Globalismo e Nacionalismo na Contemporaneidade: Uma análise Voegelin-Olaviana

Por Fábio Gonçalves

No período que vai 550 a.C. até 476 d.C. o mundo assistiu a ascensão e queda dos impérios persa, macedônico e romano. Esse conturbado período, travejado por essas acirradas lutas imperialistas, foi chamado pelo filósofo Eric Voegelin de a Era Ecumênica[1]. Ecúmeno (oikoumene; οἰκουμένη) significa, em termos resumidos, o mundo habitado conhecido. Essa época marcaria, portanto, no quadro da História Geral, o início das tentativas de se criar o que podemos chamar impérios globais, ou seja, nesse momento histórico inaugura-se a coletânea de tentativas de se instaurar poderes político-administrativos centralizadores com pretensões de estender seus tentáculos à toda gente conhecida do planeta. O prometeísmo humano alcançou então um novo patamar.

Ocorre, porém, que esses empreendimentos imperialistas só puderam ser bem-sucedidos na época às custas da dissolução das demais sociedades estabelecidas. Estas, forçosamente, tiveram que dar lugar ao novo poderio, pois, simplesmente, não havia meios de resisti-lo. Esses grupos humanos já há muito fincados nas suas planícies, desertos e montanhas, e com todo o seu código moral, seus símbolos religiosos, seus padrões estéticos e seu conjunto de hábitos mais triviais tiveram de ser incorporados e, de preferência, dissolvidos na nova rede de poder que assomava no horizonte. Com efeito, os antiquíssimos Impérios do Oriente Próximo – as primeiras grandes civilizações, os egípcios e os mesopotâmicos – sucumbiram ante a nova torrente dominadora. E sucumbiram também sociedades milenares menores, mas, culturalmente pujantes, como Israel e a Hélade.

Tendo isto posto, é lícito nos indagarmos qual não teria sido o efeito dessas inéditas tentativas de unificação da humanidade sob um mesmo estandarte imperial nos seres humanos participantes dessa conjuntura.

É possível, dentro das chaves de análises aqui aplicadas, distinguirmos pelo menos dois efeitos:

O primeiro diz respeito a uma ampliação da ideia geral de humanidade. Temos que ter em mente que este símbolo humanidade no sentido de uma comunidade universal humana convivendo, ainda que distantes no tempo e no espaço, um mesmo drama comum, é bastante tardio na história. A tendência até determinado momento, no seio das arcaicas tribos xamânicas, das cidades-templos e dos primeiros grandes impérios orientais era que cada povo enxergasse a si próprio como o mundo ou pelo menos como o centro de ordem em torno do qual o mundo existe. Símbolos autoexpressivos como o omphalos (umbigo do mundo) ou como o axis mundi (centro a partir do qual esse mundo entra em contado com o divino e com o mundo inferior) eram frequentemente usados, com suas variações locais, pelos membros dessas comunidades tradicionais num flagrante esforço de expressarem essa experiência primordial de sociedade-mundo[2]. Imaginava-se que fora dali, fora dos limites territoriais protegidos pelos filhos ou comissários dos deuses na Terra, o que havia era o caos, a confusão e a barbárie. Inclusive, cada cosmogonia, teogonia ou antropogonia – formas mitológicas para descrever, respectivamente, a criação do mundo, dos deuses e dos homens – dizia respeito ao processo de criação daquele mundo particular, daquela gente, dos seus antepassados etc. Daí que a ruptura daquelas sociedades particulares, com seus horizontes estreitos, e sua incorporação num império universalista, destroçou inevitavelmente aquela percepção paroquialista das coisas. O mundo antigo já não fazia mais sentido dentro dessa nova situação e os mitos norteadores já não eram mais sustentáveis. A experiência concreta obrigou uma reconfiguração dessa cosmovisão particularista e provinciana.

Eis o lado bom dessa avalanche dos impérios. E é inclusive um efeito dessa dissolução das sociedades antigas a abertura experiencial que deu azo ao surgimento de filosofias e religiões universalistas, como por exemplo o cristianismo que surge em face do particularismo israelita e o estoicismo que, com seu cosmopolitismo – somos todos cidadãos do cosmos –, marca o rompimento com a pólis concreta que Platão e Aristóteles em vão ainda sonhavam salvar[3]. Analogicamente, esse processo marcaria a vitória de uma Antígona, da peça de Sófocles, versus o rei Creonte, de um Sócrates contra a Pólis ou dos Profetas contra a Israel concreta. Todos esses duelos, reais ou fictícios, expressaram, a seu tempo e modo, a luta entre o universal e o particular, entre as possibilidades mais altas humanas e a situação concreta limitante da cidade, das leis, da sociedade espaço-temporalmente observada. Para usar termos bergsonianos, é como que se o desmoronamento das sociedades fechadas, concretamente existentes, facilitasse, a seus membros agora soltos, a abertura da alma[4]; ou, para voltar no Voegelin, é como se a situação histórica se fizesse um trampolim para o salto no ser, para uma experiência do real mais próxima da verdade – pois essa ampliação dos horizontes para além da sociedade concreta faz com que as ideias de homem, mundo, história e mesmo do divino sejam flagrantemente ampliadas e ganhem novas descrições mais adequadas, vide que com Anaximandro e Xenófanes, num dos primeiros sucessos da filosofia, que já é um empreendimento de salto para o além-pólis, as ideias de mundo e Deus tiveram que ganhar uma nova significação, flagrantemente mais universalista. Sintetiza isso que dissemos a bela passagem de São Paulo aos Gálatas:

De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados.

Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio. Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus.

Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo.

Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.

(Gálatas 3:24-28)

 

A “lei que nos serviu de aio” é aquela que constituiu a sociedade fechada de Israel, o Povo Escolhido que fez ouvidos moucos aos clamores dos profetas que tentavam fazê-los compreender que Canaã não era tudo, que era só um presságio, um símbolo no fim das contas, e que Yahweh (Javé, Jeová) era o Deus também dos estrangeiros, embora eles não O reconhecessem como tal. No trecho a seguir Voegelin sintetiza magistralmente a questão:

Quando Abrão emigrou de Ur dos caldeus, teve início o Êxodo em relação à civilização imperial. Quando Israel foi trazido do Egito por Yahweh e por Moisés, seu servo e constitui-se como o povo sob Deus [o Deus único e transcendente], o Êxodo havia alcançado a forma de uma existência teopolítica de um povo em rivalidade com a forma cosmológica. Com o movimento de Isaías e Jeremias de afastamento do Israel concreto começa a angústia do terceiro ato procriador da ordem divina na história: o Êxodo de Israel de si mesmo[5].

Doravante, Cristo vem, diz que o Evangelho deve ser pregado para as nações e morre pela humanidade. Fica então tudo às claras. A alma abre-se para compreender a irmandade universal, pois somos todos, a humanidade inteira, filhos do mesmo Deus. Nesse sentido, a dissolução das sociedades particulares é benéfica.

Contudo, temos também seus malefícios.

Primeiro do ponto de vista político: num processo muito bem descrito por Bertrand de Jouvenel, esse novo poder centralizador com pretensões ecumênicas aumenta mediante a dissolução dos poderes menores, como já aventamos. A ordem natural da formação das sociedades indica que o primeiro poder seja o da casa, o poder do pai, do pater. Essa casa, na verdade, como no caso de Abraão, é um clã, onde reúne-se toda uma gente com certo grau de parentesco, mais os servos ou escravos. Ocasionalmente, esses paters juntam-se a outros e formam organizações mais complexas cujo comando se divide entre eles: temos aí as aristocracias patriarcais, como o Senado Romano. É possível, também, num caso de guerra, como a de Tróia, que se escolha uma espécie de Agamenon, o pai das hostes, um primus inter pares que governará, naquela expedição particular, todos os paters. Temos nesse caso um principado[6].

Até aqui, porém, o poder ainda está muito perto. É palpável, é de carne e osso. O poder está ali materializado naquele basileu, naquele patriarca, naquele nobre. Daí que quem ambicione dominar tudo, inevitavelmente, terá que eliminar esse poder local, essa aristocracia da terra.

Tendo êxito o processo de esfarelamento da influência direta desses patriarcas, em pouco tempo o poder se transforma em algo informe, invisível e inalcançável ao populacho. O indivíduo fica, por conseguinte, inerte diante dessa força onipotente que o abrange e o abarca como um demiurgo que ele não pode ver, não pode tocar, mas que sente pelo constrangedor poder de mando. Agora, não tem muitos meios de fugir de seus imperativos e nem de reivindicar sua causa na praça pública. E mais: corre-se o risco de que as tradições imemoriais que se sustentavam em torno daquele pai da terra se diluam ante as exigências de um novo poder que, não raro, é estrangeiro e pouco simpáticos àquilo que lhe pode servir como força rival.

O segundo malefício, corolário do primeiro, diz respeito ao aspecto espiritual decorrente dessa dissolução da sociedade tradicional. Essa abruta ruptura da cosmovisão, se por um lado pode ocasionar aquele arejamento à alma, pode, do mesmo modo, gerar um estado de desordem psíquica, de desalento com a ordem do mundo. Sente-se um vazio existencial bastante profundo, pois nem todos são profetas, filósofos, apóstolos ou sequer tem a fibra moral para perceber a ordem divina do mundo independentemente da ordem política concreta que os circundavam. Tudo o que até ali era tido como a verdade mais patente, a própria ordem do real aos olhos da maioria, se estilhaça sob os pés do impiedoso poderio novo. Para muitos isso é, realmente, o fim do mundo.

Dá-se ainda que esse vazio, decorrente do abandono da ordem estabelecida, não é facilmente preenchido, desde cima, pelo novo poder imperial – quando Otávio assume o poder em Roma, sentindo já em sua época a grande crise moral que pressagiava o fim do império alguns séculos mais tarde, baixou uma série de leis moralistas e de cunho tradicionalista para tentar corrigir a situação, mas não obteve êxito. O Ecúmeno, por conseguinte, vira um gigante sem substância, um robusto e grande corpo político- administrativo sem alma, pois as almas das sociedades particulares que poderiam lhe preencher esse oco foram ou sufocadas pela situação pragmática ou mandadas de vez para o Hades da História. E as novas filosofias e religiões universalistas, que poderiam ser o sucedâneo, não são unanimidades ante a multidão angustiada que acabara de assistir seu cosmos sendo destruído[7].

Resumindo, as consequências são:

A boa: abertura da alma à realidade do ser;

As ruins: 1) a dissolução das sociedades concretas, com sua ordem política, tradições, costumes, línguas e, sobretudo, com sua cosmovisão; 2) a desordem espiritual daqueles que não conseguiram abrir suas almas à realidade do ser após a debacle de suas sociedades tradicionais.

Se lançarmos agora o foco para a história do Ocidente, teremos que depois de frustrados esses primeiros planos universalistas, sobremaneira após o declínio de Roma, a situação voltou a um estado mais ou menos normal. A Europa Cristã, sob o símbolo agostiniano das Duas Cidades, conseguiu resolver o problema de um representante espiritual para toda a humanidade (a Igreja, a Sé apostólica e o Papado romano) e de um representante político secular com poderes relativos (os reis e príncipes medievais)[8].

A Cristandade, segundo Christopher Dawson, se constituiu com bastante liberdade. Não havia uma pretensão de uniformidade política e nem cultural que estrangulasse todos os costumes dos povos que entravam na órbita cristã – a não ser, claro, se o costume fosse uma imoralidade completa[9]. Assim, vai se desenvolver um cristianismo saxão, um gálico, outro ibério e assim por diante, cada qual mesclando o novo credo com aspectos das tradições locais do povo recém convertido. Nem mesmo o Sacro-Império instituído em 800 a.C. por Carlos Magno pode ser posto na mesma categoria do Império Romano, já que, apesar de nele se inspirar, os fins eram bem divergentes. O Império Carolíngio representava a união da cristandade sob um imperador que não pretendia ser o senhor do mundo inteiro e, ademais, surgiu mais como um projeto defensivo em função de um sem número de ameaças externas que assombravam a Europa do que como um projeto de pretensões expansionistas-ecumênicas. E mesmo internamente, na Europa de Carlos, cada localidade ainda tinha seus reis, suas aristocracias, seu clero. Sem contar a falta de meios materiais para exercer uma tirania de pulsos firmes em todos os cantos do Velho Continente recém-saído da anarquia pós-Roma. O poder do imperador, portanto, era bastante relativo, tanto por conta dessa ordem política local e a falta de meios para exercer um poder de mando ferrenho em todo seu território quanto pelo poder espiritual centrado no papado que, a bem da verdade, era o que realmente importava[10].

Depois disso, novas empreitadas de tipo ecumênico surgem apenas na modernidade, na esteira das Grandes Navegações. Ali, no apagar das luzes do medievo, os símbolos unificantes da cristandade (Sacro-Império e Papado) perderam sua relevância no cenário internacional. Surgem, doravante, os estados-nacionais. Estes, por um lado, trazem de volta à história aquele paroquialismo típico da pólis gregas, de Israel, do Egito e da Índia. Cada estado se auto interpreta como um Corpo Místico de Cristo, com o rei sendo a cabeça do corpo: eis a gênese do absolutismo, do Ancient Régime. Por outro lado, como o filósofo Olavo de Carvalho explica no seu O Jardim das Aflições[11], cada estado assim concebido achava por bem ser o Evangelista Mundial, o conversor do mundo, aquele que iria estender, à caravela, a fé cristã e a espada imperial. Camões, acerca dos lusitanos, não me deixa mentir:

E também as memórias gloriosas

Daqueles Reis que foram dilatando

A Fé, o Império e as terras viciosas

De África e de Ásia andaram devastando,

E aqueles que por obras valerosas

Se vão da lei da Morte libertando:

Cantando espalharei por toda a parte,

Se a tanto me permitir o engenho e a arte[12].

Da lá para cá o sonho ecumenista continuou vivíssimo. O que entendemos, na contemporaneidade, por Globalismo, é uma reedição, muitíssimo mais sofisticada e abrangente, dos mesmos intentos de um Ciro II, Alexandre Magno, Júlio César, Carlos V e Napoleão Bonaparte: o sonho de um governo mundial. No famoso debate com o conselheiro de Putin e ideólogo do euranianismo, Aleksandr Dugin, Olavo de Carvalho fala que nos nossos dias temos em vigor três grandes projetos globalistas[13]. São eles:

  1. O projeto russo-chinês, herança longínqua do imperialismo milenar chinês e do simbolismo da Terceira Roma que era atribuído à Rússia e sua Igreja Ortodoxa. Esses dois imperialismos latentes transmutaram-se no plano global comunista, que é em essência um plano de governo mundial.
  2. O projeto islâmico. O islã é par excellance uma religião expansionista, mas, ao contrário do cristianismo, que também o é, a religião de Maomé é eminentemente política. Nos próprios textos sacros do islã – Corão e Haddits – há como que um código civil, um corpo de regras de condutas pessoais e sociais formalizadas. Ademais, a instituição do Califado, um governo islâmico universal organizado sob os preceitos da xaria, é como que uma obrigação a ser cumprida mais cedo ou mais tarde pelos fiéis.
  3. O projeto ocidental. Esse é de longe o mais bem-sucedido. Esse globalismo ocidental deriva mais imediatamente das concepções kantiano-iluministas de Paz Mundial Perpétua. Crê-se na instauração de uma administração civil racionalista supra-religiosa e supra-estatal que, à base das livres trocas – livres pero no mucho –, do incremento da economia de mercado em tudo que é parte, do desenvolvimento tecnológico-científico e da disseminação global de um constitucionalismo republicano laico que, como desejado por Hans Kelsen, por exemplo, fique submetido às normas do Direito Internacional, enfim, que na base da soma de tudo isso se elimine os conflitos entre os povos e instaure como que um Paraíso Terrestre a ser preservado pelos brâmanes do Banco Mundial e da Open Society Foundation pelos séculos dos séculos.

Fica patente que, embora o fim último desses projetos seja comum – o mundo ecumênico –, há grande diferença quanto a forma de sociedade que cada um deles vislumbra. Porém, malgrado essas diferenças acidentais nos fins, com relação aos meios empregados em vista deles, todos convergem: devem dar cabo às tradições culturais e aos poderes políticos locais. Daí vê-se uma herança secular advinda daqueles pioneiros planos universalistas. E é assim, como vimos, por força da lógica. Enfim, é sanha comum de qualquer tirano com ambições mundialistas tirar do seu caminho qualquer entrave que lhe possa fazer face e, sem dúvidas, a religião e os poderes locais baseados nas tradições são incômodas pedras nos seus sapatos.

Refaço, então, a pergunta doo início: quais são os efeitos disso na vida das pessoas que estão no meio desse tiroteio histórico de proporções cósmicas?

Aqui uma novidade: hoje não há mais aquele bom efeito de outrora, aquela abertura da alma para o real. Pelo contrário, a modernidade, de que os globalismos modernos são frutos, tem por base uma patente negação da realidade do ser. Voegelin fala de uma revolta egofânica como marca do mundo pós-medieval e isso quer dizer que o homem ocidental – ou pelo menos sua casta intelectual – virou as costas para Deus, tratou de negá-lo por todos os meios e, então, e voltou-se a si mesmo; trocou o Amor dei pelo Amor sui[14]. Daí que, não podendo mais conceber o Deus transcendente cristão como o fundamento do real, os homens se lancem na busca louca por um substituto ontológico a Ele, substituto este que sempre será alguma coisa do mundo imanente. Excetuando o islã, os outros dois projetos globalistas são derivações desse achatamento ontológico: o fundamento do real, para o comunista, ao invés de Deus, é a história e as classes em perpétuo litígio; para o globalista ocidental é a razão humana e sua capacidade de engendrar o progresso material.

Portanto, não há nenhuma benesse substancial. Destruídas as culturas tradicionais de hoje, o que haverá do lado de fora, pelo menos aqui no Ocidente moderno, não será o real a ser explorado como antes por meio de símbolos religiosos e filosóficos desvendados por seres humanos empenhados numa intermitente e sincera busca pela verdade, mas, sim, a limitadíssima cabeça de um ideólogo, daquele lunático da anedota chestertoniana, que estará disposto a nos encerrar no seu mundo de fantasia psicótica.

Agora, se fizermos com relação aos efeitos ruins um paralelo desse ciclo globalista com aquele que iniciou no século VI a.C., teremos o seguinte quadro:

Do ponto de vista político, temos a paulatina dissolução da ideia de nação dando lugar aos órgãos supranacionais que versam sobre economia, educação, segurança, saúde e toda sorte de assuntos tipicamente discutidos na ágora. Nesse cenário, cada vez mais a vida do cidadão comum vai sendo moldada por imperativos vindos de sabe-se lá onde, e a tal democracia, o poder do demos, do povo, vai para o beleléu. O cidadão só fica sabendo: “a UNESCO disse tal coisa, a OMS disse tal outra, a ONU chancelou tal medida” e assim por diante. Nunca se sabe quem decretou isso ou aquilo, nem quais grupos eram os partidários da discussão ou sequer se houve alguma discussão. O sujeito percebe que pouco ou nada vale o vereador, o prefeito, o deputado e o governante de sua terra. Tudo, desse modo, começa a escapar das mãos dos Estados e desembocar nas mesas dos burocratas invisíveis da ONU que, não raro, agem de acordo com o interesse daqueles que Olavo de Carvalho chama de metacapitalistas[15] – as grandes fortunas mundiais que de tão ricas já nem participam da roda da fortuna do mercado normal e, por isso, atingiram um novo patamar de atuação –, os fiadores da desordem geral em prol daquela pretensa Paz Perpétua a ser estabelecida e gerida por eles mesmos.

Essa relativização gradativa dos poderes nacionais em face de forças políticas internacionais ou supranacionais segue aquele passo comum rumo aos intentos globalistas. E na nossa era esse processo tem tido muito mais êxito que em qualquer outra. Como diz Jouvenel, com muita razão, uma marca patente da modernidade é a crescente ampliação do Poder[16]. Um tirano, hoje, tem recursos jamais imaginados para expandir suas teias, coisas que nem o mais ambicioso dos imperadores pretéritos, nem um Gengis Khan, poderia conceber. Os seres humanos agora podem ser rastreados, ter suas ligações e e-mails grampeados, sua conta bancária vasculhada, seus hábitos mais triviais condicionados por imperativos vindos incessantemente da mídia de massa, ter suas inteligências obliteradas por planos educacionais obrigatórios estatuídos pelos governantes etc. Que dizer, além da vontade de dissolução dos poderes locais, hoje, há meios materiais mais eficazes jamais existentes para substituir o governo visível da terra por forças fantasmagórica vindas do além-mundo de Genebra, do escritório de uma grande fundação ou da imaginação de um Zuckerberg.

Contudo, muito mais grave que essa situação no plano político são os efeitos psicológicos e mesmo espirituais desse novo rolo compressor globalista. Para compreendermos melhor esse tópico, cabe salientar que é fruto daquele primeiro impulso ecumênico, daquelas almas que não puderam abrir-se devidamente ao real, um pulular estonteante de doutrinas gnósticas.

À propósito do fenômeno do gnosticismo, os trechos a seguir, retirados da obra

Ciência, Política e Gnosticismo de Voegelin, lançarão boa luz à questão:

“Para as civilizações cosmológicas da Mesopotâmia, [17]Síria e Egito, bem como para os povos do Mediterrâneo, o século VI a.c. inaugura a era dos impérios ecumênicos (impérios que visavam reunir todo o mundo habitado conhecido num único Estado político). O Império Persa foi seguidamente conquistado por Alexandre, pelo Império Selêucida, depois pela expansão do Império Romano e a criação do Império Sassânida. O colapso dos antigos Impérios do Oriente, a perda de independência de Israel, das cidades- estados da Grécia e da Fenícia, a mudança populacional, as deportações e aprisionamentos e a interpenetração de culturas, reduziu os homens, que (naturalmente) não tinham controle exato acerca dos processos históricos, a um estado extremo de desolamento no tumulto do mundo, um estado de desorientação intelectual, de insegurança tanto material quanto espiritual. A perda de sentido existencial que resultou da queda das instituições, civilizações e coesões étnicas inteiras evocou tentativas de reconquistar o entendimento do significado da existência humana na presente situação do mundo. Dentre esses esforços, que variam amplamente na profundidade das visões e na verdade que lhes subjaz, emergiram: a reinterpretação estoica do homem (para quem a polis tinha perdido o significado) como o cidadão do cosmos; a visão polibiana (de Políbio) de um ecumenismo pragmático destinado a ser criado por Roma; as religiões misteriosas; o culto de escravos heliopolitanos; o apocalipse Hebreu; o cristianismo e o maniqueísmo. E é nesta sequência, como uma das mais relevantes dentre essas novas formulações de significado da existência, que surge o gnosticismo”[18].

            E continua:

Da profusão de experiências e vastas expressões simbólicas gnósticas, algo pode ser discernido como o elemento central: a experiência do mundo como um lugar alheio – alienado – a nós, dentro do qual o homem foi lançado e desde o qual precisa encontrar o caminho de retorno para o seu lugar de origem”[19].

Ora, nos limites do nosso ocidente moderno vivente sob os ataques globalistas, o resultado psicológico é o mesmo: as almas, sem o amparo das tradições escoradas nas religiões e filosofias antigas, estão doentes, perdidas, deprimindo-se, querendo fugir do mundo, não crendo mais numa justa ordem divina, na antiga Dike grega que porá as coisas no lugar. Na mesma esteira temos o diagnóstico de Viktor Frankl. Diz ele:

“O vazio existencial, que é a neurose em massa da atualidade, pode ser descrito como forma privada de niilismo; o niilismo, por sua vez, pode ser definido como a posição que diz não ter sentido o ser”.[20]

            E num dos trechos mais importantes de sua obra, continua:

[…] “No início da história o ser humano foi perdendo alguns dos instintos animais básicos que regular o comportamento animal e asseguram sua existência. Tal segurança, assim como o paraíso, está cerrada ao ser humano para todo o sempre. […]. Acresce-se a isso que o ser humano sofreu mais uma perda em seu desenvolvimento mais recente. Aas tradições que serviam de apoio para su comportamento, atualmente vêm diminuindo com grande rapidez. Nenhum instinto lhe diz o que deve fazer e não há tradição que lhe diga o que deveria fazer. Em vez disso, ele deseja fazer o que os outros fazem (conformismo), ou ele faz o que outras pessoas querem que ele faça (totalitarismo) ”.[21]

Para o psiquiatra austríaco, essa nossa doença de massa que é o vazio existencial, a falta de sentido para a vida, é uma neurose noogênica, ou seja, uma neurose cujas raízes vamos encontrar na alma, não no corpo. Essa nossa doença espiritual deriva, evidentemente, do abandono das tradições. Pois acontece que o homem, diferente das outras feras, não vem do ventre materno com um manual de instruções para a vida, ou melhor, para a vida excelente, para a eudaimonia[22]. O animal irracional sabe o que fazer, desde logo cedo, para ser o melhor possível, pois os instintos já lhes ditam o roteiro; o homem, porém, precisa ser educado e educado no sentido da Paideia grega, uma educação integral para a plenitude corporal e espiritual e os pressupostos dessa educação derivam da tradição cultural. Não tem outro jeito, não há pedagogo mandraque que substitua milênios de mitologias, épicos, filosofias e religiões ou que possam fazer frente ao legado de um Homero, Lao-Tsé, Buda, Sócrates e Cristo[23].

Temos, portanto, que esse estado de aculturamento seguido da desordem espiritual é não só benquisto como acelerado, incentivado e mesmo patrocinado pelos agentes globalistas – vide a fortuna que as grandes fundações internacionais como a Open Society, a Ford Foundations, os Rockfellers e tutti quanti despejam na conta de grupos revolucionários pelos quatro cantos do mundo. O objetivo é despregar as pessoas de quaisquer raízes fincadas no solo seguro das tradições com o fito de torna-las presas fáceis a qualquer engodo propagandeado pelas políticas revolucionárias do dia; querem atomizar os indivíduos, desgarrando-lhes de qualquer espírito comum entre os seus, desfazendo qualquer laço que constitua uma verdadeira homonoia, dando-lhes em troca a esperança de uma fictícia irmandade universal futura – que, se é possível como comunhão espiritual, na medida da substância comum que nos torna homens num mesmo drama histórico, independente dos acidentes e particularidades locais, é impossível do ponto de vista da uniformidade política, justamente por causa da indissolubilidade dos acidentes e particularidades.

É esse o nosso contexto atual. Vivemos nessa guerra intermitente que se perfaz entre os Titãs globalistas e as tradições locais que se debatem a todo custo para heroicamente sobreviverem nesse cataclismo. É esse o cenário que explica o Brexit, o estabelecimento de movimentos populares e do partido Prawo i Sprawiedliwość, PiS (ou Lei e Ordem) na Polônia e o surgimento de outros grupos de viés nacionalista na Europa – mais flagrantemente: o Partido Popular Suíço, o Fidesz húngaro liderado pelo premier Viktor Orban e da Liga Norte italiana do ministro Matteo Salvini; explica também a vitória de Donald Trump nos EUA (com a importante atuação do entusiasta nacionalista-tradicionalista Steve Bannon) e a guinada à direita das américas do sul e central – com Macri na Argentina, Piñero no Chile, Cartes no Paraguai, Kuczynski no Peru, Santos na Colômbia e com Hernández em Honduras.

Aqui reside, por fim, a importância do fenômeno Bolsonaro no Brasil. O recém-eleito e sua potente base de apoio – o povo, o cidadão comum, aquela “maioria invisível” que colocou Trump na Casa Branca – encarnam esse zeitgeist anti-globalista que tem feito coro mundo ocidental afora. Bolsonaro representa, ainda que, talvez, sem a plena consciência, essa tendência da época e seu slogan de campanha é altamente significativo como símbolo expressivo desse nosso momento político-mundial: Brasil acima de tudo (apelo ao patriotismo, à independência e autonomia das forças políticas locais face aos interesses internacionais) e Deus acima de todos (resgate do símbolo cristão-medieval, ou mesmo judaico, segundo o qual Deus é o comandante da nação na medida que as leis dos homens, os príncipes e o século, estejam submetidos às leis divinas; quer dizer, é um forte resgate, ou pelo menos um indício, da tradição espiritual do ocidente).

[1] VOEGELIN, Eric. Ordem e História: A Era Ecumênica. São Paulo: Edições Loyola, 2010.

[2] Para um estudo desses símbolos tradicionais ver: ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.

[3] Para detalhes dessa transição ver: VOEGELIN, Eric. Helenismo, Roma e Cristianismo Primitivo. História das Ideias Políticas, vol. 1. São Paulo: É Realizações, 2012.

[4] BERGSON, Henri. As Duas Fontes da Moral e da Religião. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

[5] VOEGELIN, Eric. Ordem e História: Israel e a Revelação. São Paulo: Edições Loyola, 2014. pp. 545.

[6] JOUVENEL, Bertrand. O Poder: história natural de seu crescimento. São Paulo: Editora Peixoto Neto, 2010.

[7] Para esse exemplo de crise no Império Romano ver: DURANT, Will. César e Cristo. Rio de Janeiro: Editora Record, 1971. GRIMAL, Pierre. História de Roma. Lisboa: Texto & Grafia, 2008.

[8] SANTO AGOSTINHO. A Cidade de Deus. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1996.

[9] DAWSON, Christopher. Religion and the Rise of Western Culture. London: Sheed & Ward, 1950.

[10] Para essa situação de relativo poder do Império Carolíngio ver: DURANT, Will. A Idade da Fé. Rio de Janeiro: Editora Record, 1950.

[11] CARVALHO, Olavo de. O Jardim das Aflições. Campinas: Vide Editorial, 2015.

[12] CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2013

[13] Para a teoria dos três projetos globalista ver: CARVALHO, Olavo de; DUGIN, Alexandre. OS EUA e a Nova Ordem Mundial: Um Debate Entre Olavo de Carvalho e Alexandre Dugin. Campinas: Vide Editorial, 2012

[14] Para esse tema voegeliniano ver: VOEGELIN, Eric. Reflexões Autobiográficas. São Paulo: É Realizações, 2007. VOEGELIN, Eric. Science, Politics and Gnosticism. Washington: Regnery Publishing, 1997. VOEGELIN, Eric. The Drama of Humanity and Other Miscellaneous Papers. Columbia: University of Missouri Press, 2004.

[15] CARVALHO, Olavo de. História de Quinze Séculos. In: http://www.olavodecarvalho.org/historia-de-quinze-seculos/

[16] Op. Cit.

[17] Para um estudo sobre o gnosticismo no sentido que Eric Voegelin adota ver: VOEGELIN, Eric. Reflexões Autobiográficas. São Paulo: É Realizações, 2007.VOEGELIN, Eric. A Nova Ciência da Política. Brasília: Editora UnB, 1982. VOEGELIN, Eric. Science, Politics and Gnosticism. Washington: Regnery Publishing, 1997. VOEGELIN, Eric. Los Movimientos Gnosticos de Massas como Sucedanoes de las Religiones. Madrid: Ediciones Rialp, 1966. VOEGELIN, Eric. Gnostic Politics. Louisiana: Louisiana State University Press, 1995. VOEGELIN, Eric. History and Gnosis. Louisiana: Louisiana State University Press, 1995. Um estudo sobre as raízes do gnosticismo antigo pode ser visto em: JONAS, Hans. The Gnostic Religion. Boston: Beacon Press, 2005.

[18] VOEGELIN, Eric. Science, Politics and Gnosticism. Washington: Regnery Publishing, 1997.

[19] Ibid.

[20] FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido. Petrópolis: Vozes, 2015.

[21] Ibid.

[22] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Edipro, 2014.

[23] Ver: LEWIS. C. S. A Abolição do Homem. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.

 

1 comentário em “Globalismo e Nacionalismo na Contemporaneidade: Uma análise Voegelin-Olaviana”

  1. Muito boa e lúcida a análise! Obrigado!!
    No entanto, a conclusão parece-me um pouco precipitada/apressada. Por exemplo, os “mercados” reagiram positivamente à perspectiva de eleição de Bolsonaro, o que contraria um pouco a posição dos novos protagonistas do poder-capital. Além disso fica-me a questão sobre a verdadeira intenção destes novos “populismos”: será genuína, ou seja, verdadeiramente representativa desse vazio? Ou será oportunismo e manipulação por parte dos mesmos “tiranos” ou de outros pretendentes à mesma tirania? Isto sem prejuízo de ser sintoma real e, talvez, confirmação da muito lúcida análise feita.

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Globalismo e Nacionalismo na Contemporaneidade: Uma Análise Voegelin-Olaviana

Por Fabio Gonçalves

No período que vai 550 a.C. até 476 d.C. o mundo assistiu a ascensão e queda dos impérios persa, macedônico e romano. Esse conturbado período, travejado por essas acirradas lutas imperialistas, foi chamado pelo filósofo Eric Voegelin de a Era Ecumênica [1]. Ecúmeno (oikoumene; οἰκουμένη) significa, em termos resumidos, o mundo habitado conhecido. Essa época marcaria, portanto, no quadro da História Geral, o início das tentativas de se criar o que podemos chamar impérios globais, ou seja, nesse momento histórico inaugura-se a coletânea de tentativas de se instaurar poderes político-administrativos centralizadores com pretensões de estender seus tentáculos à toda gente conhecida do planeta. O prometeísmo humano alcançou então um novo patamar.

Ocorre, porém, que esses empreendimentos imperialistas só puderam ser bem-sucedidos na época às custas da dissolução das demais sociedades estabelecidas. Estas, forçosamente, tiveram que dar lugar ao novo poderio, pois, simplesmente, não havia meios de resisti-lo. Esses grupos humanos já há muito fincados nas suas planícies, desertos e montanhas, e com todo o seu código moral, seus símbolos religiosos, seus padrões estéticos e seu conjunto de hábitos mais triviais tiveram de ser incorporados e, de preferência, dissolvidos na nova rede de poder que assomava no horizonte. Com efeito, os antiquíssimos Impérios do Oriente Próximo – as primeiras grandes civilizações, os egípcios e os mesopotâmicos – sucumbiram ante a nova torrente dominadora. E sucumbiram também sociedades milenares menores, mas, culturalmente pujantes, como Israel e a Hélade.

Tendo isto posto, é lícito nos indagarmos qual não teria sido o efeito dessas inéditas tentativas de unificação da humanidade sob um mesmo estandarte imperial nos seres humanos participantes dessa conjuntura.

É possível, dentro das chaves de análises aqui aplicadas, distinguirmos pelo menos dois efeitos:

O primeiro diz respeito a uma ampliação da ideia geral de humanidade. Temos que ter em mente que este símbolo humanidade no sentido de uma comunidade universal humana convivendo, ainda que distantes no tempo e no espaço, um mesmo drama comum, é bastante tardio na história. A tendência até determinado momento, no seio das arcaicas tribos xamânicas, das cidades-templos e dos primeiros grandes impérios orientais era que cada povo enxergasse a si próprio como o mundo ou pelo menos como o centro de ordem em torno do qual o mundo existe. Símbolos autoexpressivos como o omphalos (umbigo do mundo) ou como o axis mundi (centro a partir do qual esse mundo entra em contado com o divino e com o mundo inferior) eram frequentemente usados, com suas variações locais, pelos membros dessas comunidades tradicionais num flagrante esforço de expressarem essa experiência primordial de sociedade-mundo [2]. Imaginava-se que fora dali, fora dos limites territoriais protegidos pelos filhos ou comissários dos deuses na Terra, o que havia era o caos, a confusão e a barbárie. Inclusive, cada cosmogonia, teogonia ou antropogonia – formas mitológicas para descrever, respectivamente, a criação do mundo, dos deuses e dos homens – dizia respeito ao processo de criação daquele mundo particular, daquela gente, dos seus antepassados etc. Daí que a ruptura daquelas sociedades particulares, com seus horizontes estreitos, e sua incorporação num império universalista, destroçou inevitavelmente aquela percepção paroquialista das coisas. O mundo antigo já não fazia mais sentido dentro dessa nova situação e os mitos norteadores já não eram mais sustentáveis. A experiência concreta obrigou uma reconfiguração dessa cosmovisão particularista e provinciana.

Eis o lado bom dessa avalanche dos impérios. E é inclusive um efeito dessa dissolução das sociedades antigas a abertura experiencial que deu azo ao surgimento de filosofias e religiões universalistas, como por exemplo o cristianismo que surge em face do particularismo israelita e o estoicismo que, com seu cosmopolitismo – somos todos cidadãos do cosmos –, marca o rompimento com a pólis concreta que Platão e Aristóteles em vão ainda sonhavam salvar [3]. Analogicamente, esse processo marcaria a vitória de uma Antígona, da peça de Sófocles, versus o rei Creonte, de um Sócrates contra a Pólis ou dos Profetas contra a Israel concreta. Todos esses duelos, reais ou fictícios, expressaram, a seu tempo e modo, a luta entre o universal e o particular, entre as possibilidades mais altas humanas e a situação concreta limitante da cidade, das leis, da sociedade espaço-temporalmente observada. Para usar termos bergsonianos, é como que se o desmoronamento das sociedades fechadas, concretamente existentes, facilitasse, a seus membros agora soltos, a abertura da alma [4]; ou, para voltar no Voegelin, é como se a situação histórica se fizesse um trampolim para o salto no ser, para uma experiência do real mais próxima da verdade – pois essa ampliação dos horizontes para além da sociedade concreta faz com que as ideias de homem, mundo, história e mesmo do divino sejam flagrantemente ampliadas e ganhem novas descrições mais adequadas, vide que com Anaximandro e Xenófanes, num dos primeiros sucessos da filosofia, que já é um empreendimento de salto para o além-pólis, as ideias de mundo e Deus tiveram que ganhar uma nova significação, flagrantemente mais universalista. Sintetiza isso que dissemos a bela passagem de São Paulo aos Gálatas:

De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados.
Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio. Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus.
Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo.
Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.
(Gálatas 3:24-28)

A “lei que nos serviu de aio” é aquela que constituiu a sociedade fechada de Israel, o Povo Escolhido que fez ouvidos moucos aos clamores dos profetas que tentavam fazê-los compreender que Canaã não era tudo, que era só um presságio, um símbolo no fim das contas, e que Yahweh (Javé, Jeová) era o Deus também dos estrangeiros, embora eles não O reconhecessem como tal. No trecho a seguir Voegelin sintetiza magistralmente a questão:

Quando Abrão emigrou de Ur dos caldeus, teve início o Êxodo em relação à civilização imperial. Quando Israel foi trazido do Egito por Yahweh e por Moisés, seu servo e constitui-se como o povo sob Deus [o Deus único e transcendente], o Êxodo havia alcançado a forma de uma existência teopolítica de um povo em rivalidade com a forma cosmológica. Com o movimento de Isaías e Jeremias de afastamento do Israel concreto começa a angústia do terceiro ato procriador da ordem divina na história: o Êxodo de Israel de si mesmo [5].

Doravante, Cristo vem, diz que o Evangelho deve ser pregado para as nações e morre pela humanidade. Fica então tudo às claras. A alma abre-se para compreender a irmandade universal, pois somos todos, a humanidade inteira, filhos do mesmo Deus. Nesse sentido, a dissolução das sociedades particulares é benéfica.

Contudo, temos também seus malefícios.

Primeiro do ponto de vista político: num processo muito bem descrito por Bertrand Jouvenel, esse novo poder centralizador com pretensões ecumênicas aumenta mediante a dissolução dos poderes menores, como já aventamos. A ordem natural da formação das sociedades indica que o primeiro poder seja o da casa, o poder do pai, do pater. Essa casa, na verdade, como no caso de Abraão, é um clã, onde reúne-se toda uma gente com certo grau de parentesco, mais os servos ou escravos. Ocasionalmente, esses paters juntam-se a outros e formam organizações mais complexas cujo comando se divide entre eles: temos aí as aristocracias patriarcais, como o Senado Romano. É possível, também, num caso de guerra, como a de Tróia, que se escolha uma espécie de Agamenon, o pai das hostes, um primus inter pares que governará, naquela expedição particular, todos os paters. Temos nesse caso um principado [6].

Até aqui, porém, o poder ainda está muito perto. É palpável, é de carne e osso. O poder está ali materializado naquele basileu, naquele patriarca, naquele nobre. Daí que quem ambicione dominar tudo, inevitavelmente, terá que eliminar esse poder local, essa aristocracia da terra.

Tendo êxito o processo de esfarelamento da influência direta desses patriarcas, em pouco tempo o poder se transforma em algo informe, invisível e inalcançável ao populacho. O indivíduo fica, por conseguinte, inerte diante dessa força onipotente que o abrange e o abarca como um demiurgo que ele não pode ver, não pode tocar, mas que sente pelo constrangedor poder de mando. Agora, não tem muitos meios de fugir de seus imperativos e nem de reivindicar sua causa na praça pública. E mais: corre-se o risco de que as tradições imemoriais que se sustentavam em torno daquele pai da terra se diluam ante as exigências de um novo poder que, não raro, é estrangeiro e pouco simpáticos àquilo que lhe pode servir como força rival.

O segundo malefício, corolário do primeiro, diz respeito ao aspecto espiritual decorrente dessa dissolução da sociedade tradicional. Essa abruta ruptura da cosmovisão, se por um lado pode ocasionar aquele arejamento à alma, pode, do mesmo modo, gerar um estado de desordem psíquica, de desalento com a ordem do mundo. Sente-se um vazio existencial bastante profundo, pois nem todos são profetas, filósofos, apóstolos ou sequer tem a fibra moral para perceber a ordem divina do mundo independentemente da ordem política concreta que os circundavam. Tudo o que até ali era tido como a verdade mais patente, a própria ordem do real aos olhos da maioria, se estilhaça sob os pés do impiedoso poderio novo. Para muitos isso é, realmente, o fim do mundo.

Dá-se ainda que esse vazio, decorrente do abandono da ordem estabelecida, não é facilmente preenchido, desde cima, pelo novo poder imperial – quando Otávio assume o poder em Roma, sentindo já em sua época a grande crise moral que pressagiava o fim do império alguns séculos mais tarde, baixou uma série de leis moralistas e de cunho tradicionalista para tentar corrigir a situação, mas não obteve êxito. O Ecúmeno, por conseguinte, vira um gigante sem substância, um robusto e grande corpo político- administrativo sem alma, pois as almas das sociedades particulares que poderiam lhe preencher esse oco foram ou sufocadas pela situação pragmática ou mandadas de vez para o Hades da História. E as novas filosofias e religiões universalistas, que poderiam ser o sucedâneo, não são unanimidades ante a multidão angustiada que acabara de assistir seu cosmos sendo destruído [7].

Resumindo, as consequências são:

A boa: abertura da alma à realidade do ser;

As ruins: 1) a dissolução das sociedades concretas, com sua ordem política, tradições, costumes, línguas e, sobretudo, com sua cosmovisão; 2) a desordem espiritual daqueles que não conseguiram abrir suas almas à realidade do ser após a debacle de suas sociedades tradicionais.

***

Se lançarmos agora o foco para a história do Ocidente, teremos que depois de frustrados esses primeiros planos universalistas, sobremaneira após o declínio de Roma, a situação voltou a um estado mais ou menos normal. A Europa Cristã, sob o símbolo agostiniano das Duas Cidades, conseguiu resolver o problema de um representante espiritual para toda a humanidade (a Igreja, a Sé apostólica e o Papado romano) e de um representante político secular com poderes relativos (os reis e príncipes medievais) [8].

A Cristandade, segundo Christopher Dawson, se constituiu com bastante liberdade. Não havia uma pretensão de uniformidade política e nem cultural que estrangulasse todos os costumes dos povos que entravam na órbita cristã – a não ser, claro, se o costume fosse uma imoralidade completa [9]. Assim, vai se desenvolver um cristianismo saxão, um gálico, outro ibério e assim por diante, cada qual mesclando o novo credo com aspectos das tradições locais do povo recém convertido. Nem mesmo o Sacro-Império instituído em 800 a.C. por Carlos Magno pode ser posto na mesma categoria do Império Romano, já que, apesar de nele se inspirar, os fins eram bem divergentes. O Império Carolíngio representava a união da cristandade sob um imperador que não pretendia ser o senhor do mundo inteiro e, ademais, surgiu mais como um projeto defensivo em função de um sem número de ameaças externas que assombravam a Europa do que como um projeto de pretensões expansionistas-ecumênicas. E mesmo internamente, na Europa de Carlos, cada localidade ainda tinha seus reis, suas aristocracias, seu clero. Sem contar a falta de meios materiais para exercer uma tirania de pulsos firmes em todos os cantos do Velho Continente recém-saído da anarquia pós-Roma. O poder do imperador, portanto, era bastante relativo, tanto por conta dessa ordem política local e a falta de meios para exercer um poder de mando ferrenho em todo seu território quanto pelo poder espiritual centrado no papado que, a bem da verdade, era o que realmente importava [10].

Depois disso, novas empreitadas de tipo ecumênico surgem apenas na modernidade, na esteira das Grandes Navegações. Ali, no apagar das luzes do medievo, os símbolos unificantes da cristandade (Sacro-Império e Papado) perderam sua relevância no cenário internacional. Surgem, doravante, os estados-nacionais. Estes, por um lado, trazem de volta à história aquele paroquialismo típico da pólis gregas, de Israel, do Egito e da Índia. Cada estado se auto interpreta como um Corpo Místico de Cristo, com o rei sendo a cabeça do corpo: eis a gênese do absolutismo, do Ancient Régime. Por outro lado, como o filósofo Olavo de Carvalho explica no seu O Jardim das Aflições [11], cada estado assim concebido achava por bem ser o Evangelista Mundial, o conversor do mundo, aquele que iria estender, à caravela, a fé cristã e a espada imperial. Camões, acerca dos lusitanos, não me deixa mentir:

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando:
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me permitir o engenho e a arte [12].

Da lá para cá o sonho ecumenista continuou vivíssimo. O que entendemos, na contemporaneidade, por Globalismo, é uma reedição, muitíssimo mais sofisticada e abrangente, dos mesmos intentos de um Ciro II, Alexandre Magno, Júlio César, Carlos V e Napoleão Bonaparte: o sonho de um governo mundial. No famoso debate com o conselheiro de Putin e ideólogo do euranianismo, Aleksandr Dugin, Olavo de Carvalho fala que nos nossos dias temos em vigor três grandes projetos globalistas [13]. São eles:

  1. O projeto russo-chinês, herança longínqua do imperialismo milenar chinês e do simbolismo da Terceira Roma que era atribuído à Rússia e sua Igreja Ortodoxa. Esses dois imperialismos latentes transmutaram-se no plano global comunista, que é em essência um plano de governo mundial.
  2. O projeto islâmico. O islã é par excellance uma religião expansionista, mas, ao contrário do cristianismo, que também o é, a religião de Maomé é eminentemente política. Nos próprios textos sacros do islã – Corão e Haddits – há como que um código civil, um corpo de regras de condutas pessoais e sociais formalizadas. Ademais, a instituição do Califado, um governo islâmico universal organizado sob os preceitos da xaria, é como que uma obrigação a ser cumprida mais cedo ou mais tarde pelos fiéis.
  3. O projeto ocidental. Esse é de longe o mais bem-sucedido. Esse globalismo ocidental deriva mais imediatamente das concepções kantiano-iluministas de Paz Mundial Perpétua. Crê-se na instauração de uma administração civil racionalista supra-religiosa e supra-estatal que, à base das livres trocas – livres pero no mucho –, do incremento da economia de mercado em tudo que é parte, do desenvolvimento tecnológico-científico e da disseminação global de um constitucionalismo republicano laico que, como desejado por Hans Kelsen, por exemplo, fique submetido às normas do Direito Internacional, enfim, que na base da soma de tudo isso se elimine os conflitos entre os povos e instaure como que um Paraíso Terrestre a ser preservado pelos brâmanes do Banco Mundial e da Open Society Foundation pelos séculos dos séculos.

Fica patente que, embora o fim último desses projetos seja comum – o mundo ecumênico –, há grande diferença quanto a forma de sociedade que cada um deles vislumbra. Porém, malgrado essas diferenças acidentais nos fins, com relação aos meios empregados em vista deles, todos convergem: devem dar cabo às tradições culturais e aos poderes políticos locais. Daí vê-se uma herança secular advinda daqueles pioneiros planos universalistas. E é assim, como vimos, por força da lógica. Enfim, é sanha comum de qualquer tirano com ambições mundialistas tirar do seu caminho qualquer entrave que lhe possa fazer face e, sem dúvidas, a religião e os poderes locais baseados nas tradições são incômodas pedras nos seus sapatos.

Refaço, então, a pergunta doo início: quais são os efeitos disso na vida das pessoas que estão no meio desse tiroteio histórico de proporções cósmicas?

Aqui uma novidade: hoje não há mais aquele bom efeito de outrora, aquela abertura da alma para o real. Pelo contrário, a modernidade, de que os globalismos modernos são frutos, tem por base uma patente negação da realidade do ser. Voegelin fala de uma revolta egofânica como marca do mundo pós-medieval e isso quer dizer que o homem ocidental – ou pelo menos sua casta intelectual – virou as costas para Deus, tratou de negá-lo por todos os meios e, então, e voltou-se a si mesmo; trocou o Amor dei pelo Amor sui [14]. Daí que, não podendo mais conceber o Deus transcendente cristão como o fundamento do real, os homens se lancem na busca louca por um substituto ontológico a Ele, substituto este que sempre será alguma coisa do mundo imanente. Excetuando o islã, os outros dois projetos globalistas são derivações desse achatamento ontológico: o fundamento do real, para o comunista, ao invés de Deus, é a história e as classes em perpétuo litígio; para o globalista ocidental é a razão humana e sua capacidade de engendrar o progresso material.

Portanto, não há nenhuma benesse substancial. Destruídas as culturas tradicionais de hoje, o que haverá do lado de fora, pelo menos aqui no Ocidente moderno, não será o real a ser explorado como antes por meio de símbolos religiosos e filosóficos desvendados por seres humanos empenhados numa intermitente e sincera busca pela verdade, mas, sim, a limitadíssima cabeça de um ideólogo, daquele lunático da anedota chestertoniana, que estará disposto a nos encerrar no seu mundo de fantasia psicótica.

Agora, se fizermos com relação aos efeitos ruins um paralelo desse ciclo globalista com aquele que iniciou no século VI a.C., teremos o seguinte quadro:

Do ponto de vista político, temos a paulatina dissolução da ideia de nação dando lugar aos órgãos supranacionais que versam sobre economia, educação, segurança, saúde e toda sorte de assuntos tipicamente discutidos na ágora. Nesse cenário, cada vez mais a vida do cidadão comum vai sendo moldada por imperativos vindos de sabe-se lá onde, e a tal democracia, o poder do demos, do povo, vai para o beleléu. O cidadão só fica sabendo: “a UNESCO disse tal coisa, a OMS disse tal outra, a ONU chancelou tal medida” e assim por diante. Nunca se sabe quem decretou isso ou aquilo, nem quais grupos eram os partidários da discussão ou sequer se houve alguma discussão. O sujeito percebe que pouco ou nada vale o vereador, o prefeito, o deputado e o governante de sua terra. Tudo, desse modo, começa a escapar das mãos dos Estados e desembocar nas mesas dos burocratas invisíveis da ONU que, não raro, agem de acordo com o interesse daqueles que Olavo de Carvalho chama de metacapitalistas [15] – as grandes fortunas mundiais que de tão ricas já nem participam da roda da fortuna do mercado normal e, por isso, atingiram um novo patamar de atuação –, os fiadores da desordem geral em prol daquela pretensa Paz Perpétua a ser estabelecida e gerida por eles mesmos.

Essa relativização gradativa dos poderes nacionais em face de forças políticas internacionais ou supranacionais segue aquele passo comum rumo aos intentos globalistas. E na nossa era esse processo tem tido muito mais êxito que em qualquer outra. Como diz Jouvenel, com muita razão, uma marca patente da modernidade é a crescente ampliação do Poder [16]. Um tirano, hoje, tem recursos jamais imaginados para expandir suas teias, coisas que nem o mais ambicioso dos imperadores pretéritos, nem um Gengis Khan, poderia conceber. Os seres humanos agora podem ser rastreados, ter suas ligações e e-mails grampeados, sua conta bancária vasculhada, seus hábitos mais triviais condicionados por imperativos vindos incessantemente da mídia de massa, ter suas inteligências obliteradas por planos educacionais obrigatórios estatuídos pelos governantes etc. Que dizer, além da vontade de dissolução dos poderes locais, hoje, há meios materiais mais eficazes jamais existentes para substituir o governo visível da terra por forças fantasmagórica vindas do além-mundo de Genebra, do escritório de uma grande fundação ou da imaginação de um Zuckerberg.

Contudo, muito mais grave que essa situação no plano político são os efeitos psicológicos e mesmo espirituais desse novo rolo compressor globalista. Para compreendermos melhor esse tópico, cabe salientar que é fruto daquele primeiro impulso ecumênico, daquelas almas que não puderam abrir-se devidamente ao real, um pulular estonteante de doutrinas gnósticas.

À propósito do fenômeno do gnosticismo, os trechos a seguir, retirados da obra
Ciência, Política e Gnosticismo de Voegelin, lançarão boa luz à questão:

“Para as civilizações cosmológicas da Mesopotâmia, [17] Síria e Egito, bem como para os povos do Mediterrâneo, o século VI a.c. inaugura a era dos impérios ecumênicos (impérios que visavam reunir todo o mundo habitado conhecido num único Estado político). O Império Persa foi seguidamente conquistado por Alexandre, pelo Império Selêucida, depois pela expansão do Império Romano e a criação do Império Sassânida. O colapso dos antigos Impérios do Oriente, a perda de independência de Israel, das cidades- estados da Grécia e da Fenícia, a mudança populacional, as deportações e aprisionamentos e a interpenetração de culturas, reduziu os homens, que (naturalmente) não tinham controle exato acerca dos processos históricos, a um estado extremo de desolamento no tumulto do mundo, um estado de desorientação intelectual, de insegurança tanto material quanto espiritual. A perda de sentido existencial que resultou da queda das instituições, civilizações e coesões étnicas inteiras evocou tentativas de reconquistar o entendimento do significado da existência humana na presente situação do mundo. Dentre esses esforços, que variam amplamente na profundidade das visões e na verdade que lhes subjaz, emergiram: a reinterpretação estoica do homem (para quem a polis tinha perdido o significado) como o cidadão do cosmos; a visão polibiana (de Políbio) de um ecumenismo pragmático destinado a ser criado por Roma; as religiões misteriosas; o culto de escravos heliopolitanos; o apocalipse Hebreu; o cristianismo e o maniqueísmo. E é nesta sequência, como uma das mais relevantes dentre essas novas formulações de significado da existência, que surge o gnosticismo [18].

E continua:

Da profusão de experiências e vastas expressões simbólicas gnósticas, algo pode ser discernido como o elemento central: a experiência do mundo como um lugar alheio – alienado – a nós, dentro do qual o homem foi lançado e desde o qual precisa encontrar o caminho de retorno para o seu lugar de origem” [19].

Ora, nos limites do nosso ocidente moderno vivente sob os ataques globalistas, o resultado psicológico é o mesmo: as almas, sem o amparo das tradições escoradas nas religiões e filosofias antigas, estão doentes, perdidas, deprimindo-se, querendo fugir do mundo, não crendo mais numa justa ordem divina, na antiga Dike grega que porá as coisas no lugar. Na mesma esteira temos o diagnóstico de Viktor Frankl. Diz ele:

“O vazio existencial, que é a neurose em massa da atualidade, pode ser descrito como forma privada de niilismo; o niilismo, por sua vez, pode ser definido como a posição que diz não ter sentido o ser”.[20]

E num dos trechos mais importantes de sua obra, continua:

[…] “No início da história o ser humano foi perdendo alguns dos instintos animais básicos que regular o comportamento animal e asseguram sua existência. Tal segurança, assim como o paraíso, está cerrada ao ser humano para todo o sempre. […]. Acresce-se a isso que o ser humano sofreu mais uma perda em seu desenvolvimento mais recente. Aas tradições que serviam de apoio para su comportamento, atualmente vêm diminuindo com grande rapidez. Nenhum instinto lhe diz o que deve fazer e não há tradição que lhe diga o que deveria fazer. Em vez disso, ele deseja fazer o que os outros fazem (conformismo), ou ele faz o que outras pessoas querem que ele faça (totalitarismo)”.[21]

Para o psiquiatra austríaco, essa nossa doença de massa que é o vazio existencial, a falta de sentido para a vida, é uma neurose noogênica, ou seja, uma neurose cujas raízes vamos encontrar na alma, não no corpo. Essa nossa doença espiritual deriva, evidentemente, do abandono das tradições. Pois acontece que o homem, diferente das outras feras, não vem do ventre materno com um manual de instruções para a vida, ou melhor, para a vida excelente, para a eudaimonia [22]. O animal irracional sabe o que fazer, desde logo cedo, para ser o melhor possível, pois os instintos já lhes ditam o roteiro; o homem, porém, precisa ser educado e educado no sentido da Paideia grega, uma educação integral para a plenitude corporal e espiritual e os pressupostos dessa educação derivam da tradição cultural. Não tem outro jeito, não há pedagogo mandraque que substitua milênios de mitologias, épicos, filosofias e religiões ou que possam fazer frente ao legado de um Homero, Lao-Tsé, Buda, Sócrates e Cristo[23].

Temos, portanto, que esse estado de aculturamento seguido da desordem espiritual é não só benquisto como acelerado, incentivado e mesmo patrocinado pelos agentes globalistas – vide a fortuna que as grandes fundações internacionais como a Open Society, a Ford Foundations, os Rockfellers e tutti quanti despejam na conta de grupos revolucionários pelos quatro cantos do mundo. O objetivo é despregar as pessoas de quaisquer raízes fincadas no solo seguro das tradições com o fito de torna-las presas fáceis a qualquer engodo propagandeado pelas políticas revolucionárias do dia; querem atomizar os indivíduos, desgarrando-lhes de qualquer espírito comum entre os seus, desfazendo qualquer laço que constitua uma verdadeira homonoia, dando-lhes em troca a esperança de uma fictícia irmandade universal futura – que, se é possível como comunhão espiritual, na medida da substância comum que nos torna homens num mesmo drama histórico, independente dos acidentes e particularidades locais, é impossível do ponto de vista da uniformidade política, justamente por causa da indissolubilidade dos acidentes e particularidades.

***

É esse o nosso contexto atual. Vivemos nessa guerra intermitente que se perfaz entre os Titãs globalistas e as tradições locais que se debatem a todo custo para heroicamente sobreviverem nesse cataclismo. É esse o cenário que explica o Brexit, o estabelecimento de movimentos populares e do partido Prawo i Sprawiedliwość, PiS (ou Lei e Ordem) na Polônia e o surgimento de outros grupos de viés nacionalista na Europa – mais flagrantemente: o Partido Popular Suíço, o Fidesz húngaro liderado pelo premier Viktor Orban e da Liga Norte italiana do ministro Matteo Salvini; explica também a vitória de Donald Trump nos EUA (com a importante atuação do entusiasta nacionalista-tradicionalista Steve Bannon) e a guinada à direita das américas do sul e central – com Macri na Argentina, Piñero no Chile, Cartes no Paraguai, Kuczynski no Peru, Santos na Colômbia e com Hernández em Honduras.

Aqui reside, por fim, a importância do fenômeno Bolsonaro no Brasil. O recém-eleito e sua potente base de apoio – o povo, o cidadão comum, aquela “maioria invisível” que colocou Trump na Casa Branca – encarnam esse zeitgeist anti-globalista que tem feito coro mundo ocidental afora. Bolsonaro representa, ainda que, talvez, sem a plena consciência, essa tendência da época e seu slogan de campanha é altamente significativo como símbolo expressivo desse nosso momento político-mundial: Brasil acima de tudo (apelo ao patriotismo, à independência e autonomia das forças políticas locais face aos interesses internacionais) e Deus acima de todos (resgate do símbolo cristão-medieval, ou mesmo judaico, segundo o qual Deus é o comandante da nação na medida que as leis dos homens, os príncipes e o século, estejam submetidos às leis divinas; quer dizer, é um forte resgate, ou pelo menos um indício, da tradição espiritual do ocidente).

Notas:

[1] VOEGELIN, Eric. Ordem e História: A Era Ecumênica. São Paulo: Edições Loyola, 2010.

[2] Para um estudo desses símbolos tradicionais ver: ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.

[3] Para detalhes dessa transição ver: VOEGELIN, Eric. Helenismo, Roma e Cristianismo Primitivo. História das Ideias Políticas, vol. 1. São Paulo: É Realizações, 2012.

[4] BERGSON, Henri. As Duas Fontes da Moral e da Religião. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

[5] VOEGELIN, Eric. Ordem e História: Israel e a Revelação. São Paulo: Edições Loyola, 2014. pp. 545.

[6] JOUVENEL, Bertrand. O Poder: história natural de seu crescimento. São Paulo: Editora Peixoto Neto, 2010.

[7] Para esse exemplo de crise no Império Romano ver: DURANT, Will. César e Cristo. Rio de Janeiro: Editora Record, 1971. GRIMAL, Pierre. História de Roma. Lisboa: Texto & Grafia, 2008.

[8] SANTO AGOSTINHO. A Cidade de Deus. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1996.

[9] DAWSON, Christopher. Religion and the Rise of Western Culture. London: Sheed & Ward, 1950.

[10] Para essa situação de relativo poder do Império Carolíngio ver: DURANT, Will. A Idade da Fé. Rio de Janeiro: Editora Record, 1950.

[11] CARVALHO, Olavo de. O Jardim das Aflições. Campinas: Vide Editorial, 2015.

[12] CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2013.

[13] Para a teoria dos três projetos globalista ver: CARVALHO, Olavo de; DUGIN, Alexandre. OS EUA e a Nova Ordem Mundial: Um Debate Entre Olavo de Carvalho e Alexandre Dugin. Campinas: Vide Editorial, 2012.

[14] Para esse tema voegeliniano ver: VOEGELIN, Eric. Reflexões Autobiográficas. São Paulo: É Realizações, 2007. VOEGELIN, Eric. Science, Politics and Gnosticism. Washington: Regnery Publishing, 1997. VOEGELIN, Eric. The Drama of Humanity and Other Miscellaneous Papers. Columbia: University of Missouri Press, 2004.

[15] CARVALHO, Olavo de. História de Quinze Séculos. In: http://www.olavodecarvalho.org/historia-de-quinze-seculos/

[16] Op. Cit.

[17] Para um estudo sobre o gnosticismo no sentido que Eric Voegelin adota ver: VOEGELIN, Eric. Reflexões Autobiográficas. São Paulo: É Realizações, 2007.VOEGELIN, Eric. A Nova Ciência da Política. Brasília: Editora UnB, 1982. VOEGELIN, Eric. Science, Politics and Gnosticism. Washington: Regnery Publishing, 1997. VOEGELIN, Eric. Los Movimientos Gnosticos de Massas como Sucedanoes de las Religiones. Madrid: Ediciones Rialp, 1966. VOEGELIN, Eric. Gnostic Politics. Louisiana: Louisiana State University Press, 1995. VOEGELIN, Eric. History and Gnosis. Louisiana: Louisiana State University Press, 1995. Um estudo sobre as raízes do gnosticismo antigo pode ser visto em: JONAS, Hans. The Gnostic Religion. Boston: Beacon Press, 2005.

[18] VOEGELIN, Eric. Science, Politics and Gnosticism. Washington: Regnery Publishing, 1997.

[19] Ibid.

[20] FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido. Petrópolis: Vozes, 2015.

[21] Ibid.

[22] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Edipro, 2014.

[23] Ver: LEWIS. C. S. A Abolição do Homem. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.

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