Josiah Royce: “Mind-Stuff” e Realidade

Josiah Royce

Mind-Stuff and Reality[1]

Por Josiah Royce, 1881

O Ensaio do Professor Clifford, “On the Nature of Things-in-Themselves[2] (MIND IX), foi um dos seus mais engenhosos esforços especulativos. Sem dúvida, se tivesse vivido, teria feito muito para dar a seu pensamento uma forma mais satisfatória. Mas o que ele fez o tornou um dos mais conhecidos expositores de uma doutrina que, em várias formas, é agora sustentada por muitos pensadores modernos. “Mind-stuff” (“matéria psíquica”), como a palavra mostra, seria uma substância que combina propriedades físicas e psíquicas. Ao assumirmos a existência desta substância, devemos satisfazer as exigências da filosofia tanto à explicação dos fenômenos externos quanto aos problemas dos fenômenos mentais. O esforço é, portanto, em sua natureza, filosófico. Se a doutrina resultante é defensável em tudo, o veremos; mas ninguém pode duvidar do valor intelectual de discutir questões como a que o Prof. Clifford, de maneira brilhante e séria, aqui sugeriu. Em MIND XXI, 116, o Sr. F. W. Frankland procurou dar à doutrina da Mind-stuff um desenvolvimento mais completo. A consistência tem sido fatal para doutrinas engenhosas, assim como sempre foi útil para o pensamento em geral; e mais de um leitor deve ter sentido que sua insatisfação com a Mind-stuff aumentou bastante ao ler a defesa destemida do Sr. Frankland sobre as consequências. Há algo fundamentalmente não inteligível na afirmação de que “o movimento é matéria psíquica, que volume de sentimento é massa, e intensidade de sentimento é velocidade”; e, mesmo de conjecturas (para Frankland considerar essa afirmação meramente uma conjectura) exigimos inteligibilidade. Nem as breves e apontoadas críticas que fez o Sr. Shadworth Hodgson[3] sobre as consequências filosóficas da teoria do Prof. Clifford ainda foram respondidas. E Wundt, cuja defesa de uma teoria substancialmente idêntica à dele fora citada pelo Prof. Clifford, expressamente negou qualquer suposição de que sua visão seja mais do que uma conclusão hipotética da Substanzbegriff[4] científica comum. Evidentemente, portanto, se a teoria Mind-stuff possui alguma importância definitiva para o pensamento filosófico, todo o assunto deve ser submetido a um severo exame crítico. Esta teoria está ainda em fraldas. Precisamos decidir se a criança deve ser educada ou se, para o bem do estado, deve ser exposta nas montanhas. A doutrina é nova, mas o esforço é de fato antigo, e centenas de volumes foram escritos na tentativa de provar que a natureza está de alguma forma repleta de alma. Podemos julgar todas estas discussões usando o método de análise crítica, unida, como este tipo de análise requer, a um apelo constante à experiência interna e externa.

Filósofo e matemático inglês William Kingdom Clifford (1845-1879), criador da teoria Mind-Stuff.

I.

“O sentimento elementar é uma coisa em si”, diz Clifford. Mas qual é o sentimento elementar à parte de uma consciência na qual ele penetra? Ao voltarmos, responde Clifford, ao longo da linhagem do pedigree humano, os seres que encontramos tornam-se mais simples e mais simples, e assim como supomos, a complexidade da consciência diminui. Mas, onde estamos para dizer que a consciência cessa? A continuidade da série nos proíbe afirmar que a consciência cessa em qualquer lugar. “Como a linha de ascensão é ininterrupta, e deve terminar, por fim, em matéria inorgânica, não temos escolha a não ser admitir que todo movimento de matéria é simultâneo a algum fato ou evento ejetivo que pode ser parte de uma consciência”. E assim, os elementos ejetáveis ​​existem de modo independente e formam o grande mundo da matéria psíquica, que é a própria realidade que percebemos como matéria. Além disso, temos de considerar a seguinte proporção: como a imagem cerebral (física) é para o objeto físico, assim é a percepção para a coisa em si. Disto depreende-se que a coisa deve ser como a natureza em relação à percepção. O universo material é, portanto, uma imagem imperfeita do universo real da matéria psíquica na mente de um homem. Clifford foi longe. Examinemos agora as noções aqui envolvidas.

Em primeiro lugar, é preciso falar de um certo uso vago de termos que desfiguram muitos argumentos sobre toda essa questão, e que devemos evitar ao discutir a doutrina do Prof. Clifford. Para ilustrar a união entre o físico e o psíquico que esta doutrina, em conjunto com outras doutrinas aliadas, procura provar como um fato da natureza, observamos, algumas vezes, usar-se a imagem de uma “realidade de dois lados”. Lê-se sobre “dois aspectos”, neural e físico, fisiológico e psicológico, objetivo e subjetivo de certos fenômenos. Especialmente, é claro, são interpretados dessa forma os fatos da psicologia fisiológica. O Sr. Lewes foi um grande pecador a esse respeito, e a crítica do Sr. Shadworth Hodgson à sua linguagem[5] parece muito satisfatória ao presente escritor. Mas o Sr. Lewes não foi o único pecador. O Sr. Bain falou[6] da única substância com duas faces, o que devemos estudar, “não confundindo as pessoas nem dividindo a substância”; como se o idioma do Credo Atanasiano fosse apenas um modo de expressão para esclarecer uma questão da filosofia moderna. Wundt, não obstante seu comentário acima, usou palavras que estão abertas a uma acusação semelhante de imprecisão, declarando, “dass was wir Seele nennen das innere Sein der nämlichen Einheit ist, die wir äusserlich als den zu ihr gehörigren Leib anschauen[7]. E, de fato, essas frases são tão comuns quanto difíceis de entender. Como uma espécie de expressão abreviada para todo um sistema, a frase pode, de fato, ser justificada. Contudo, se alguém a pretende não apenas como abreviação, mas como a formulação adequada de uma verdade filosófica, então devemos responder que a fórmula não é melhor que a virtus dormitiva do ópio, ou do que a “repulsa do vácuo” como uma explicação para a subida da água através das bombas. É mais um caso da nossa vontade de enganarmos a nós mesmo com palavras.

Essa crítica pode parecer presunçosa; mas não será difícil justificar nossa afirmação. O ponto é um dos mais importantes para todos os argumentos a seguir. Esta expressão “uma realidade com dois lados, faces ou aspectos” é, claramente, figurativa. Pensa-se no escudo da fábula, ou numa moeda, ou numa montanha. Essas coisas são os protótipos desta realidade. Agora, o que é, literalmente falando, a realidade em questão? Um processo nervoso é um coexistente, um necessário ou um indispensável coexistente de um certo fato mental, por exemplo, uma sensação. Agora, esse último mistério deve ser filosoficamente explicado dizendo-se que os dois fatos são os aspectos internos e externos da mesma realidade. Isto seria alguma explicação? Nós recuperamos nosso fato e mais uma metáfora desgastada. Fomos ajudados? “Interno e externo”, qual é o sentido dessas palavras? É a sensação dentro do processo neural? “A realidade”; mas qual é “a” realidade? É o processo físico? Não, isso seria materialismo. É a sensação? Não, quem assim acreditasse seria um daqueles idealistas subjetivos que a fisiologia nervosa está lá para refutar. A realidade é, então, simplesmente, a soma dos dois fenômenos, o fato de que eles coexistem? Por que, então, falar de uma “substância” misteriosa, que não deve ser “dividida”. “Das ist das Hexen-Einmaleins”. O que queremos dizer com material, com fenômenos mentais, permanece de fato um problema para futuras pesquisas. Agora, como, pela introdução desta imponente ficção “monista”, seremos levados para ao menos mais perto de uma compreensão de qualquer um desses problemas, é difícil enxergar. Dores que conhecemos, movimentos que conhecemos, mas o que é este terceiro Desconhecido, do qual um grupo de movimentos é a face externa, e uma dor a face interna? A velha história se repete; aqui, como de costume nas abstrações metafísicas, encontramos simplesmente um novo enigma utilizado para resolver um antigo. As atividades nervosas eram coisas misteriosas e sua conexão com a mente era igualmente misteriosa; assim, nas gerações anteriores, os homens ouviram falar de “espíritos animais”, os quais eram responsáveis ​​por toda a tarefa de transmitir impressões à mente. Uma ficção passou agora, mas outra virá ligeiro; e o mundo mental deve agora ser colado ao físico através de uma preparação patente chamada Substância. Nunca ouvimos antes falar de Substância na filosofia, para que agora corramos todos para ouvir o primeiro anunciador de uma nova?

Mas, nesse caso, dirão, a concepção da única substância sensível e móvel é, afinal de contas, uma breve expressão do fato físico da união dos dois conjuntos de fenômenos. Nenhum dano pode advir de uma mera figura, de uma ficção de linguagem. Não há mal algum em ter certeza, respondemos, se alguém está consciente da ficção quando usa as palavras. Só que a maioria parece estar inconsciente da ficção e, no entanto, muito satisfeita com as palavras. Não apenas para resumir os fatos científicos, mas para, dogmaticamente, fazer afirmações insignificantes substituírem os fatos; é a linguagem frequente que nós criticamos. Quando Schopenhauer declarou que a Vontade era “o Causalität von innen gesehen“, ele imaginou ter declarado uma verdade muito profunda; e seu “insight” fora empregado de forma a tornar todas as leis naturais a expressão da vontade. Podemos ou não aceitar sua teoria; mas não admitiremos que sua inteligente metáfora tenha algo a ver com a prova do que está sendo dito.

Com efeito, podem afirmar que todos nós distinguimos os fatos mentais e físicos que comumente, e sem medo da confusão, chamamos, respectivamente, de fatos internos e externos, e que falar destes fatos como fenômenos de uma substância ou realidade serve para apontar sua conexão causal. Mas, na verdade, devemos responder que esta teoria da substância de dupla face baseia-se na negação da existência de uma sequência causal entre os fenômenos físicos, de um lado, e o sentimento de acompanhamento, de outro. Esta teoria serve especialmente para enfatizar o fato de que fenômenos físicos, como tais, causam fenômenos físicos, e fenômenos mentais, como tais, causam fenômenos mentais, ou que, no máximo, os fenômenos mentais afetam os físicos, mas não o inverso. A teoria deseja expressar o fato da coexistência necessária entre os dois grupos de fenômenos, distinta de qualquer influxo que possa ocorrer do mundo da matéria para o mundo correlato da consciência. Este fato, no entanto, é, como vimos, melhor explicado sem usarmos qualquer termos desta ambígua e perigosa teoria.

A teoria Mind-stuff, portanto, não tem poderes para mudar um pedacinho sequer a natureza dos problemas da matéria e da mente. Estes problemas podem ser melhor abordados, mas não podem ser resolvidos pela teoria. Ela nos prova que a conexão entre os fenômenos mentais e físicos estende-se por todo o universo, e que todo movimento de todo átomo é acompanhado por algum evento psíquico rudimentar; no final, você ainda não mudou nossa teoria filosófica das coisas, nem lançou qualquer luz sobre a natureza da união dos dois conjuntos de fenômenos. Dizer que “todo átomo possui um pequeno fragmento de matéria psíquica” não nos diz nada sobre a natureza do átomo ou da matéria psíquica. Dizer “mas o átomo é a matéria psíquica”, ou “o que exteriormente mostra-se como um átomo-material, interiormente mostra-se como um átomo-mental elementar” – isto é usar o artifício acima condenado de disfarçar um problema sob um molde de palavras. Aquilo que são duas coisas inteiramente distintas, é um produto indefinível e incompreensível decorrente do mau uso da linguagem. Existe, por hipótese, um fato mental, e existe também um fato físico. Estes são coexistentes, e necessariamente o são. A teoria Mind-stuff não nos diz nada novo sobre os fatos ou sobre sua correspondência. Ela apenas reúne dois conjuntos de fatos e chama o agregado por um novo nome.

II.

No entanto, talvez se possa objetar que a teoria Mind-stuff não afirme nem a existência de algo desconhecido por trás dos dois conjuntos distintos de fenômenos, nem a real identidade dos chamados fenômenos físicos com os fenômenos mentais. Um adepto da doutrina em questão pode defender-se assim: “Não se trata de um mero artifício de linguagem. A teoria significa, simplesmente, que não há, propriamente falando, fenômenos materiais reais. Há apenas fenômenos mentais, mais ou menos complexos. Não se fala de nenhuma substância à parte dos fenômenos. Significa apenas que todos os fatos reais são fatos ‘ejetivos’. Assim como admitimos que há psiques por trás de certos fenômenos materiais, por exemplo, por trás dos movimentos voluntários de homens e de animais superiores, a teoria quer que admitamos fatos mentais como as explicações fundamentais de todos os fenômenos materiais.

Esta afirmação parece mais plausível que a última. Eu tenho pensamentos e os expresso em palavras ou atos. Os pensamentos do meu vizinho são afetados pelos meus, mas não pelo conhecimento direto do que está em minha mente. Para meu vizinho, o meu pensamento é conhecido apenas através de sua expressão física. Para ele isso é o fenômeno, do qual a verdade ejetiva é o meu estado mental. Assim como com o átomo: este pequeno fragmento de vida mental é expresso ao pequeno fragmento de vida mental ao seu lado, ao átomo vizinho, na forma de uma modificação como colisão ou como atração. Mas a impenetrabilidade não é a propriedade fundamental do átomo. A impenetrabilidade é apenas a maneira do átomo mostrar sua pequenina mente, assim como o meu jeito de demonstrar meu pensamento é pela resistência exteriorizada à agressão, ou por algum outro ato corporal.

Mas, então, se quisermos ser meticulosos e admitir apenas fatos mentais como sendo, em última análise, reais, poderemos explicar os fenômenos do universo físico? Não, como será visto, nas suposições feitas pela teoria Mind-stuff. Que toda existência é por consciência, o presente escritor plenamente acredita. Mas esta doutrina filosófica não é idêntica à hipótese do material mental. Para o que acredita na Mind-stuff, a existência e a consciência não são de modo algum coincidentes. A matéria psíquica, em seus fragmentos básicos, é totalmente desprovida do problema da unidade e da atividade que constituem a existência consciente. O átomo da matéria psíquica é de natureza psíquica, mas inconsciente; não é, como o Inconsciente de Hartmann, já inteligente, mas não é sequer necessariamente parte de uma consciência. Portanto, ao argumentar contra esse produto anômalo da ingenuidade moderna, não se está argumentando contra o Idealismo ou contra o Fenomenismo como são compreendidos. Fatos mentais são a realidade básica; mas não como estes da teoria  Mind-stuff.

Examinemos agora as consequências da teoria. Não há realidades, mas fragmentos de matéria psíquica. Eles estão agregados em complexas massas para formar mentes; ou, novamente, são, em resumo, combinados para produzir fenômenos inorgânicos. Todos os graus de complexidade existem, dos corpos elementares ao cérebro do homem. Juntos, estes pedaços de matéria psíquica são responsáveis por todos os fenômenos do mundo.

Mas, pausemos. O que sobrou do mundo dos fenômenos? Existem apenas fragmentos de matéria psíquica, e são básicos e simples. Devemos pensar neles após a analogia dos nossos mais simples estados mentais, isto é, das nossas sensações. São aqueles muito mais simples que estas e, sem dúvida, muito menos intensos; mas são análogos. O que se segue?

Primeiro, não sobra nenhum espaço real. Relações-espaciais são irreais e ilusórias. Ora, se há apenas sensações, ou simples fenômenos psíquicos análogos na natureza às nossas sensações mais simples, apenas mais fracas e mais simples, então não faz nenhum sentido dizer que existe qualquer espaço. Não há dúvida de que em muitos dos nossos mais simples estados de consciência, em todos os dados de pelo menos dois dos nossos sentidos desenvolvidos, elementos espaciais constantemente aparecem. Mas, nesses casos, há uma consciência complexa. O conhecimento espacial faz parte desse complexo, inconcebível sem ele. Os elementos mentais básicos, concebidos após a analogia de nossas sensações mais simples, têm um elemento temporal e uma intensidade, assim como uma qualidade. Mas quem se aventurará a falar, um a um, de cada elemento espacial e relações espaciais, como distância e direção entre estes elementos? Que significado haveria nos axiomas de Euclides se o mundo fosse composto de sensações elementares não agrupadas em mentes conscientes? As dores em si mesmas estão acima ou abaixo de outras dores? Uma emoção de amor ou de ódio está distante um centímetro ou uma milha de outras emoções? Quando ouço uma tragédia ou leio um tratado sobre metafísica, meus pensamentos estão em relações espaciais uns com os outros? E mesmo quando as sensações estão para nós agrupadas em um todo no espaço – como as sensações de tato que me ocorrem desta mesa -, estamos dizendo que as sensações elementares separadas da consciência que as agrupa já estão no espaço? Estamos certos, então, de que pelo menos algum material mental é não-espacial. E onde, então, devemos parar? Claramente, as relações espaciais não pertencerão aos átomos numéricos da matéria psíquica, mas ao modo de percepção determinado pela natureza da consciência. Deste modo, eu percebo a matéria psíquica não-espacial, e a percepção lhe dá a forma espacial?

Mas eu também sou uma massa de matéria psíquica. E isso nos leva à segunda consequência da doutrina. Uma massa de matéria psíquica percebe outras massas. Ou, ainda, uma vez que a lei da interação aplica-se aos fenômenos físicos inorgânicos, bem como aos fenômenos superiores, todo átomo de matéria psíquica afeta outros átomos. Mas como isto é concebível? Quando percebo uma montanha, há uma alteração na matéria psíquica da qual consisto. Matéria nova é adicionada, ou antiga é removida, ou a disposição daquilo que se mostra é alterada. Mas como? O fato básico para minha consciência é: a massa de matéria psíquica que me constitui é alterada. Como essa mudança pode ser afetada por qualquer mudança em outra matéria psíquica? A resposta, obviamente, será: a alteração de um fragmento ou massa de matéria psíquica através da ação de outro fragmento ou massa é um fato fundamental e misterioso, cujas leis devem ser estudadas, mas cuja razão é desconhecida. Mas ainda questiona-se: de que maneira a mudança deve ser concebida? E a resposta não é fácil. Suponha, em primeiro lugar, que os átomos fundamentais de matéria psíquica sejam absolutamente imutáveis ​​por natureza e sejam incapazes de ser destruídos ou de aumentar em quantidade. Assim, pensar estes átomos seria usar a analogia das teorias atômicas mais rígidas do mundo físico. Assumindo essa visão por um momento, vamos considerar o resultado. Os átomos de matéria psíquica não podem ser destruídos, criados ou modificados na natureza. Isto posto, apenas o seu agrupamento pode ser alterado. Alguma mudança, rítmica ou não, no agrupamento dos átomos de matéria psíquica na coisa que vejo, produz uma alteração no agrupamento dos átomos da matéria psíquica em mim, ou talvez subtraia ou adicione ao meu estoque de átomos de matéria psíquica. O resultado é essa mudança em mim que é chamada de percepção do objeto. Mas como ou em que sentido um novo agrupamento de átomos de matéria psíquica é concebível? Uma mudança de agrupamento é concebível se as coisas agrupadas estiverem fora uma da outra no espaço. Sua direção e distância podem ser alteradas em um número infinito de maneiras. Mas aqui está o átomo de matéria psíquica a e outro átomo b. Esses átomos são, lembre-se, fatos mentais e nada mais. Eles são “ejetados”. Como isso pode mudar sua relação entre si, isto é, seu agrupamento? Os grupos ab e ba poderiam ser formados, a deve ser concebido acima ou abaixo de b, distante uma polegada ou uma légua de b, ou o que quer que você queira, desde que a e b sejam coisas no espaço. Mas aqui a e b não são coisas no espaço. O que podem distância, ou precedência, ou acima, ou abaixo significar, quando aplicados a relações entre dois fatos mentais independentes?

Uma pergunta muito fácil, alguém pode responder. Se, para qualquer consciência, primeiro a se apresentar e então b, uma impressão do todo muito diferente pode ser criada a partir da impressão produzida pela aparência primeiro de b e depois de a. Despeje a água em um copo previamente preparado, e o resultado é facilmente diferenciado do resultado de primeiro derramar a água e depois preparar o copo. Sem dúvida; mas veja a admissão assim feita. Dada a consciência em que a e b estão agrupados, dado o juiz reflexivo, ante o qual a e b aparecem, o agrupamento no tempo de a e b pode ser importante. Mas essa consciência desenvolvida, para a teoria Mind-stuff, ainda não está deduzida. Aqui está um complexo de “átomos mentais” [mind-atoms]. O que se pode entender por agrupamento, à fortiori, o que se pode entender por esse agrupamento complexo conhecido como consciência? Esta é a grande questão em debate. Cada átomo mental existe no tempo por si mesmo e, por isso, se você optar, coexiste com todos os outros. Desta forma, haverá uma grande agregação de todos eles. Mas onde está qualquer união entre grupos? Onde existe um significado para as palavras “alteração de agrupamento”? Como será concebível, então, qualquer lei pela qual um grupo está conectado a qualquer outro? Como uma mudança de um grupo pode afetar qualquer outro?

É claro que toda esta conversa sobre o agrupamento de átomos mentais nada mais é que uma figura estéril da fala. Estamos acostumados a relações espaciais e a leis conectando um grupo de partículas materiais a outros grupos. Agora, no entanto, em nome da solução de determinados problemas, determinamos assumir de uma vez por todas que, na realidade existem, não partículas materiais, mas sensações básicas ou átomos mentais, fragmentos que podem ser unidos numa consciência completa, mas que pode existir à parte dela. Agora, quando destes átomos tentamos mais uma vez construir nosso mundo, estamos impedidos de usar as ideias decorrentes somente da experiência da matéria e do espaço. Estes átomos mentais não são duros e móveis, eles não estão a várias distâncias um do outro, um não está acima nem abaixo do outro, nem em qualquer outra relação semelhante. Tais palavras aplicadas a fenômenos mentais são simplesmente absurdas. Nosso primeiro problema é este: encontrar formas de conceber como estes átomos básicos podem estar tão relacionados entre si para produzir e explicar os fenômenos observados nas aparências das coisas materiais. Nossa resposta para o problema está longe do que queremos. E querendo, afirmamos, a resposta deve permanecer. Pois os únicos agrupamentos destes fatos mentais fundamentais e imutáveis concebíveis para nós são agrupamentos em e para uma consciência. Sem uma consciência, meras sensações nunca podem ser definitivamente agrupadas. Dá-se um “olhar antes e depois”, uma atividade comparativa, discernente, uma reflexão, e então diferentes agrupamentos de fatos mentais podem ser concebidos. Mesmo assim, todavia, o agrupamento implicaria algo além de uma mera coexistência de átomos mentais fundamentais. O agrupamento implicaria atenção e, portanto, mudança de intensidade, reprodução, destruição temporária ou total dos elementos mentais envolvidos; e tudo isso, se você supõe apenas átomos fundamentais coexistentes, não é concebível.

Mas, pode-se mudar de rumo e dizer que os átomos mentais não são totalmente imutáveis. De fato, se alguém não o fizer, é realmente difícil ver como até mesmo um fenômeno tão material como a colisão de dois átomos pode ser interpretado na linguagem da matéria psíquica. Para a física, não há nada de inconcebível nos fenômenos de colisão, admitidos apenas pela concepção da matéria e do movimento. Mas, para a doutrina Mind-stuff, o caso é diferente. O que o movimento pode significar, ou o que, se “o movimento é matéria psíquica”, a matéria sobre e sob o movimento pode significar; o que um pedaço de matéria psíquica pode experimentar quando sua velocidade muda, quando sua direção de movimento muda, quando outro pedaço de matéria psíquica está em seu caminho (pense no “caminho” de uma sensação) – todas estas questões, intrigantes o suficiente em si mesmas, estariam em tudo parecendo absolutamente insolucionáveis, se não se pudesse assumir alguma alteração contínua em intensidade ou em qualidade no próprio átomo mental fundamental. Suponhamos, então, que o mundo consista em fragmentos de matéria psíquica, em que cada um seja dotado de uma capacidade de mudança, dentro de certos limites, de sua própria intensidade e qualidade. Suponhamos, também, que por alguma harmonia preestabelecida (outra fonte é dificilmente concebível) as alterações em um átomo estejam uniformemente conectadas com alterações em outros átomos, de acordo com leis fixas. Então, de fato, o mundo do mecanismo, da matéria morta e do movimento, poderia ser de algum modo concebido. Isto é, pode-se entender como cada efeito mecânico fenomenal simples, por exemplo, um golpe ou um empurrão, corresponde a alguma alteração numenal nos átomos do material mental. Até mesmo a lei da conservação da energia seria capaz de se explicar tratando-se destes supostos elementos. Desde que velocidade e massa sejam interpretadas em termos de alterações ou permanências fundamentais nos átomos mentais, todas as leis de velocidade e massa poderiam ser expressas nos mesmos termos. Mas consciência? Aqui pausamos, não pouco duvidosos. A consciência é uma mera agregação de átomos de sensação?

Toda consciência é uma síntese de muitos elementos em unidade. A consciência das partes de uma rosa ou de uma casa existe mais ou menos vagamente em minha mente. Ao dizer: “Isto é uma rosa” ou “uma casa”, combino ativamente essas partes em um todo que é mais do que a soma delas. As partes são, como partes, mutuamente indiferentes. Acrescente às sensações apresentadas qualquer número de leves reavivamentos de sensações passadas, e você ainda terá apenas um agregado de elementos descontínuos desarticulados, até que na “unidade de percepção”, a continuidade e a integridade sejam concedidas ao agregado. Se a, b, c, d, e, etc., são sentimentos separados e realmente distintos, digamos, de cores, não vejo em que consistirá sua continuidade como meros elementos. Como fora deles surgirá em mim a percepção de uma contínua superfície colorida? Psicologia fisiológica não pode servir aqui de nenhuma ajuda. Esta ciência supõe a consciência e a realidade exterior como realidades fundamentais e procura determinar a relação das sensações, simples e complexas, para a realidade externa, para processos nervosos e para a consciência, e de maneira semelhante para determinar as relações de consciência para a realidade externa e para os processos nervosos que a acompanham. De modo algum, esta ciência ocupa-se de deduzir consciência daquilo que não é consciente, mais do que procura tornar a realidade externa um produto da mente. Mas a teoria Mind-stuff procura construir a consciência, com toda a sua atividade, fora dos elementos inconscientes. A teoria só pode ter sucesso caso a consciência possa, por alguma possibilidade, ser apresentada como um agregado de elementos inconscientes em si mesmos. Isso pode ser feito? Nosso agregado de sensações de cores será a percepção de uma superfície colorida? Adicione ao agregado qualquer número de associações com sensações passadas de movimento ou de toque: você ainda tem a ideia de uma superfície colorida? Não, faça as associações, complexas como você quiser, elas permanecem lado a lado, indiferentes umas às outras, uma discreta variedade de materiais para a consciência, mas ainda não será uma consciência. Mas na vida consciente não encontramos variedades discretas de sensações que simplesmente vêm e são passivamente recebidas. As sensações estão sempre agrupadas em todos, e os todos são conhecidos por e em “atos de unidade”. “Esta é uma rosa”, posso dizer. “Este é um complexo de sensações de cores com associações de movimento, tato e olfato”, também posso dizer por reflexo; mas, então, também terei agrupado fatos de consciência em uma nova unidade: eu não consegui obter um agregado de elementos de sensação separados. Então a consciência é sempre mais do que uma soma de elementos de sensação; enquanto, dada uma soma de elementos de sensação, não há como ver de que forma, por eles mesmos, eles podem tornar-se uma consciência.

Na natureza, muitas vezes acontece de uma multiplicidade de partes distintas resultar em uma unidade, que não é uma mera soma. Assim, todo organismo, até mesmo todo composto químico, exibe propriedades qualitativamente diferentes das propriedades das partes constituintes. Mas como essas propriedades do composto se manifestam? Apenas no comportamento do múltiplo em relação ao mundo externo a ele mesmo. Sendo em si mesmo uma massa de partes, o todo se comporta como uma unidade ao se relacionar com outras coisas. A molécula composta é uma soma de átomos. Mas, ao se comportar como uma molécula em relação a outras moléculas, ela mostra novas qualidades, e, então, é mais do que um mero agregado. O organismo é um agregado de tecidos. Mas, em seu comportamento na presença do mundo externo, ele mostra adaptação e uma integração de partes, e aí chamamos de uma unidade, não de mero agregado. Uma mera combinação, quando considerada unicamente em si e para si mesma, nunca é um todo organizado. Agregações são todos organizados apenas quando se comportam como tais na presença de outras coisas. Uma estátua é uma agregação de partículas de mármore; mas, como tal, não possui unidade. Para o espectador é uma unidade; em si e para si é um agregado: assim como para a consciência de uma formiga que rasteja sobre ela pode parecer de novo um mero agregado. Nenhuma soma de partes pode criar uma unidade de uma massa de constituintes discretos, a menos que esta unidade exista para algum outro sujeito, não para a própria coisa.

Mas a consciência é, em e para si mesma, uma unidade, contendo uma multiplicidade de partes, mas não totalmente criada pela soma dessas partes. Agora, dada uma soma de átomos mentais, como surgirá a consciência fora deles? Este complexo é para ser uma unidade. Como? Em seu comportamento em relação ao mundo externo? Então, pareceria uma unidade para uma inteligência superior, contemplando seu comportamento, não a ele mesmo. Em sua simetria ou perfeição de estrutura? Aqui, novamente, apenas outro ser contemplando suas perfeições, o consideraria como uma unidade. Em e para si mesmo então? Mas como? Os elementos a, b, c, d, e, etc., estão, de alguma maneira misteriosa, juntos, não no espaço (pois são sentimentos), nem em outra mente (pois eles próprios constituem o todo de alguma mente individual), mas de alguma forma juntos. E eles formam em e a partir de si mesmos uma única consciência. Para este fim, a é o único elemento que percebe todo o resto? Então a é a unidade? Então a é a consciência em questão, e não uma mera sensação elementar; enquanto b, c, d, são constituintes supérfluos ou ao menos acidentais. Mas todos eles são a unidade? Isto é impossível; por hipótese, esses elementos são em e por si mesmos muitos. Não há, então, nenhuma unidade, nenhuma consciência possível. E que ninguém responda dizendo: quando procuro em minha consciência, não encontro nada além de um conjunto de impressões arranjadas em certas formas. Não há dúvida de que é tudo que você encontra – além do que você escolheu chamar de “eu” e do ato de “procurar”.  À parte da unidade da consciência de qualquer momento, sem dúvida não há nada além de multiplicidade. Mas e aquela unidade?

O presente escritor não deseja parecer apaixonado demais por entidades de nenhuma sorte. Esta “autoconsciência”, esta “unidade”, estas “formas” nas quais as impressões são organizadas, sem dúvida, todas elas precisam de mais análises e explicações. Sem dúvida, é precipitado fazer delas o fundamento para assumir qualquer entidade espiritual, qualquer substância da alma, eu absoluto ou outra invenção como sua causa ou substrato. Metafísicos sem dúvida abusaram destes fatos da consciência; mas os fatos continuam lá. E o presente ensaio deseja salientar que, seja qual for a explicação dos fatos, a doutrina Mind-stuff não consegue dar uma explicação possível.

Nossas objeções à hipótese do Prof. Clifford são, portanto: primeiro, que, se a teoria é entendida como oferecendo à atual concepção “monista” da conexão entre fatos físicos e psíquicos, enfim, a explicação de que estes fatos mostram lados diferentes de uma realidade, então a teoria é meramente uma espécie de escolasticismo ressurgido, e substitui uma palavra morta por um problema vivo. Segundo, que, se pela teoria as coisas físicas nada mais são do que agregados de realidades mentais fundamentais, essas realidades ou sentimentos, se concebidos como inalteráveis, falham em explicar qualquer coisa e, mesmo se concebidos como mudança em formas particulares, ainda não conseguem explicar a consciência. Terceiro, que, uma vez que todas as mudanças de agrupamento, de distância, de direção, são excluídas do mundo da realidade pelas hipóteses em questão, toda mudança ocorrerá no interior do átomo mental individual, e assim a teoria está comprometida por um método de considerar o mundo que, na melhor das hipóteses, leva-nos a enormes dificuldades assim que tentamos explicar fenômenos reais.

A importância das questões envolvidas deteve-nos mais tempo nesta teoria do que alguns podem julgar necessário. E, na verdade, não há proveito na mera refutação, a não ser para preparar o caminho a resultados positivos, resultados que já estão ao nosso alcance ou que ainda precisam ser buscados. O presente autor está confiante de que uma teoria pode ser sugerida como uma solução para esse problema, uma teoria que deve ser, ao mesmo tempo, idealista e crítica, precisamente aos fatos da consciência, e adequada às exigências da filosofia da natureza. Tal teoria, se formulada, não tratará de entidades nem de substâncias, espirituais ou materiais, mas exprimirá, simples e acertadamente, o que queremos dizer quando afirmamos a distinção e a conexão entre fenômenos físicos e psíquicos. Para precisão e comprovação desta teoria o escritor espera dedicar seus esforços a um artigo futuro. No momento, ele está satisfeito em formular um resultado puramente negativo.

Notas:

[1] Este artigo, enviado de Berkeley, na Califórnia, foi escrito antes da publicação do artigo do Sr. Gurney sobre o mesmo assunto, em MIND XXII.- ED.

[2] “Sobre a Natureza das Coisas-em-si-mesmas” (tradução livre).

[3] “Eu não estou aqui preocupado,” diz o Sr. Hodgson, “com a teoria Mind-stuff… Minha admiração é encontrar alguém ambicioso de ter ‘Coisas em Si Mesmas’ como um item em seu sistema filosófico.”

[4] As palavras de Wundt são (Phys. Psychol. 2te Aufl. Bd. II., pp. 459, 460): “Es versteht sich aber von selbst dass der so erweiterte Substanzbegriff” (isto é, o conceito de substância material possuía ao mesmo tempo atributos psíquicos) “ebenso hipotetisch ist wie der urspruingliche, und dass er uiberdies so zu sagen von bloss transitorischem Gebrauche sein kann”. Da nova como da antiga noção, sabemos que é nosso próprio produto, não uma revelação da realidade. “Hier weiter uiberdies” schon die nicht zu ulngehende “Nothigung”, “Veriiblit des des Physischen zu dem Psychischen mit dein des Aeusseren und Inneren” in Parallele zu bringen, auf einen solch ‘transistorischen, fur of wirkliche “Sein der Diiuge” nicht massgebenden “” unserer hypothetischen Begriffe hin”. Pois esta ideia de “externo e interno” é de aplicação figurativa aqui.

[5] Philosophy of Reflection, II. 40, ff.

[6] Mind and Body, p. 196.

[7] Physiologische Psychologie, 2te Aufl., II., 463.

Tradução: Valéria Cutrim

 ROYCE, Josiah. Mind-Stuff and Reality. Mind, 6, 1881, pp 365-377.

2 comentários em “Josiah Royce: “Mind-Stuff” e Realidade”

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