawking falando de filosofia ou Ludwig Von Mises falando de história. Para aqueles que desejam alcançar o grau de um polímata é necessário que a completação das listas de leitura seja só o início, pois mesmo que juntemos todas não seria suficiente para preencher 1/5 da biblioteca de um erudito.

Por outro lado, nem todos seguirão esse caminho. Muitos dos que nos procuram já cursam ou querem cursar algo e precisam de ajuda em suas áreas. Por isso fizemos um adendo para aqueles que pretendem seguir certa carreira mas sabem que precisam saber muito mais do que imaginam.

Dividimos os tópicos por ordem e porcentagem de estudos necessários para cada área. O psicólogo não precisa de muita matemática mas precisa dominar Husserl. Sabemos que o psicologismo, embora morto, continua nos assombrando e ainda há aqueles que querem reduzir tudo à psicologia. O Economista está em uma situação diferente. Sabemos que muitos economistas saem de suas áreas para tratar de outras segundo métodos econômicos, o que por si já é um prelúdio de catástrofes. Então antes de economista ele precisa ler muita filosofia e muita história, e até mesmo um pouco de psicologia é bem-vindo. O físico não precisa ler direito a princípio; mas as ciências exatas têm o problema de comumente induzir o estudante num cientificismo que cairá cedo ou tarde em materialismo; então somos forçados a pedir que os candidatos a físico leiam filosofia o suficiente para que esse problema seja afastado. O lógico está constantemente exposto ao irritante logicismo; então é preciso que saiba que a lógica possui seu lugar próprio entre as matérias, mas apenas ela nada irá resolver. O mesmo vale para o matemático. O candidato a historiador pode facilmente cair no historicismo e outros problemas se seduzido pelo devir do tempo; então a filosofia o ensinará que também há o eterno. E o candidato a filósofo precisa ler toda a sua lista própria e mais as outras e muito mais para ser digno do título que almeja, do mesmo modo como o cientista político, aquele que escolheu talvez a mais ingrata das matérias, que o fará ler todas as listas. Seguimos a concepção clássica de política por aqui, e não esperamos que jovens leiam-na. Mas não se preocupem; terão muito tempo para ler os requisitos mínimos para ela.

As listas de literatura seguem as regras já prescritas.

  1. Filosofia – Filosofia [Completa].
  2. História – Filosofia [Completa] – História.
  3. Matemática – Filosofia [Até nível 2] – Matemática.

Obs: Pode ler a de Lógica completa.

  1. Lógica – Filosofia [Completa] – Matemática [Completa] – Lógica.

Obs: Há muitas faculdades que incluem lógica e matemática em suas grades. Os livros dessas listas podem ser consultados para auxiliar no curso.

  1. Física – Filosofia [Até nível 2 ou superior] – Matemática [Completa].

Obs: Pode ler a de Lógica completa.

  1. Direito – Filosofia [Completa] – História [Ao menos 70% de cada tópico, não precisa o de arqueologia] – Matemática [Nível 1] – Lógica [Opcional até nível 1] – Economia [Introduções ou superior] – Psicologia [Manuais e Introduções].
  2. Economia – Filosofia [Completo] – História [Ao menos 70% de cada tópico, não precisa o de arqueologia] – Matemática [Até nível 2 ou superior] – Lógica [Até nível 2] – Direito [Até ‘raízes contemporâneas’ ou superior] – Psicologia [Manuais e Introduções].
  3. Psicologia – Filosofia [Completo] – História – [Ao menos 70% de cada tópico, não precisa o de arqueologia] Matemática [Nível 1 ou superior] – Lógica [Até o nível 2, exige domínio de Edmund Husserl] – Psicologia.
  4. Ciência Política – Filosofia [Completo] – História – [Completo] Matemática [Nível 2 ou superior] – Lógica [Até o nível 2 ou superior] – Psicologia [Até comentários e diversos ou superior] – Ciência Política.

Obs: Pode ler a de Física também, segundo a ordem das matérias na primeira matéria.

Há ainda as listas de leitura auxiliares com conhecimentos úteis ao candidato a erudito. Ei-las.

  1. Idiomas

Aos que querem descobrir os resultados da indisciplina, basta clicar na imagem abaixo:

13 comentários em “O Ordenamento das Leituras”

  1. Site extremamente importante para formação de um intelectual. Muito bem estruturado e bem humorado, além de ser rico nos temas e autores é também nos detalhes, possibilitando um maior aprofundamento e entendimento sobre o todo que o site propõem em ensinar. Meus parabéns! Fico até emocionado de saber que existe um grupo assim, interessado em ajudar; e que ajuda, não consigo acreditar!!

  2. O que seria uma leitura simultânea, ler um livro de literatura e após o término desse, ler um do prolegômenos, ou de fato ler os dois ao mesmo tempo?

  3. Ola, nao entendi o que se quis dizer com “Não se deve em hipótese alguma fixar-se em cada lista em especial” Havia entendido que, exceto quando anotado (prolegômenos da lista de filosofia e litaratura – que podem ser lidas simultaneamente), as listadas devem ser lidas em sequencia, portanto só iniciar uma lista quando se finaliza a anterior. Alguem teve outro entendimento?
    Obrigado,

  4. Obrigado mesmo por isso.
    Eu encontrei vocês faz pouco tempo e já sonhava em obter conhecimento e deixar de ser pleb no modo clássico desde o “””boom””” do conservadorismo no início de 2010, estava cansado de ver vídeos do Olavo e não entender bosta nenhuma. Além de ficar assistindo os palpiteiros e ficar só reproduzindo o que via no youtube o que depois de um tempo me fez perceber que estava sendo exatamente igual aqueles que criticava. Gostaria de agradecer e elogiar o fato de escolherem autores que são conflitantes em busca de um melhor crescimento crítico. Enfim, vocês fizeram o trabalho que nunca soube por onde começar! Continuem assim!

    Gostaria de saber qual o meio mais rápido para tirar dúvidas com vocês também

  5. Meus amigos, isso é trabalho para uma vida inteira. Dá até um pouco de medo. Mas estou disposto a tentar. Que Deus me ajude.

  6. Pingback: Lista de Leitura de Matemática - Contra os Acadêmicos

  7. Olá. Vi essa pergunta feita por outra pessoa aqui no fórum e não teve resposta. Tenho uma filha de 16 anos e gostaria muito de iniciá-la no mundo intelectual. Ela adora ler, mas gostaria de algumas indicações de livros mais voltados à introdução da filosofia. E como ela está prestes a ingressar na faculdade, gostaria também de blindá-la da doutrinação esquerdista existente no mundo acadêmico.

  8. Olá.
    Vocês não adicionaram as obras de Isaac Asimov e Dostoevsky nas listas de literatura. Por acaso estão em alguma das outras listas, ou eles apenas não foram indicados?

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