Manifestum de Disputata Scatologica: Ensaio acerca de discussões filosóficas pela internet

Este ensaio é a versão irritada e mal escrita do Esquêmata Filosófica e dever ser lido por conta e risco.

            É de conhecimento público e unânime – ou ao menos deveria ser – que meios de ação generalizados produzem efeitos à imagem de seus agentes; armas não disparam sozinhas por precisarem de um atirador capacitado, e atingirão seus alvos segundo a precisão operativa do usuário. O melhor desenho é produzido pela pena nas mãos do melhor desenhista e o inverso ocorre em seu correlativo contrário; mas atentemos que estamos tratando de instrumentos de ação prática nas mãos de agentes que qualificam seu uso: e é aqui que começa nosso ensaio.

            A internet foi concebida desde seus lampejos nas mãos do NPL como uma rede de comunicação; atualmente funciona para isso também, embora a função original tenha sido soterrada por toneladas de pornografia e memes. De qualquer forma, ainda há pessoas que prezam pela função original e utilizam a internet para propagação de conhecimento.

            Antes da popularização da internet, o melhor instrumento prático para se adquirir conhecimento se chamava livro – talvez o leitor encontre alguns na casa de seus avós; são como pilhas de papel de corte retangular adornadas por uma capa – e servia, mediante leitura, para que o usuário se informasse. Aquele que vos escreve aprecia muito esse modo de adquirir conhecimento, embora tal tenha se tornado, ao menos entre os millenials, algo antiquado.

            Pois estudemos do que se trata o estudo segundo a geração millenial:

  1. Millenial Untersuchungen

Diz-se que millenials são aquelas pessoas que nasceram após o ano 2000 a.c., e provavelmente o leitor faz parte dessa geração; mas o que nos interessa aqui é investigar o modo como estes se utilizam da internet para aprender algo de útil, ou seja, exclui-se toda e qualquer atividade lúdica ou duvidosa do utilizador.

A internet é um instrumento como outro qualquer e que não faz nas mãos do agente algo diverso daquilo que ele procura tendo-a como meio para um fim; assim, a carga valorativa dos atos está nas mãos do utilizador. Quanto à procura do conhecimento, desconsiderando o conteúdo deste e prestando atenção apenas a ato da procura, nada aprendemos além da aparente e irrestrita permissão da procura mesma; mas e se prestarmos atenção ao conteúdo procurado e sua fonte? O ato de conhecer enquanto ato é valorado de várias formas, mas não estamos atrás da valoração do ato, mas da valoração do conteúdo procurado, embora, o ato mesmo possa ser visto por outros ângulos.

Olhando o conteúdo tratado como conhecimento, podemos avaliá-lo segundo sua qualidade própria, em outros temos, se o conteúdo dado é satisfatório; em linguagem popular, estamos comparando o peso informativo e a diferença que há entre, por exemplo, um blog de ocultismo criado por um menino de 13 anos após ler sobre Nibiru, e uma enciclopédia digital como o Corpus Thomisticum. Assim percebemos que há uma diferença bem clara entre o conteúdo do conhecimento; também surge a questão de até que ponto esse conteúdo pode ser tóxico a ponto de uma pessoa passar a acreditar na Terra Plana após um tempo lendo esse tipo de coisa.

De qualquer forma, o conteúdo fornecido pela internet não deve ser julgado como sempre deficiente em comparação a livros; é de conhecimento público, por exemplo, que a História da Filosofia de Bertrand Russell é quase um blog éfebo em forma de livro.

De qualquer forma, a internet é o principal instrumento de conhecimento nas mãos do millenial corriqueiro, e ela de fato o fornece em larga escala, com seus vídeos, blogs escritos, audiolivros, – aquela pilha de papel, mas agora lida para que o interessado não o precise –; e, como dito anteriormente, o efeito da ação dá-se segundo a qualidade operativa do agente, i.e., fontes ruins produzem efeitos ruins.

Sabe-se que quanto menor, mais direto e mais simples de se ler, mais lido é um texto; isso vale para vídeos também, e é o principal motivo das colunas de jornal serem tão pequenas – esse texto seria descartado por qualquer jornal, por exemplo. Assim, temos conteúdo compresso de forma que o leitor o possa fazer rapidamente, e velocidade é um fator determinante; usemos um exemplo: se, em trocas de mensagens de texto muito maiores do que quinze linhas há o risco de o remetente não ler, imagine-se o que ocorre com textos com mais de cem. Extrapole-se o limite para um livro de, digamos, duzentas páginas e temos uma boa imagem do que ocorre. O millenial corriqueiro não lê muito mais do que cabe em uma página de blog, que por sua vez, deve caber no monitor de seu computador pessoal.

Mas, o que acontece quando se aplica o conhecimento diminuto ali contido – e é uma consequência lógica; um texto de 30 linhas não tem o mesmo poder explicativo de um livro de 400 páginas – em debates?

 

  1. De re philosophica opiniones abominandae.

Abramos um livro da década de 50 – como o História do Brasil, de Pedro Calmon, mas pode ser qualquer outro – e um livro atual; perceberemos uma assustadora diferença, entre elas nossa excruciante pobreza de vocabulário. Tratamos de algo análogo ao que ocorre na linguagem, e não é raro que os mais velhos reclamem do vocabulário dos jovens e suas gírias simiescas. Mas ora: o que ocorre quando esse espécime curioso resolve ler filosofia – em blogs, pois um livro de verdade não seria entendido; quidquid recipitur ad modum recipientis – e debater na internet?

O Horror!

É notório que a esmagadora maioria dos debatedores de internet, excluindo-se os velhos estranhos a e militância virtual paga por partidos, é o jovem politizado ou alienado após a leitura de certos blogs e canais de filosofia; em verdade, há um tríplice fenômeno que merece estudo específico.

  1. Resume aí que eu refuto!

O millenial comum mal lê; logo, se o precisa, o faz não de fonte primária, mas de esquemas prontos por terceiros que o fizeram sabe-se lá de que fonte que não a original; ora, se não se tem a fonte original, mas sim seu esquema, é natural que, num embate, peça-se não o conteúdo original, mas um resumo facilmente assimilável. Assim, trata-se de não mais do que espantalhos, isso quando não simples fantasmas da Cucolândia das Nuvens, como o diria Aristófanes.

  1. Delivery de refutações.

Em um delivery, pede-se o produto e este é entregue em domicílio pronto para consumo; é o que ocorre, digamos, com pizza. Mas e quando essa facilidade é transportada para debates de internet? Temos, enfim, o delivey de refutações, certo sistema onde, após a encomenda, o refutador esquematiza vários pontos – sofisticamente – tendo como fim o debacle de seu oponente frente à resposta dada. Esta deve ser bem grande, com muitos termos técnicos e indicando fontes de difícil acesso; até que o oponente encontre efetivamente o original, já esqueceu-se do debate. Em um sistema onde lê-se apenas resumos e nunca a fonte primária, o delivery é a carta na manga do preguiçoso; basta copiar e colar.

  1. O Ser e o Gado

Adiciona-se um estranho fenômeno: tendo em vista o tecnicismo das refutações encomendadas ao melhor estilo Górgias de ser, não raro millenials do sexo oposto – ou do mesmo – do refutador aproximam-se deste tendo em vista seu – simulado – intelecto superior. Nesse caso, o índice de refutação é o análogo millenial do antigo bodybuilder.

“Ele malha para pegar mulher, gado demais”

Provérbio antigo retirado de Facebook 1.1

 

  1. Opera Bibliographica

Após tal exposição facilmente verificável do horror, o que nos resta? Dizem que o mais correto é construir programas de estudo que afastem as pessoas do mal caminho e alertem que a resumos e delivery nada são além de simulacros de conhecimento genuíno, e, embora sejamos tentados a chamar tal de nova sofística, é sabido que os Sofistas de fato conheciam e dominavam ao menos a arte retórica e mnemônica, sendo Hípias grande expoente da última.

Mas e se após tal, nada ocorrer?

Então deixemos que os mortos enterrem seus mortos.

 

  1. Complexo Palpitorum

Pode-se ver nesses jovens, não um interesse no saber, mas um interesse no vencer. Lançam-se impetuosos em combates escritos ou conversados, verdadeiros e risíveis conciliábulos. Não há preparo para a luta, mas invenções de última hora. As vezes baseadas em outras ideias decoradas e defasadas. E eis aqui o nosso ogro disforme que é a preguiça causadora da burrice esparsa. Verdadeiros diálogos preenchidos das mais profunda e risíveis opiniões ditas com o mais profundo tom de saber intelectual.

Qual a doença por trás do millenials, meus caros?

 

Consultem nossas lista de leitura:

 

5 comentários em “Manifestum de Disputata Scatologica: Ensaio acerca de discussões filosóficas pela internet”

  1. A proposta do texto é ousada e até mesmo urgente. Mas, creio que ao focar tanto nos aspectos negativos daquilo que se trata no texto como uma banalização do conhecimento e da busca pelo mesmo, promovida pela internet, creio que se negligenciou dados relevantes pra uma análise mais precisa. Por exemplo, não levou-se em consideração que a alfabetização da população geral é um projeto iniciado apenas no século passado, isso talvez explique a banalização da linguagem abordada. Muito menos levou-se em consideração que dessa população recém alfabetizada, grande é a parcela que não sabe interpretar com propriedade e articular a própria interpretação.
    A internet não é, e nunca será, a causa da nossa deseducação. Ela reflete, e no máximo, amplifica (como uma lente de aumento e não um catalisador) essa deseducação (e mais alguns traços da nossa população e de sua interação com espaços cibernéticos). Ao contrário do que os mais preciptados poderiam concluir, a internet tem se mostrado a mais eficiente ferramenta na disceminação do conhecimento. Pois, antes, não importava a competência e disposição intelectual de um indivíduo se o mesmo não tivesse ao alcance as escassas fontes desse bem tão precioso que é o conhecimento. Já hoje, até os pouco afortunados têm essa possibilidade.
    Concluo que a crítica construída acerta no objeto de seu discurso, mas é equivocada quanto à natureza de tal objeto. Ou, ao menos, supondo não serem essas as intenções do autor, contextualiza o objeto dando atenção demasiada às condições de sua existência ao invés de suas fundamentais causas. Ou seja, ao focar na internet como proporcionadora desse ambiente de banalização do debate intelectual, perde-se de vista o real motivador do comportamento criticado, que reside, aparentemente, na psique da população, nessa necessidade egoísta e narcisística de se mostrar mais inteligente que outrém e não na velocidade de comunicação proporcianada pela internet.

  2. Não vi este ensaio como uma “versão irritada e mal escrita do Esquêmata Filosófica”, mas sim como um intróito àquele ensaio.

    O “Esquêmata Filosófica” diz, basicamente: “estude muito antes de falar algo. Os temas “verdade”, “conhecimento” etc., são temas suficientes para ocupar-lhes a mente. Não fale sobre algum tema até ter tratado do mesmo com muita acuidade”.

    O “Manifestum de disputata scatologica”, por sua vez, diz: “Não debata na internet, porque as pessoas não estão nem aí para a sua opinião, estão apenas reverberando ideais copiados – de resumos pífios e pueris – de outrem; e também porque vocês não têm o conhecimento necessário para tal – como vemos no ensaio “Esquêmata Filosófica””.

  3. Que texto! Mudando de assunto: finalmente li os prolegômenos, digo, quase li. É que a gramática do Napoleão Mendes é tão importante que não consigo terminá-lo. Ocorre o seguinte: preciso aprender a escrever mas as regras são tantas que me sinto paralisado ao tentar escrever (com medo de errar). Como faço? Como você aprendeu? Como praticar isso? Responda. (rs)

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