Homeschooling, para quê?

Por Maurizio Casalaspro

O ensino domiciliar, também conhecido como Homeschooling, tem sido tema frequente há alguns anos e ganhou ainda mais destaque desde que tramitou no STF em 12 de setembro de 2018, quando escrevi um artigo sobre os bastidores da discussão do ensino domiciliar e o que um governo teria de interesse em proibi-lo.

Os Estados Unidos, por exemplo, estão bem à frente na discussão desse tema. Muito do que é discutido aqui no Brasil como uma questão inteiramente nova já foi amplamente discutida e testada lá e em outros países. Espera-se que, em um local onde o ensino domiciliar seja permitido, surjam também materiais e livros específicos à venda, assim como o mercado editorial será repleto de autores expressando seus pontos de vista, então uma rica discussão naturalmente surge. É fácil encontrar pontos de vista diferentes para cada tema proposto.

Podemos aproveitar esse material já existente na teoria e na prática, lendo os principais livros e verificando os resultados das políticas e metodologias adotadas. Estudos que comprovam a adequada socialização das crianças homeschoolers, por exemplo, poderiam simplificar muitas discussões aqui no Brasil. As estatísticas da grande receptividade do mercado de trabalho às crianças educadas em casa também podem contribuir para a discussão. Muitos empregadores optam por contratar esses estudantes por causa da maior autonomia que geralmente têm em relação aos formados em escolas.

Essa capacidade de se organizar e se estruturar é fundamental para quem estuda em casa, e essa é uma grande vantagem em comparação, por exemplo, com os frutos do conhecido Helicopter Pareting, que são pais que nunca deixariam um filho passar por dificuldades sem interferir em seu favor, não importa o que aconteça, especialmente nas escolas, tomando posição contra professores (que tiveram suas autoridades retiradas da sala de aula) e contra diretores, muitas vezes bradando o famoso “eu pago seu salário”.

Esses pais prestam todo tipo de auxílio, o que favorece ainda mais o comportamento infantil e inconsequente de seus filhos, que às vezes se estende até a idade adulta. Mais frequentemente, nos Estados Unidos, pais de filhos já crescidos ligam para seus chefes, pedindo explicações para tantas horas extras ou até mesmo pedindo um aumento em nome de seus filhos, justificando-o com suas qualidades. Há relatos (não poucos) de pais que até mesmo acompanham e falam em nome de seus filhos em entrevistas para ingressar em faculdades ou mesmo em entrevistas de emprego.

É claro que esses pais fazem isso pensando no que é melhor para seus filhos, mas é um forte indício de que toda a sua concepção de educação está distorcida. Na missão de proporcionar o máximo de conforto e felicidade aos filhos, os privam de desenvolver a força necessária para enfrentar suas próprias dificuldades.

Uma maneira simples de saber se os pais estão exagerando nos cuidados, causando potenciais danos psicológicos e no processo educativo é (1) fazer para nossos filhos o que eles já podem fazer sozinhos, (2) fazer o que eles quase conseguem fazer sozinhos e (3) o comportamento dos pais motivado pelo próprio ego, deixando de lado o processo educativo.

Neste texto, pretendo discorrer sobre algumas das razões para se fazer o ensino domiciliar. O título, adaptado do livro de Georges Gusdorf, Professores, para quê?, é precisamente para analisar alguns prós e contras com mais profundidade. Muitas famílias que optam por tirar seus filhos da escola acabam levando o modelo escolar para casa sem refletir em detalhes sobre o que há de positivo no modelo escolar e o que não há. O fato é que, tendo a liberdade para educar os próprios filhos, o modelo deve ser adaptado para máximo benefício.

O processo do aprendizado depende principalmente do nível de interesse e concentração do aluno. Quando não há interesse, não é possível ter plena concentração, e o aprendizado não ocorre adequadamente. O aprendizado a longo prazo também depende da motivação do aluno. O aprendizado de determinados conteúdos pode fazer muito sentido para um aluno enquanto que para outro parece completamente inútil.

Propiciar um ambiente rico em estímulos adequados, para além de proporcionar a motivação adequada, é certamente tarefa dos adultos responsáveis pela educação, quer em casa, quer na escola. Ocupei-me especificamente desta questão no texto Elementos da Aprendizagem. O que se espera de um bom professor e mestre é que ele tenha admiração pela matéria que ensina, a fim de despertar a vontade dos alunos. Um bom professor de matemática pode não fazer com que todos os alunos amem a disciplina da mesma forma, mas um professor ruim é capaz de apagar a vontade até mesmo dos alunos mais interessados.

Qualquer um que esteja menos interessado em uma matéria pode fazer um esforço para passar nos exames sem realmente aprender nada. Os professores sentem que fizeram a sua parte, os pais ficam orgulhosos e a criança sente-se aliviada, especialmente quando chega o diploma que os liberta dos estudos. Isto não é educar, tampouco aprender. Testes realizados com adultos formados mostram que a retenção de conteúdo escolar básico é praticamente zero.

Os alunos acabam sendo treinados para realizar certas atividades por uma recompensa (boas notas) ou para evitar punições, que podem ser notas baixas, uma exposição negativa aos colegas, ou mesmo repreensão dos pais em casa. Habituar-se a fazer bem uma tarefa por uma questão de recompensa, sem realmente se importar com o que é feito, é precisamente a mentalidade desejada pelos grupos que decidem e elaboram a política educacional dos alunos.

Embora a escola seja capaz de fornecer conteúdo contínua e sistematicamente, não é totalmente capaz de adaptar rotinas e horários. Por causa da necessidade de organização e logística, todas as atividades têm hora certa para começar e terminar. O conteúdo a ser ensinado precisa seguir uma determinada agenda e há pouco espaço para ajustes.

Além disso, para um aprendizado eficaz, os estímulos devem ser criativos e deve haver envolvimento emocional. É necessário um verdadeiro interesse, com algum entusiasmo. A participação de um bom professor e mestre nesse processo é fundamental. Isso garante uma melhor estimulação no cérebro e o aprendizado realmente ocorre. Além disso, é também necessário um período de reflexão sobre o que foi aprendido. Se a grade não permite esses momentos, uma superficialidade do que foi estudado é praticamente inevitável.

Numa rotina flexível e adaptável, é possível fazer melhor uso do tempo. Se um determinado tema está gerando muito entusiasmo, por que não prolongar um pouco mais, criando vínculos com outros conteúdos? Se outro assunto pareceu muito chato, que tal deixa-lo para outra ocasião mais apropriada? Ou talvez encontrar uma relação com um assunto de interesse para o aluno? Se uma fórmula de matemática parece estar travando a compreensão, talvez seja melhor voltar um pouco atrás. Este tipo de adaptação raramente é possível nas escolas, pois há muitas crianças na sala de aula e o coletivo acaba tendo prioridade sobre o particular.

À medida que o aluno cresce, a resistência a períodos de dificuldade ou tédio também aumenta. Não desistir na primeira complicação também é necessário, mas exigi-lo de crianças muito pequenas pode simplesmente fazê-las perceber os estudos como algo penoso, e não como o caminho para alcançar seus objetivos e melhorar suas capacidades.

As turmas escolares precisam de ter um certo ritmo para o ano letivo terminar com toda a matéria dada. Este é um dos principais objetivos dos professores. Assegurar que o que foi ensinado é realmente assimilado não é realmente a preocupação, ou seja, muitas lacunas no aprendizado acabam por ser delegadas para os próximos professores. É até possível retroceder um pouco ou parar o assunto para ajudar um determinado aluno, mas em algum momento isso terá de ser compensado, independente das razões para os atrasos.

Foco na obtenção de conhecimento e não em preparatórios para vestibulares. Este é um tema muito discutido quando os pais procuram boas escolas para os seus filhos. Analisar quantos alunos entram em boas universidades é um indicador amplamente utilizado para tomar decisões sobre em que escola colocá-los.

Muitas escolas dedicam grande parte do seu tempo de aula em preparatórios para realização de provas e vestibulares. Os alunos são treinados especificamente para essas provas. Aprendem truques para extrair respostas de um texto rapidamente, aprendem a eliminar respostas obviamente erradas e aumentar a chance de acertar uma questão de múltipla escolha por sorte, aprendem truques de memorização de curto prazo e são acostumados a estar satisfeitos com o estudo de certos conteúdos, logo que são capazes de passar nos testes.

Um professor afirmou que, nas vésperas de provas, era necessário interromper os pensamentos mais profundos dos alunos sobre um determinado tópico, a fim de beneficiar os resultados nas provas. Se você se questiona demais sobre um determinado tema e aprofunda em inúmeras perguntas e possibilidades, perderá tempo na prova, segundo este professor. No entanto, a capacidade de “pensar fora da caixa” é altamente valorizada no mercado de trabalho e na sociedade em geral.

John Gatto, um grande professor americano que defendeu o ensino domiciliar por muito tempo, também defende a extinção dos vestibulares como forma de admissão nas universidades, considerando a capacidade de realizar provas insuficiente para determinar a aptidão e o mérito de um aluno para frequentar as universidades de seu interesse.

Bryan Caplan, em seu livro contra o sistema educacional americano, demonstra que as provas são melhores indicadores da capacidade econômica da família do aluno do que de habilidades cognitivas per se, o que coloca em questão não só os vestibulares como método de admissão, mas também todo o ensino escolar.

Escolas que não enfocam provas de vestibular, mas no prazer de estudar e na autonomia do aluno para estudar sozinho, acabam tendo índices de aprovação em universidades iguais ou até superiores aos das escolas comuns. Isto porque um aluno com autonomia suficiente é plenamente capaz de se preparar para uma prova sem grandes dificuldades, já que está acostumado a organizar-se e seguir seus próprios objetivos sem precisar de muito auxílio externo. Esta capacidade também será muito útil na universidade, na carreira futura e na vida adulta.

Em cada atividade, o desenvolvimento dessa autonomia deve ser considerado, independentemente do conteúdo. Não falo de autonomia no sentido que Paulo Freire utiliza, mas na capacidade dos alunos de se organizarem e estudarem sozinhos novos temas, superando as dificuldades inerentes ao trabalho intelectual. Esse é um dos principais pontos do ensino. Uma criança que desenvolveu isso bem será plenamente capaz de encontrar seu próprio ritmo e forma de estudo, além de poder explorar novos conhecimentos sem depender de um professor que indique cada passo.

O ensino domiciliar é uma grande oportunidade para focar o aprendizado no conhecimento e no desenvolvimento da autonomia, por isso, quando o aluno decide que faculdade quer prosseguir ou que carreira decide seguir, tem plena capacidade de se preparar sozinho adequadamente.

Pressão dos colegas, além da pressão exercida pelo próprio mecanismo do sistema escolar, também deve ser considerada. O sistema escolar gera pressão para um bom desempenho. Professores e pais esperam boas notas, e as crianças sentem-se obrigadas a entregar-lhes isto, mesmo que o aprendizado não ocorra realmente, como mencionei anteriormente. A busca por boas notas acaba desempenhando o papel de recompensa, o que significa que acaba sendo uma forma de controle de comportamento. O tema já foi abordado em outro texto meu.

Quando digo “pressão dos colegas” não me refiro ao bullying ou algo assim, mas à pressão que existe quando nos sentimos expostos. Muitas crianças são tímidas em dizer que não entenderam algo ou expor uma dúvida em sala de aula, mesmo quando o ambiente é receptivo a esse tipo de situação. Alunos mais extrovertidos podem não se preocupar com isso, mas ainda assim, ficam menos à vontade do que em um ambiente menor.

Há um julgamento automático quando um aluno tenta responder a uma questão na sala de aula e comete um erro. Sente julgado pelos outros. É impossível de evitar. Mesmo que os colegas simplesmente ignorem um comentário, o aluno exposto se sente acuado e isso acaba moldando seu comportamento com os outros. O resultado é invariavelmente um certo conformismo e respeito pela autoridade, representada na classe pelo professor.

O tema já foi amplamente estudado e utilizado para esses fins, como explicado em The utilization of classroom peers as behavior change agents [A utilização dos colegas de classe como forma de controle de comportamento].

O cuidado especial é algo a considerar, também. Por mais que alguns professores sejam treinados para lidar com crianças especiais (o que raramente acontece), os cuidados não serão os mesmos que os recebidos em casa. Não é possível para um professor prestar atenção a tudo que ocorre na sala de aula, muito menos no recreio ou nos intervalos, nem é possível dedicar longos períodos de tempo a um único aluno que necessite de atenção dedicada.

Não foram poucos os relatos que acompanhei de crianças que viam a escola como um local de tormenta em vez de um local para aprender. As vítimas de bullying encontram o homeschooling como uma medida urgente e necessária. Muitas sofrem com os colegas, mas outras sofrem com os próprios professores, que são incapazes de tratar da questão ou que até mesmo agravam o problema.

As crianças especiais acabam por receber todo o afeto de que necessitam para o seu desenvolvimento apenas em casa, para aqueles que não conseguem ter profissionais capacitados para a missão. O ensino domiciliar é muito eficaz nestes casos. Reconhecendo que cada criança tem suas próprias características e que o mesmo ocorre com distúrbios de aprendizagem ou problemas neurológicos, os pais costumam dedicar-se de corpo e alma aos problemas específicos de seus filhos, buscando as soluções mais adequadas para eles.

Independentemente disso, as escolas estão frequentemente sujeitas a problemas de segurança ou influências negativas. As escolas públicas já foram consideradas os lugares menos seguros nos Estados Unidos. As agressões físicas e morais ocorrem em todas as direções, resultando em escolas que são muito semelhantes aos presídios de segurança máxima.

Violência, drogas e assédio são comuns nessas escolas. A diretoria muitas vezes trata a questão com descaso, pois qualquer atitude mais enérgica poderia trazer ainda mais problemas e até atrair atenção da mídia, o que colocaria a escola e seus dirigentes em foco. O mais fácil é sempre fingir que nada aconteceu e continuar tudo da mesma forma. Os relatos de escolas que ignoram problemas muito sérios não são poucos.

Muito diferente de criar um filho dentro de uma redoma, tratar de questões sérias de segurança é algo que merece a atenção dos pais. As famílias que adotaram o ensino domiciliar como medida emergencial sofrem em dobro. Além de muitas vezes não terem tempo suficiente para planejar a transição, têm muitas vezes filhos com sequelas psicológicas dos problemas que motivaram a mudança.

Brincadeiras livres são fundamentais para o desenvolvimento das crianças. Para elas, as brincadeiras são tratadas com muita seriedade. É quando exercitam a própria criatividade e fazem experiências com o que aprenderam observando. Como diz Peter Gray em Free to Learn, as brincadeiras devem ser livres para que o aprendizado realmente ocorra de forma plena. Quando os adultos sugerem e controlam as atividades, determinam a hora para começar e terminar, pode até ser divertido, mas as crianças sabem que são os adultos que estão controlando tudo, não elas. O resultado é, portanto, bem diferente.

Claro que isso tem valor, mas a brincadeira livre permite o desenvolvimento de certas coisas que as brincadeiras controladas não permitem. A adaptação de objetos em novas brincadeiras, a invenção e discussão de regras com amigos, personagens e histórias criadas e até mesmo novas músicas só são possíveis quando as crianças estão no controle. Lidar com o tédio também é algo muito importante de se ensinar às crianças. Depender de estímulos cada vez mais intensos é um problema da modernidade. A TV acaba sendo um refúgio para o tédio de praticamente todas as crianças de hoje, praticamente travando a criatividade de capacidade de lidar com o tédio sozinhos.

Isto não significa que seja suficiente deixar as crianças sozinhas com alguns brinquedos. Brincar será melhor se o ambiente for seguro e rico em possibilidades, estas proporcionadas pelos adultos. As crianças podem precisar de ajuda ou mesmo de intervenção se algo sair do controle.

Jaime G. Rojas-Bermúdez, em seu livro  Introdução ao psicodrama, descreve o processo de aprendizado que observou em seus filhos, descrevendo o processo de estar interessado em uma história até ao fim súbito do interesse e substituição por outra nova história. Isto pode exemplificar o processo de aprendizado aqui mencionado, por analogia.

  • As crianças por volta dos dois anos de idade desconhecem, em grande parte, o significado das palavras utilizadas nos contos, por isso estão mais concentradas na maneira como narramos, incluindo sons, ênfases, pausas, gestos, etc. Tudo isto é um estímulo para a criança. Destes registros emergirão, mais tarde, as formas e os conteúdos das brincadeiras;
  • Para a criança, nesta fase, o tom e a melodia que evocam certas sensações são essenciais. Sentirá alegria, temor, curiosidade, medo, surpresa. Estas sensações permanecem intimamente ligadas à pessoa que lhe lê o conto. Quanto mais sensações diferentes experimenta com a história, mais gosta do conto;
  • A criança aprende a relacionar um certo tipo de sensação com um certo tipo de estímulo, de modo que quando quer experimentar uma certa sensação, solicita o estímulo correspondente;
  • A repetição da história permite à criança registrá-la completamente. Sabemos que isto se alcançou quando a resposta emocional da criança diminui e a atenção se desloca para as formas do relato;
  • O próximo passo é descobrir as palavras do relato. A criança começa a esperar as mesmas palavras em cada repetição;
  • Pouco a pouco a atenção vai se afastando dos estímulos globais e a criança fica menos interessada em quem lê para ela, mas que se repita o texto da mesma forma. A atenção volta-se para a estrutura da história;
  • A criança torna-se capaz de perceber mudanças no texto, se contado de outra forma. Não é capaz de se lembrar da história por completo, mas percebe se algo mudou. Da mesma forma que identificamos o nome de uma rua ao ver sua placa, mas não éramos capazes de recordar diretamente;
  • Após uma assimilação suficiente, a criança liberta-se da dependência do adulto em relação ao conto, e é capaz de evocar os elementos da história à vontade. Este conteúdo pode ser integrado às brincadeiras e jogos;
  • A criança começa a brincar com os elementos da história e mistura-os com suas brincadeiras. É a “prova da realidade”, testada introduzindo os elementos e testando as suas possibilidades e estruturas. Descobrirá, experimentalmente, as possibilidades de funções e fatos. Fará inúmeras tentativas e formas até que consiga reproduzir a imagem que tem em sua mente nas brincadeiras;
  • Ao mesmo tempo em que essas brincadeiras acontecem, a criança cria uma nova imagem da história, porque sua compreensão das possibilidades é agora mais rica e mais completa;
  • Interessa-se por partilhar com outras pessoas, delegando personagens. Conhecendo a estrutura geral da história, é capaz de representar qualquer um dos personagens;
  • Nas sucessivas dramatizações do conto, mudará de personagem até que se esgotem as possibilidades da história. Desta forma, experimenta a experiência de cada um dos personagens em diferentes situações. Experimenta sensações e emoções de cada um dos personagens à sua própria maneira;
  • Finalmente, após finalizar suas experiências, o interesse decai e a criança simplesmente abandona o tema.

É importante notar que as ideias utilizadas nas brincadeiras não surgem aleatoriamente, mas do material trazido pelos adultos. Isto significa que a simples compra de muitos equipamentos educativos para deixar a criança sozinha entre eles provavelmente não trará o resultado desejado.

A brincadeira livre também pode ocorrer nas escolas, mas em geral estas geralmente dão estrutura a todos os conteúdos ministrados. Aulas de musicalização, de artes, de educação física, de natação e até mesmo gincanas acabam tendo estrutura definida pelos adultos. Aulas estruturadas são de suma importância, mas nas escolas acabam ocupando a totalidade da grade das aulas, eliminando esse importante elemento de aprendizado da brincadeira livre.

A competição é algo que faz parte do mundo real. O mundo é realmente muito competitivo e as pessoas imaginam que também deveriam ser as escolas. Assim, torna-se natural que um ambiente escolar seja competitivo. Os pais acham ótimo que seus filhos se acostumem a enfrentar frustrações e dificuldades desde cedo. Acham ótimo que a escola mostre como é o “mundo real” desde a mais tenra idade. Alguns pais chegam a dizer para seus filhos de poucos anos “olha, aquela menininha não está chorando”, já introduzindo a mentalidade comparativa e competitiva desde o começo da vida.

É verdade que o mercado de trabalho é competitivo, mas, uma vez empregado, a postura cooperativa é muito mais vantajosa para a empresa. Trabalhar em equipe ajudando seus colegas e permitindo-lhes que o ajudem quando necessário é uma habilidade muito importante, enquanto simplesmente tentar superar seus pares pode gerar problemas na empresa.

O sistema escolar se concentra muito mais em comparações e competições do que na forma cooperativa de trabalho. A frase “Não basta ser bom, tem de ser melhor do que os outros” é um pensamento comum em famílias que esperam da escola apenas a admissão de seu filho em boas universidades.

Alguns modelos escolares adiam o uso de provas e notas tanto quanto possível, postergando ao máximo essa mentalidade competitiva. No entanto, depois de uma certa série, as avaliações se tornam obrigatórias. No entanto, não há nenhum benefício em habituar crianças de cinco anos a fazer provas e a receber notas. Este tema foi abordado no meu texto Como treinar seu filho para ser bem-sucedido.

As crianças maiores podem usar avaliações (que não necessariamente precisam ser notas) como uma forma de feedback sobre o conteúdo aprendido, ajudando a orientar as próximas lições e revisões.

Atividades cooperativas devem fazer parte do processo educativo das crianças. Aprender a se posicionar em uma conversa respeitosa, ouvir outros pontos de vista e reconsiderar as próprias convicções são habilidades indispensáveis a qualquer adulto maduro.

Recomenda-se também a realização de atividades cooperativas com a família. Tarefas domésticas têm esta característica. Todos podem contribuir para um mesmo objetivo. Os jogos cooperativos, como o quebra-cabeça, também são excelentes atividades para se fazer em família.

Numerosos relatos de famílias americanas homeschoolers com muitos filhos mostram como a rotina pode ser organizada, e até mesmo se tornar leve e divertida para todos. Há inúmeros livros que tratam especialmente da organização do lar. Ter um lar organizado e cooperativo certamente ajuda a formar o caráter e as virtudes de todas as crianças.

Bibliografias sobre a competição e o sistema de avaliação utilizado nas escolas estão no final do texto

As diferentes formas de aprender são talvez uma das principais dificuldades de quem coordena uma escola comum, onde o professor fala com toda uma turma durante um certo tempo, e onde se espera que os alunos absorvam parte do que foi dito. Isto seria bom se todos os alunos aprendessem da mesma maneira e ao mesmo tempo. O método expositivo é bom apenas para uma fração dos alunos.

Muitos deles não tirarão proveito o bastante apenas ouvindo o professor falar e fazendo algumas atividades. Especialmente em crianças mais novas, a melhor maneira de aprender varia muito entre elas. Algumas aprendem melhor observando, outras preferem apenas ouvir, outras preferem conversar e outras preferem experimentar.

Também é comum que uma criança aprenda um conteúdo de uma maneira enquanto aprende melhor outro conteúdo de outra maneira. Também é comum que uma criança memorize um fato imediatamente, enquanto outra depende de anotações e muitas revisões. Além das características inatas, também influencia muito o interesse de cada criança em cada tema.

As famílias que ensinam em casa podem tornar a forma mais flexível e adaptá-la sempre que necessário. Uma escola não pode fazer isso, porque se deve atender sempre à maioria da sala, e não apenas alguns. O resultado disso é que raramente a forma proposta atende a todos os alunos da melhor forma.

Além disso, a escola precisa trabalhar com frações iguais de tempo, para conseguir organizar e coordenar múltiplas atividades em diferentes ambientes. O sinal da escola marca o término de uma rodada de atividades e o início de outra. Independentemente do que esteja acontecendo em cada sala de aula, é hora de parar. Mesmo que uma sala esteja aproveitando o conteúdo em profunda concentração, é hora de trocar a matéria.

Aprender a interromper uma atividade abruptamente pode ser muito frustrante, embora para a maioria dos alunos seja um alívio de uma tormenta. Muitos alunos esperam apenas pela hora de ir embora porque o ambiente é tão desinteressante que se torna um suplício. Este contentamento de interromper um raro momento de concentração e aceitar passivamente o início de outra atividade acaba por desenvolver o conformismo mais do que qualquer outra coisa. O aluno não pode sequer estender o estudo a algo que lhe interessa.

Mesmo aqueles que dizem que o aluno pode retomar seus estudos do que lhe interessa em casa, é pouco provável que sobre alguma energia após muitas horas de aula, atividades extracurriculares (como inglês ou atividades esportivas), tempo para a lição de casa, jantar, banho, etc. Mesmo que restasse tempo, a assimilação é drasticamente reduzida pelo esforço mental excessivo em um único dia. O aprendizado é muito reduzido nestas condições.

Homeschoolers não têm de fazer nada disso. Se um tema desperta total interesse em determinado dia, por que não passar o dia estudando-o? Por que não vincular esse interesse a outras atividades e matérias? Que tal ser criativo e improvisar, aproveitando o interesse do aluno? Alguns métodos de ensino se baseiam inteiramente no que o aluno está interessado, conectando outros assuntos àquele, expandindo o interesse para inúmeras outras áreas.

É verdade que algumas escolas permitem que a concentração dos alunos dure várias horas, e até mantém as atividades interrompidas pela hora de voltar para casa intactas, aguardando o retorno delas no dia seguinte, dando um senso de continuidade às tarefas — a criança sabe que seu trabalho estará lá amanhã e pode ir tranquila para casa. Algumas escolas simplesmente limpam tudo de um dia para outro, eliminando esse senso de continuidade.

Também é importante ter em conta que as janelas de concentração de uma criança podem variar por várias razões. Por vezes, a mesma criança mostra um profundo interesse por algo em um dia e nem sequer quer vê-lo no dia seguinte. As janelas de concentração podem durar menos de três minutos, mas também podem durar várias horas. Interromper a concentração ou forçar a mantê-la por mais tempo pode eliminar muito do prazer de aprender da criança.

Aqueles que assumiram a responsabilidade de educar seus filhos em casa devem ter isso em mente. As escolas também deveriam! Algumas escolas utilizam um modelo de sala de aula aberta, permitindo que as crianças circulem livremente entre diferentes disciplinas e atividades. Estas possibilidades são reduzidas à medida que as crianças crescem, mas isto não é um problema para as crianças pequenas.

As escolas muito grandes acabam por ser menos capazes de flexibilizar a grade curricular e acabam por ter rotinas mais rígidas. Há uma hora para tudo, incluindo a alimentação (há até grupos nos Estados Unidos que se queixam do curto tempo para alimentação das crianças, que pode durar apenas quinze minutos). É de esperar que esta rigidez leve muitas crianças a sentirem-se frustradas e pressionadas, o que as leva a comportarem-se de forma inadequada.

Como temos conceitos profundamente enraizados de como deve ser a escola e de que as crianças que devem se adaptar a ela, tem sido cada vez mais comum a identificação de distúrbios de aprendizagem nas crianças, que são depois encaminhadas para psicólogos e psiquiatras. Estes, não tardam a identificar algum distúrbio e logo prescrevem alguma medicação. Há mais de 4 milhões de crianças tomando medicamentos nos Estados Unidos para supostos transtornos de aprendizagem.

Essas medicações costumam ser estimulantes, como a Ritalina e o Adderall, que acalmam as crianças e tornam mais fácil para elas se enquadrarem ao modelo escolar. As crianças com muita energia (classificadas como hiperativas) são forçadas a ficar calmas e aceitar o modelo escolar que lhes é imposto. Claro que existem distúrbios neurológicos, mas o uso de anfetaminas por milhões de crianças é realmente um sinal de alerta de algo muito sério.

John Gatto disse que já sugeriu que professores tomem esses medicamentos que consideram inofensivos, para que se ajustem aos alunos, em vez de os alunos se ajustarem a eles. Segundo ele, nenhum deles jamais topou realizar a experiência. Também não tenho ciência de que pedagogos escolares que foram ao psiquiatra sob o pretexto de “precisar adaptar sua escola aos seus alunos”.

Homeschoolers precisam ter isso em mente ao definir as rotinas em casa. Por um lado, ser capaz de tornar a rotina mais flexível é uma coisa excelente. Por outro lado, algumas crianças estão tão habituadas a esta ordem externa que podem preferir que seja repetida em casa. Com o tempo, naturalmente, esta necessidade será reduzida.

As crianças que se acostumam demasiado a esta organização escolar podem tornar-se mentalmente preguiçosas, aguardando sempre que alguém lhes diga quando e o que é preciso fazer. Tornam-se dependentes e incapazes de ordenar as coisas por conta própria, o que por si só demonstra uma falta de autonomia. Vale a pena lembrar que esta capacidade não se desenvolve sozinha ao longo do tempo, o que pode gerar adultos que também dependam de ajuda para tudo. Os pais também possuem responsabilidade nesse desenvolvimento, e muitas vezes acabam por atrasar ainda mais o processo. Tem sido cada vez mais frequente encontrar crianças maiores com cuidados paternos adequados a crianças de 2 anos ou menos.

A lição de casa é mais uma das coisas que são consideradas obrigatórias para todos os estudantes. Quanto mais lição de casa, melhor, certo? Os pais muitas vezes pensam que um bom professor prepara boas lições de casa e ficam aliviados por ver o seu filho dedicar horas às suas tarefas. Sentem que estão caminhando para boas universidades e bons empregos.

Mas serão os resultados realmente estes? Será que compensa levar para casa a pressão do desempenho escolar, muitas vezes usando um tempo valioso para passar com a família? O aprendizado realmente ocorre desta forma?

Esse é mais um mito da educação. Por mais difícil que seja aceitar isso, não há evidência de que a lição de casa seja benéfica para o aprendizado, muito menos para outros elementos listados abaixo.

A revista Parents, de novembro de 1937, dizia o seguinte:

“Se as crianças não são obrigadas a aprender coisas inúteis e sem sentido, as lições de casa são totalmente desnecessárias para aprender matérias escolares comuns. Quando a escola exige a acumulação de muitos fatos que têm pouco ou nenhum significado para as crianças, o aprendizado torna-se tão lento e doloroso que a escola é obrigada a solicitar ajuda aos lares para resolver a confusão que a escola criou”.

Edições recentes da mesma revista ensinam truques e técnicas para ajudar as crianças a se concentrarem e terminarem lições, independentemente do conteúdo. Não parando por aí, existem numerosos livros que ensinam dicas e truques para ajudar a lidar com as intermináveis horas de lição de casa. (The homework solution: getting kids to do their homework; Seven steps to homework success; Homework rules and homework tools; Ending the homework hassle; How to help your child with homework; Hassle free homework, etc.)

Isso mostra a uniformidade de opinião sobre a lição de casa, enquanto antigamente ainda havia controvérsias e debates a respeito. No entanto, embora seja prática comum no processo escolar, não existem estudos que comprovem a eficácia das lições de casa.

Harris Cooper fez grandes estudos sobre o assunto, coletando e analisando pesquisas dos últimos cinquenta anos a respeito. Ele fez uma lista dos principais efeitos da lição identificados pelos educadores. Os efeitos positivos da lição de casa seriam:

  • Melhor retenção dos fatos;
  • Melhor entendimento da matéria;
  • Melhora no pensamento crítico, formação de conceitos e processamento de informações;
  • Enriquece o currículo escolar;
  • Encoraja o aprendizado durante horas de lazer;
  • Melhora atitude perante a escola;
  • Melhora hábitos de estudo e habilidades;
  • Melhora responsabilidade e disciplina;
  • Aprimora a organização do tempo; e
  • Autonomia para resolução de problemas.

E os pontos negativos seriam:

  • Perda de interesse por materiais acadêmicos;
  • Cansaço físico e emocional;
  • Pressão para terminar as tarefas e conseguir bons resultados;
  • Confusão das técnicas e instruções necessárias;
  • Estimula copiar resultados de colegas; e
  • Aumento nas diferenças entre bons e maus estudantes.

A verdade é que estamos tão habituados a esta situação que nem sequer a questionamos. A ideia de que as crianças devem fazer alguma atividade em casa, diariamente, raramente é questionada, e mesmo quando faltam evidências de que os benefícios esperados simplesmente não existem, o medo de ir contra uma prática tão comum é tão grande que as coisas acabam por ficar como estão.

As pesquisas científicas realizadas sobre as lições de casa são frequentemente inconclusivas. Na melhor das hipóteses, mostram um resultado positivo mínimo, o que para muitos já é suficiente para endossar a prática, mesmo que existam muitos outros estudos que demonstrem os malefícios e a ineficácia da mesma prática. O tema é tão complicado e controverso que chega ao ponto que diferentes pesquisadores usam a mesma pesquisa para emitir opiniões opostas.

Já para os praticantes de homeschooling, as atividades e lições são sempre feitas em casa, por isso o cuidado deve ser redobrado. É fundamental saber dosar a quantidade e o ritmo que será adotado. É também possível ajustar a rotina para que a lição seja feita como uma revisão do conteúdo, como sugerido pelo Prof. Pier.

Para os homeschoolers, esse contato próximo com o estudante pode ser uma grande vantagem. Da mesma forma que às vezes ficamos exaustos de um longo dia de trabalho, ou simplesmente não nos sentimos bem fisicamente, as crianças podem ter dificuldades em realizar uma atividade em um determinado momento. É possível ajustar a rotina sem deixar de cumprir as metas de estudos estabelecidas.

Além disso, estudar um novo assunto em conjunto com a criança pode ser uma lição muito mais importante do que apenas a transmissão de conhecimento. Mostrar à criança como os adultos também têm dificuldade com algo e como agem para solucionar o problema é muito importante. Uma mãe que se proponha a ensinar matemática a seu filho quando ela mesma não domina o assunto gera ocasião de aprendizagem do adulto, além de servir como exemplo de como superar dificuldades no estudo.

Se ela não foi capaz de aprender quando criança, por qualquer motivo, isso agora pode ser resolvido, em conjunto com seus filhos.

“Uma das ferramentas mais úteis na busca pelo poder é o sistema educacional”. [Schlossberg, Herbert, 1993]

Os bastidores da educação também precisam ser compreendidos e avaliados. O link para o meu outro artigo está na bibliografia. Lá, além de discutir outros argumentos comuns contra o homeschooling, explico que o ensino estatal tem pouco a ver com a educação real, mas com a centralização do poder em organismos internacionais.

Antes de fugir do tema chamando-o de teoria da conspiração, que tal avaliar algumas publicações dos próprios organismos internacionais de educação? Leia as palavras do Conselho Geral de Educação da Fundação Rockefeller, em 1906, em um documento chamado “Occasional Letter Number One”:

“Em nossos sonhos… as pessoas se entregam com perfeita docilidade às nossas mãos modeladoras. As atuais convenções educacionais [de educação intelectual e moral] desaparecem. Em nossas mentes, e desimpedidos pela tradição, trabalhamos nós mesmos. Boa vontade sobre um povo grato e responsivo. Não devemos tentar fazer destas pessoas, ou de nenhum de seus filhos, filósofos, acadêmicos ou cientistas. Não temos de levantar dentre eles autores, educadores, poetas ou escritores. Não devemos procurar em embriões grandes artistas, pintores, músicos, advogados, médicos, pregadores, políticos, estadistas — dos quais já estamos amplamente abastecidos. A tarefa que colocamos diante de nós é muito simples… nós iremos organizar as crianças… e ensiná-las a fazer, de modo perfeito, as coisas que seus pais e mães estão fazendo de modo imperfeito”.

Pascal Bernardin realizou a árdua tarefa de ler milhares de páginas de atas de reuniões como estas e compilou tudo em seu livro Maquiavel Pedagogo. Entre os temas tratados, encontramos discussões sobre como reduzir a influência dos pais, avós e até mesmo vizinhos sobre a criança, sob o pretexto de deixá-la livre para formar suas próprias convicções a respeito de tudo, inclusive sobre a religião. Ensinar a própria religião aos filhos é então considerado uma afronta à sua liberdade de escolher o que quiserem depois de crescidos, ao mesmo tempo em que se nomeiam a si mesmos os mais aptos a ensinar o que considerarem apropriado.

O ensino dos próprios pais é considerado autoritário e doutrinador, enquanto o Estado é totalmente neutro e a única entidade capaz de transmitir conhecimento de forma objetiva.

Estratégias pedagógicas como o Mastery Learning, que é um conjunto de estratégias projetadas para ensinar um grupo de alunos de forma individualizada, acabam por ser muito convenientes aos objetivos descritos em Maquiavel Pedagogo. Os conceitos desenvolvidos por Carleton Washburn são aparentemente bem-intencionados, mas é necessário atenção à forma de aplicá-los.

Mastery Learning visa produzir maestria no aprendizado de estudantes. Considera que todos os alunos são igualmente capazes, bastando dar o tempo devido e adequar a forma de ensino para tal. Há um claro incentivo para aumentar o tempo de ensino sempre que algo falhar, em vez de adequar a metodologia. O objetivo, em suma, é reduzir a diferença entre estudantes de uma mesma turma.

O objetivo da instrução é, então, identificar o tempo necessário para que todos aprendam o mesmo material com o mesmo nível de competência. Isso é o oposto do que os ensinamentos clássicos fazem, que é precisamente focar nas diferentes habilidades de cada um.

A responsabilidade recai, então, mais sobre instrutor do que sobre o aluno. Os desafios, então, são aumentar o tempo de treinamento dos alunos para assegurar que atinjam o mesmo nível de aptidão. Gradualmente, o período letivo ocupou quase a totalidade dos dias do ano.

Dentro do contexto, isso é bastante conveniente. Qualquer dificuldade encontrada no aprendizado das crianças será sempre interpretada como uma necessidade de aumentar a carga horária de ensino, aumentar a quantidade de lição de casa, ou reduzir a quantidade de atividade física em favor de mais aulas de alfabetização e matemática.

A conclusão de sempre de aumentar a quantidade de conteúdo escolar fornecido a uma criança é comum, independentemente das pesquisas no campo da neuroaprendizagem. A forma como o aprendizado ocorre tem evoluído muito, e as políticas atuais não costumam levar isso em conta. No entanto, pouco se faz a esse respeito.

A escola, que inicialmente foi para ensinar a ler e escrever, acabou por assumir proporções em que o que é certo ou errado é ensinado até ao último pormenor. Em seu livro The war between the State and the Family, Patrícia Morgan conta como a influência do Estado afeta diretamente as famílias, não só através da educação, mas com inúmeros benefícios e incentivos fiscais.

O modelo escolar está cheio de falhas profundamente enraizadas nas políticas definidas pelas entidades internacionais, o que significa que nossos filhos certamente já estariam crescidos mesmo se algo fosse feito a respeito desde já. Esperar que a escola mude e se torne adequada aos nossos filhos é algo passivo demais para garantir resultados.

Há, naturalmente, exceções a tudo isso. As escolas formadas por pessoas conscientes destes problemas e cientes das evoluções científicas no domínio da educação são exceções à regra, mas existem. As escolas que tratam a educação de forma correta podem revelar-se muito superiores a outras formas de ensino, precisamente porque têm uma pluralidade de pessoas bem-intencionadas que trabalham em prol das crianças.

Programas como o “Tools of the Mind”, por exemplo, podem dar boas ideias sobre como uma boa escola pode funcionar. Há muitos outros modelos interessantes, assim como existem pedagogias antigas que formaram mentes brilhantes, bastando consultar a história para conhecê-las.

Simplesmente considerar a escola atual de seus filhos como adequada é o que se conhece como “wishful thinking”, um tipo de otimismo cego que nos traz conforto rapidamente, mas sem o cuidado adequado para considerar a realidade. Algumas pessoas acabam considerando a escola adequada por outras razões, sem nunca ter cogitado alternativas ou pensado sobre certos aspectos que apresentei aqui.

Considerando todos os pontos discorridos, optar por estudar em casa pode ser ser uma excelente alternativa, contanto que o lar seja corretamente adaptado e os pais bem preparados. No Brasil, a discussão sobre a legalidade do ensino domiciliar ainda é um tema muito controverso, o que faz com que muitas famílias tenham receio de iniciar a prática e outras até são denunciadas (muitas vezes pelos próprios familiares), mesmo quando estão fornecendo uma educação de boa qualidade aos filhos.

Muitas escolas são capazes de convencer uma família que seu método é superior e preparará seus filhos para o mundo moderno, mostrando instalações e grades curriculares sofisticadas. É sempre preciso atenção ao avaliar essas escolas. Algumas poucas realmente podem valer a pena, enquanto outras acabam prometendo algo que não conseguem cumprir.

Obter o máximo de conhecimento possível sobre isso certamente trará bons frutos, sejam vocês homeschoolers, pais ou até mesmo dirigentes de escolas. Isso o tornará capaz de identificar aspectos verdadeiramente positivos ou negativos numa escola ou mesmo adequar o ensino domiciliar ao máximo benefício de seus filhos.

Quando o que está em jogo é a educação dos nossos filhos, temos de ser ágeis. Os primeiros anos são fundamentais e quase decisivos na formação do caráter, da personalidade e mesmo das virtudes. O que é ensinado às crianças nesta idade pode perdurar pelo resto de suas vidas. Tratar certas questões educacionais com o famoso “são apenas crianças” é outra forma de wishful thinking, que possivelmente evoluirá depois para outra frase famosa: “Fiz tudo pelo meu filho! Não sei onde errei!”

Textos Mencionados:

Os Elementos da Aprendizagem
Os Bastidores do STF
Como Treinar seu Filho para ser Bem-Sucedido

BIBLIOGRAFIA

Andrade, Marcelo de Almeida — Televisão, um ‘fast-food’ envenenado para a alma
Bauer, Susan Wise — Rethinking school — How to take charge of your child’s education
Bermúdez, Jaime G. Rojas — Introdução ao psicodrama
Bernardin, Pascal — Maquiavel Pedagogo
Caplan, Bryan — The case against education — Why the education system is a waste of time and money
DeMar, Gary — Quem controla a escola governa o mundo
Deresiewicz, William — Excellent Sheep: The miseducation of the american life & the way to a meaningful life
Esolen, Anthony — Dez maneiras de destruir a imaginação do seu filho
Fortkamp, Frank E. — The case against government schools
Gatto, John Taylor — Weapons of mass instruction
Gatto, John Taylor — Dumbing us down
Gatto, John Taylor — The underground history of american education
Gatto, John Taylor — Against achool
Gray, Peter — Free to Learn
Gusdorf, Georges — Professores, para quê?
Holt, John — Aprendendo o tempo todo
Holt, John — Ensine do seu jeito
Holt, John — How children learn
Iserbyt, Charlotte Thomson — A idiotização proposital da América
Kohn, Alfie — The homework myth: Why our kids get too much of a bad thing
Kohn, Alfie — The case against standardized testing: Raising the scores, ruining the schools
Kravolec, Etta e Buel, John — The end of homework: How homework disrupts families, overburdens children, and limits learning
Lythcott-Haims, Julie — How to raise and adult
Morgan, Patricia — The war between the State and the Family
Piazzi, Pierluigi — Aprendendo inteligência
Spring, Joel — Como as corporações globais querem usar as escolas para moldar o homem para o mercado
Strain, Phillip S. — The utilization of classroom peers as behavior change agents
Vatterott, Cathy — Rethinking Grading

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.