Esquêmata Filosófica – Experiências em um quase ensaio

Um artigo pão com ovo

1. Do Início e do vício primordiais.

Este texto nasceu do desejo de responder a perguntas que o autor não se sente apto a esgotar o escopo, mas independente disto – e em virtude de certa teimosia – serve de treino para que algumas ideias possam ser postas em seus devidos lugares,  ao modo de certa crítica da razão impura que deseja esboçar um sistema que não sabe se tem começo ou fim. Em escritos do gênero é preciso ao menos que se saiba por onde começar; e talvez esse seja o primeiro problema do estudante de filosofia: não se sabe por onde começar, essa húbris que aflige desde o interessado de primeira viagem que leu num blog aleatório que o filme Matrix é uma alegoria platônica ao veterano que ainda insiste que o método [puramente] apriorístico – que parte das alturas – ainda é adequado para que se inicie uma investigação.

De certo modo a pergunta inicial é viciosa por duas razões: primeiro, pela existência de escolas filosóficas unilaterais imediatamente à disposição do leigo desavisado, (como empirismo, idealismo, nihilismo e tutti quanti) o coitado começa por ali e já ganha de brinde uma vida inteira presa em problemas que não deveriam existir. Segundo, a sub-reptícia nota da pergunta mesma que procura começo naquilo que já começou: a filosofia nasce do assombro [1] e não da escolha de uma base que pressupõe uma investigação anterior – logo, não é lá uma base. A hipótese de um início pela dúvida ou crítica  não é considerado aqui, visto que, ao iniciante, não cabe uma dúvida ou crítica sobre algo que não conhece, moda infelizmente propagada até dentro da academia; é algo como digerir num estômago vazio. E é aqui que se inicia o relato que quis ser um ensaio; que o leitor tenha em mente que os termos aqui não serão utilizados utilizados com rigor, mas de modo que possam direcionar o leitor a certa reflexão, algo como guias em uma ponte de corda.

2. Do assombro e do conhecimento.

A busca do conhecimento ou de sua definição soa assombrosa tanto para o leigo como para o veterano; no primeiro por não saber do que se trata e do segundo justamente pelo contrário. A leitura do adágio “fundamento do conhecimento” em qualquer livro equivale a um pequeno ataque cardíaco. A palavra “fundamento” embora signifique algo que funda (ou sustenta) apenas como base costuma tomar a conotação de um sistema completo; se o conhecimento se funda nos sentidos, está preso ali, se fundado na mente, está preso ali; e se fundado na estrutura de uma banana, estará confinado à sua estrutura banânica, ou da linguagem, ou qualquer coisa que o freguês venha a inventar para tal uso. Felizmente esse karma é comumente restrito ao filósofo menor e não afeta aos que honram a classe – Kant, Aristóteles, Tomás de Aquino. De qualquer forma, acredito que o conhecimento mesmo não tem um começo, mas uma forma de onde possamos começar sua análise: o ato mesmo de conhecer. Conhecemos sempre, desde quando nos perguntamos se conhecemos; conhecemos a dúvida acerca do conhecimento, e antes de nos perguntarmos se há algum, já o temos; a negação do ato do conhecimento é a negação da própria capacidade de perguntar-se. O ato de conhecer mesmo já é dado como factual tanto do âmbito especulativo quando do prático, ou qualquer outro de onde se queira olhar; um ceticismo que negue o ato de conhecer é absurdo em sua própria concepção, que já é por si mesma o ato de conhecer mesmo que seja o conhecimento da negação do conhecimento (o que já é absurdo): a pergunta “conhecemos?” não pode se dar, e em epistemologia não se pergunta se conhecemos, mas como conhecemos. Em verdade, em filosofia e até em teologia muitas coisas não são investigadas se ocorrem, mas como ocorrem.

“É já grande e necessária prova de inteligência ou perspicácia saber o que se deve perguntar de modo racional. Pois que se a pergunta é em si disparatada e exige respostas desnecessárias tem o inconveniente, além de envergonhar quem a formula, de por vezes ainda suscitar no incauto ouvinte respostas absurdas, apresentando assim o ridículo espetáculo de duas pessoas, das quais (como os antigos diziam) uma ordenha o bode enquanto outra apara com uma peneira.”[2]

O ato mesmo do conhecimento deve ser analisado do ponto de vista de seu funcionamento e não se seu fundamento no sentido de um dado fundamente – por exemplo, “todo o conhecimento funda-se nos sentidos”. Mas seu funcionamento mesmo já pressupõe várias facetas distintas que podem ser vistas como fundamentos paralelos: por exemplo, Kant nos diz que o conhecimento se inicia nos sentidos, mas sua estrutura organizadora que possibilita que os dados sensíveis sejam transformados em algo inteligível não é restrita a essa esfera; nesse caso, o conhecimento surgiu em A, mas não está restrito a A. Tal vontade “englobante” de restringir tudo a certo princípio talvez nasça de mais de uma raiz, como a ansiedade de ver tudo límpido ou o espírito da época – no racionalismo do sec. XVI – XVIII era quase uma modinha essa redução, como podemos ver nas primeiras páginas de O Mundo como Vontade e como Representação.

Outro problema é a definição do conhecimento; em verdade, a definição mesma costuma ser o grande calcanhar de Aquiles da investigação inteira. Por exemplo, nos filósofos afetos à lógica, percebe-se certa húbris formalizadora que “recorta” o objeto até que o elefante mesmo se torne uma figura 2d no formato de uma bola com quatro perninhas e uma tromba. Definições mesmas são objetos formalizados; mas talvez o problema esteja na distinção entre descrição e definição: a primeira ligada ao objeto concreto-material e a segunda ao objeto lógico-formal. Não creio que alguma delas seja adequada em si mesma senão como um todo dialético; se vamos investigar um objeto, é mister que ele se mostre o mais completamente possível e não com recortes que embora límpidos, são como uma bela figura oca.

O conhecimento mesmo enquanto ato pode ser visto como uma ação perceptiva sobre um objeto, certa incisão do aparato cognoscente na produção de certa informação mais ou menos precisa. Não há como detalhar o processo em um ensaio; Kant gastou 500 páginas na Crítica da Razão Pura pensando nisso; Aristóteles usou 600 só na metodologia para algo do tipo, o Órganon; O Mundo como Vontade e como Representação possui em média 550 páginas, o Tratado da Natureza Humana algo do tipo também. Talvez tais números possam indicar que pequenas perguntas produzem grandes livros, visto que aqui não cabe uma resposta simples aos moldes das dadas em redes sociais tão apreciadas pelos millenials e sua notória preguiça de ler algo que ultrapasse seu número de neurônios.

3. Realitas Phaenomenon

Logo após a pergunta do conhecimento, alguns questionam sobre a realidade mesma,  a existência, ou outros termos semelhantes chegando até o ponto de alguns, talvez influenciados por ciência de má qualidade,  acreditarem na impossibilidade da própria existência, ou que são como personagens de videogame, ou realidades paralelas. Bom,  existência é mais um daqueles termos que não precisam de demonstração, mas apenas de exibição; o ato de existir é percebido per se no momento em que nos perguntamos sobre no ato do conhecimento; o cogito cartesiano segue uma linha do tipo. Perguntar-se sobre a própria existência é uma especulação puramente acadêmica – no sentido pejorativo – e não se dá na realidade: ou será que o leitor duvida que existe enquanto lê isso? Não podemos negar que somos e isso inclui o problema de negar a realidade mesma; como negar a realidade das coisas estando imbuída nela? O problema do questionamento da realidade surge quando pensamos em graus da realidade mesma, colocando mais “dignidade de realidade” em algum ponto: os deturpadores de Platão colocam toda a realidade nas formas e transformam o mundo em ilusão – termo que Platão usa em outro sentido; – e os deturpadores de Kant dizem que a realidade é incognoscível por colocar toda a realidade do noumenon, ignorando que o mesmo é não mais que certa parte inapreensível do fenômeno – e que o coitado diz que a realidade está justamente no fenômeno[3].

Assim, a pergunta da “existência da realidade” se dissolve e o mesmo vale para a dúbia da experiência; a propósito, não se nega a experiência mesma, mas se investiga seu processo, questão que se liga à do conhecimento. Há ainda o problema da definição de existência e realidade: tais definições e descrições necessitam de vários outros termos e pressupostos para que possam revelar-se como algo concreto; mas antes que possamos descrevê-las e definí-las, é importante prestarmos atenção que antes é preciso intuí-las: quantas questões não precisariam ser reformuladas ou descartadas por simples observações acerca de nosso lugar no mundo? Aqui se revela mais um problema metodológico: alguns querem construir o mundo a partir de conceitos que foram abstraídos do mundo mesmo; assim, o espelho se torna a realidade e aqui temos o que se chamou abstratismo, uma forma viciosa de pensar que impregna como um vírus os filósofos chamados racionalistas. Há de se perguntar: quem é o correto, o racionalista, o irracionalista, o idealista ou o empirista? Nenhum deles: racionalismo é uma forma viciosa da razão e a irrazão não ocorre no homem, apenas a deficiência da razão mesma – e assim a dicotomia é falsa. O idealismo e o empirismo são facetas mutiladas do realismo, uma com crença cega na razão e outra com crença cega na percepção. Por problemas assim que uma metodologia filosófica não dialética está fadada ao abstratismo mais ou menos crítico.

4. Do Ajuizamento Universal e Verdade

Há ainda algumas questões que derivam das anteriores, a saber, a da universalização de juízos e da verdade. “O que é a verdade?”. Tal pergunta é feita há pelo menos 2018 anos, e soa perigosa de responder, visto possui facetas diversas. Mas antes é preciso atentar que a filosofia, analogamente à ciência e respeitando seus devidos campos, só pode ser feita de juízos universais; descrições são particulares mas conceitos só podem ser universais, fato que é observado na conceituação mesma que deve adequar-se à vários objetos. Assim, a universalização é bem conhecida do homem e a pergunta desloca-se não para a existência de universais, mas de juízos universais. De qualquer forma a resposta é positiva: tais juízos não são dados de imediato, mas descobertos especialmente no campo da ontologia, que estuda, a grossíssimo modo, a estrutura mesma da universalidade. A filosofia não está sujeita à falseabilidade, que é um critério bom para a ciência enquanto trata do mundo fenomênico mas apenas isso; querer falsear postulados ontológicos como “algo há”, não é algo que se faça. Tal confusão é conhecida como confusão entre o ôntico e o ontológico.

A verdade é algo que está muito além do mundo empírico em sua faceta mais própria; mas pode estar, como tantos filósofos repetiram, – Tomás, Kant, Aristóteles, Schopenhauer, Platão, etc., – em certa adequação do que pensamos como que realmente há. Não há sentido em um relativismo que negue a verdade mesma ou a verdade dos juízos lógicos, ou adaequatio; percebe-se que o único campo onde o relativismo – que não é uma corrente filosófica em si, mas um parasita, ao modo do ceticismo – insiste em se instalar, é o campo da moral. Em verdade, a moral enquanto face material da ética formal também é uma disciplina de juízos universais mais ou menos claros a todos. E com alguma atenção percebemos que se não nos for evidente que a moral existe por princípios, percebemos por consequências: nem o maior dos relativistas nega que a falta de uma moral, mesmo que a considere espúria, é muito pior que a existência de uma.

5. Epílogo de um quase ensaio.

Pelas observações feitas, é curioso ver que certa atenção a alguns detalhes funciona como guilhotina de problemas futuros. O que foi feito aqui é notoriamente superficial e não se propõe a ser mais do que isso embora deseje; de qualquer forma, espera-se que sirva de guia – muito preliminar – ao interessado leigo em filosofia, e que este – pelo amor! – saiba que não se pode pensar sobre o tema após ler um pequeno livro de método; apenas a faceta formal nunca é suficiente. Deve-se alimentar a cabeça com experiências sejam as suas ou a dos outros, estas que que para nossa alegria vêm escritas nos livros. Muito se falou sobre formas viciosas por conta daquele que vos fala ter topado com várias delas e não tenha data para parar de fazer isso. Mas lembremos que para que haja uma doença é preciso um corpo saudável para contraí-la; então, antes da filosofia viciada houve uma mais ou menos livre; e é por isso que qualquer curso de filosofia com boas intenções inicia suas leituras pelos autores mais antigos.

Para um quase ensaio, até que deu um caldo; e assim o encerro, pois formalismo extremo é coisa de empombado.

[1] “Que não se trata de uma ciência produtiva fica claro com base no exame dos primeiros filósofos. É por força de seu maravilhamento que os seres humanos começam agora a filosofar; maravilhando-se primeiramente ante perplexidades óbvias e, em seguida, por um progresso gradual, levantando questões também acerca das grandes matérias, por exemplo, a respeito das mutações da lua e do sol, a respeito dos astros e a respeito do universo”

Metafísica 982b1 15

[2] Crítica da Razão Pura B83

[3]  “Ora, o que na intuição empírica corresponde à sensação é a realidade (realitas phaenomenon); e o que corresponde à sua ausência é a negação = 0.” Crítica da Razão Pura A168 ou B210

 

Para um guia sobre o tema, recomenda-se nossa lista de leitura:

4 comentários em “Esquêmata Filosófica – Experiências em um quase ensaio”

  1. Pingback: Filosofia do Desespero - Contra os Acadêmicos

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