Eric Voegelin: Política Gnóstica

por Eric Voegelin

Assim como em Roma, ao lado dos romanos, há uma outra população de estátuas, do mesmo modo há outro mundo de loucura fora desse mundo real, bem mais poderoso, no qual a maior parte das pessoas está vivendo.
(Goethe)

I

O movimento Puritano do século XVII possuía uma ala radical que entendia a revolução como a construção do Reino de Deus na terra. Os santos do Senhor, guiados pelo Filho e cheios do Espírito, batalharam pelo poder do Estado, não para inaugurar uma nova era política, mas para permitir que uma nova era gnóstica sucedesse a era antiga que estava marcada para a destruição. Essa ala radical expressou linguisticamente sua posição em relação à sociedade e ao mundo por meio do simbolismo bíblico. O design surgiu nos tempos (durch die Zeiten war gekommen) que 2 Esdras 6.9 profetizou, e viria a sua realização no que Is.65.17-19 havia anunciado: “Pois vejam, criarei novos céus e uma nova terra, e as coisas passadas não serão lembradas; em vez disso, vocês serão alegres e felizes para sempre no que criei. Então vejam, criarei Jerusalém para o deleite e o seu povo para a alegria. E irei regozijar em Jerusalém e exultar o meu povo, e não mais se ouvirá ali a voz do pranto ou o som do choro”.

Essas coisas são fatos estabelecidos e bem conhecidos da história. Menos conhecido ainda hoje é o seu significado como uma fase decisiva na evolução da política moderna. Dificuldades afetam nossa compreensão disso porque ainda estamos muito profundamente envolvidos na visão de mundo criada pela gnose dos revolucionários puritanos e seus sucessores secularizadores; falta-nos distância crítica, especialmente em relação a ferramentas conceituais para uma crítica da consciência pública. Isso ocorre porque a disponibilidade de tais ferramentas no mundo dos filósofos e estudiosos tem pouco peso em um período de democracia de massa em que a discussão racional perdeu seu status de força pública. Hoje nos falta essas ferramentas mais ainda que no caso da época dos puritanos com sua consciência mais intensamente cristã. A estranheza de uma tentativa de estabelecer o Reino de Deus por meio do povo em um campo de batalha foi percebida mesmo então; e os panfletos dos puritanos radicais eram, por essa razão, tão defensivos em relação aos argumentos cristãos quanto agressivos em condenar o Reino das Trevas que seria eliminado. Sob a pressão da crítica, capelães do exército e líderes sectários foram obrigados a caracterizar mais exatamente a peculiaridade desse empreendimento em oposição à tradição cristã; e um exame de um ou dois desses argumentos defensivos poderia fornecer uma introdução à nossa investigação mais ampla.

Os vasos do Espírito armados até os dentes tinham que chegar a um acordo com a declaração de Cristo: “Meu Reino não é deste mundo”. A dificuldade apresentada por essa afirmação foi parcialmente superada pela técnica usual entre os crentes literalistas da faixa Rabulista, ou seja, de confrontá-lo com outras passagens. É claro que Cristo disse que seu Reino não é deste mundo; mas ele disse que não deveria ser estabelecido na terra? Pelo contrário, Ap. 5.10 nos assegura explicitamente: “E nos fizeste para nosso Deus, reis e sacerdotes, e reinaremos sobre a terra”. Portanto, o mundo e a terra devem ser distinguidos um do outro. O mundo significa o período da dominação mundial pela monarquia humana a qual os puritanos foram submetidos; e este mundo será sucedido na terra por aquele outro do qual a Epístola aos Hebreus (2.5) fala: “o mundo vindouro, do qual falamos”.

Um sermão pregado em 1647 por Thomas Collier na sede do quartel-general de Cromwell leva ainda mais profundamente neste assunto de justaposição de texto contra texto. Collier foi da defesa para o ataque. O novo céu e a nova terra são o Reino de Deus em virtude do Espírito nos santos. O céu como um lócus sobrenatural da graça é um mal-entendido:

Sempre tivemos e ainda temos imagens muito baixas e carnais do céu, na medida em que consideramos ser um lugar de glória além do firmamento, invisível, e devemos desfrutar de suas alegrias apenas para além desta vida. Mas o próprio Deus é o Reino dos Santos, seu prazer e sua glória. Onde quer que Deus seja manifesto, há o seu Reino e o dos Santos; e ele se manifesta nos Santos. Eis o grande e oculto mistério do Evangelho, esta nova criação nos Santos.

Essa passagem que acabamos de citar do sermão de Collier é um dos documentos mais notáveis das especulações puritanas, na medida em que torna explícito o que em outros lugares só poderia ser sugerido como ideia de fundo: existe um velho e um novo mundo, uma velha e uma nova criação. Ambos os mundos estão na “terra”, ambos estão na história. Sob o termo terra, devemos entender a constituição do ser e, especialmente, do ser humano na sociedade. Sob o termo mundo, devemos entender a constituição gnóstica do ser como uma escuridão não redimida ou luz redentora. A terra, como ela existe, pode ser o mundo das trevas ou o mundo da luz, reino do diabo ou reino de Deus. Esta é a ruptura clássica com o cristianismo. O mundo cristão, como criação de Deus, não é um reino das trevas; para ser mais exato, ele é escurecido pelo fator demasiadamente humano da Queda; mas é enobrecido novamente pela Encarnação de Deus como o lócus da humanidade plena dentro das limitações do ser da criatura. Essa tensão cristã entre o ser criado e o ser divino, entre os limites do ser e a transfiguração pela graça na morte, se dissolve em um processo histórico imanente que envolve o mundo e o super-mundo como éons que se desdobram temporalmente. E esta imanentização dissolve até o símbolo do “paraíso” na medida em que substitui um paraíso materialista pelo mistério da visão beatífica de Deus na morte e então, contra esta “imagem baixa”, pede a realização temporal do Reino eterno como sua interpretação espiritual. Neste ataque aniquilador ao simbolismo cristão, Collier realmente foi tão longe quanto qualquer um poderia ir sem abandoná-lo completamente. A técnica de propaganda anti-filosófica e anticristã do intelectual esclarecido de interpretar quaisquer símbolos de transcendência, não de acordo com a analogia do ser, mas de mal interpretá-lo literalmente como uma afirmação direta sobre um objeto finito em ordem, tornando ridículo o absurdo literalista, é totalmente desenvolvida aqui. Já foi indicada a linha histórica ao longo da qual a política gnóstica mudará da linguagem simbólica cristã para o simbolismo anticristão do marxismo.

II

A natureza de uma coisa é aquela pela qual é esse tipo de coisa e não outra em sua essência. A natureza Ex definitione (como a definição implica) é imutável. Não obstante, os políticos gnósticos desejam alterar a natureza uma maneira que, por ora, não será mais bem esclarecida. Na medida em que a intenção de realizar o impossível é transformada em meta de ação política, o programa não pode ser realizado; na medida em que esse programa é agarrado, a condição espiritual das pessoas que o apreendem é revelada como uma doença pneumopatológica. A essência da política gnóstica deve ser interpretada como uma doença espiritual, como uma nosos no sentido de Platão e Schelling do termo: uma perturbação na vida do espírito como distinta da doença mental no sentido da psicopatologia.

Sem clareza sobre este ponto, uma interpretação crítica da política gnóstica é impossível. A linguagem filosófica da tradição clássica e cristã foi moldada em termos de tarefas diferenciadas para investigação. Como linguagem ontológica, ela cresce da teoria, da contemplação do ser e de sua ordem; como linguagem metafísica, surge da tentativa de uma extrapolação especulativa em direção ao fundamento do ser; como linguagem teológica, cresce a partir da exegese das experiências de transcendência. Tal linguagem filosófica é a linguagem da tentativa de compreender a ordem do mundo e o lugar dos seres humanos nela. Não é uma linguagem sem sentido e, portanto, não pode entrar em conversação com a linguagem do absurdo. Não nos fornece nenhuma ferramenta para avaliar os programas gnósticos quanto ao seu valor, para tomar a medida das ações gnósticas pelos padrões de intencionalidade racional, ou para discutir as expressões linguísticas da postura gnóstica em seus próprios fundamentos. Ele só pode tratar esses programas, ações e expressões linguísticas como sintomas de uma doença, na medida em que verifica em que ponto a ruptura com a realidade ou o descarrilamento (como Jaspers denominou esse fenômeno no caso de Nietzsche) ocorre. Uma investigação crítica do fenômeno gnóstico, consequentemente, terá de trazer em alto relevo a confusão linguística em relação à realidade. Porque a natureza transformada pelo espírito – a “realidade” do gnóstico – não é a realidade do conhecimento filosófico da ordem; e ainda o político gnóstico fala sobre isso e opera dentro dele como se fosse realidade no sentido normal do termo. Portanto, para resolver essa dificuldade fundamental, na análise dos sintomas que se seguem, a expressão “realidade onírica” será usada como uma abreviatura da “realidade” gnóstica.

III

Da realidade onírica, não temos experiência nem podemos realizá-la na realidade pela nossa ação. No entanto, os gnósticos precisam falar sobre isso como se tivessem experiência disso; e eles têm que agir como se fossem capazes de realizá-la. E eles devem fazer ambos do seu ponto de vantagem na realidade do qual eles desejam penetrar no reino da realidade onírica. A experiência patológica, como tal, não precisa de mais explicações pelo exemplo, uma vez que a nossa memória ainda está fresca com a “erupção” da Gnose do Nacional-Socialismo. Podemos nos voltar diretamente para as duas questões que os gnósticos precisam responder. A primeira pergunta: Como pode um quadro da realidade onírica ser construído de modo a ter características da realidade e permanecer na “terra” e, ainda assim, sugerir a transfiguração na condição de luz? A segunda questão: Como se pode construir um programa de ação para que as ações percorram seu curso na realidade, mas tenham como meta não a realidade, mas a realidade onírica?

Os gnósticos estão doentes no espírito, mas não são estúpidos; eles desejam o impossível, mas sabem o que querem. Eles querem romper através de uma realidade onírica que pretende ser uma realidade, mas sabem que uma realidade onírica é uma realidade de um tipo diferente e que precisamente aquelas características que são essenciais para ela não podem emergir da experiência da realidade normal. Ao perceberem essa dificuldade, ocasionalmente mostram uma tendência a não responder à primeira pergunta, se possível. Na visão judaica apocalíptica de uma fissura que atravessa as eras, Esdras importunou o Senhor com pedidos de coisas particulares; e ele é reprimido por Deus com o aviso: Não me faça mais perguntas, Esdras! A solução perfeita é a canção da Juventude Hitlerista: Estamos marchando, marchando para o futuro! – porque essa fórmula, tão carregada de tensão escatológica, toca os desejos mais profundos de redenção e, no entanto, nada diz sobre a realidade onírica a ser esperada tempo histórico.

Políticos gnósticos com alguma estatura intelectual encontram suas soluções pessoais para essa dificuldade de acordo com seu temperamento e meticulosidade. Bakunin era da opinião de que o processo histórico de transição do antigo para o novo mundo levaria algum tempo. A primeira fase de ação, que caiu para sua geração, consistiria na ruptura radical do velho mundo; as instituições coercitivas do velho mundo – o poder organizado do Estado e a burocracia – teriam que ser eliminadas. O processo de aniquilação em si e a subsequente desordem exigiriam sacrifícios frutíferos; mas esses sacrifícios devem ser usados para que, sobre as ruínas do mundo antigo, uma natureza humana essencialmente boa, liberada das influências destorcidas, possa construir sua vida perfeita na ação federativa livre. Quanto ao que essa vida perfeita deve parecer, nada é dito, porque nós mesmos ainda pertencemos à geração da destruição; podemos ajudar o mundo em direção à perfeição pela aniquilação do velho mundo, mas o conhecimento da nova vida é que ela deve ser criada para a geração liberada pela nossa ação.

Bakunin viveu tão profundamente em sua fé na redenção através da ação – através do Einsatz (campanha), como os gnósticos nacional-socialistas chamavam o desejo que não enxerga – que ele não precisava de nenhum conhecimento. Talvez seja por isso que ele pudesse entender mais facilmente que os outros que esse conhecimento não existe. De qualquer forma, esse refinamento epistemológico no sonho é a característica marcante de Bakunin. Precisamente porque para ele a realidade onírica do novo mundo não é para ser imaginada, mas apenas para ser criada na solidariedade existencial, ele poderia se concentrar inteiramente no velho mundo; e esse relacionamento com o antigo era o negativo da ação disruptiva. Por meio de sua profissão de não-conhecimento radical da realidade onírica, a vontade de aniquilação dirigida contra as forças da ordem foi claramente isolada como o único componente da política gnóstica acessível à experiência. Na tensão da fé de Bakunin entre o nada e o nada, é revelada em seus termos mais puros o niilismo da Gnose moderna; e na medida em que sua vida aderiu a esta tensão, torna-se prototípica para a existência revolucionária gnóstica.

Nem todos os gnósticos são tão contidos quanto Bakunin. Eles querem proclamar aquilo de que seus corações estão cheios. E uma vez que a realidade onírica não pode ser anunciada nas categorias próprias da realidade, elas elaboram uma forma única de comunicação: a visão ou perspectiva do futuro. No movimento Puritano, este formulário é formado e nomeado em um panfleto de 1641, intitulado Um Vislumbre da Glória de Sião. O termo vislumbre não tem equivalente exato em alemão. Significa um olhar arrebatado de relance de uma coisa como se fosse através de uma divisória que se abre por um momento, incerta em sua apreensão, porque a glória radiante varre o contorno esboçado.

O que o vislumbre da glória de Sião revela? Acima de tudo, o caráter socialmente revolucionário do movimento que, como em Bakunin, é dirigido contra as forças atuais da ordem. Deus faz uso das pessoas comuns quando ele proclama o reino de seu Filho. A voz de Cristo “vem primeiro da multidão, o povo comum. A voz é ouvida deles primeiro, antes de ser ouvida de qualquer outro. Deus usa as pessoas comuns e a multidão para proclamar que o Senhor Deus Onipotente reina”. Cristo não veio para os sábios, nobres e ricos; ele veio para os pobres. O espírito do Anticristo reina nas classes superiores; daí a Reforma e a revelação do Anticristo começaram na “multidão tão desprezível e comum”. No novo mundo, em contraste, as relações de regra expressarão a verdade das coisas. Os governantes do mundo antigo não apenas serão convencidos de suas injustiças, mas além disso o povo de Deus virá em auxílio de seu entendimento, causando sua degradação. De fato, Isaías havia profetizado [49.23]: “Reis deverão ser seus pais servidores, e suas rainhas suas mães servidoras: eles se inclinarão diante de vocês…e lamberão a poeira de seus pés; e saberão que Eu sou o Senhor: pois não tenha vergonha de esperar por mim”. Os santos, por outro lado, “serão todos revestidos de linho branco, que é a justiça dos Santos, a justiça que eles têm através de Cristo, pela qual são justos diante de Deus e santos diante dos homens. A santidade será inscrita em suas cabeças e em suas rédeas; sobre todos, a sua benignidade resplandece em excesso para a glória de Deus”. O simbolismo desses visionários em Israel tornou-se obsoleto hoje. Gnósticos mais recentes substituem os antigos sinais orientais de sujeição com campos de concentração e câmaras de gás; e, em vez do linho branco testemunhando o pertencimento de alguém ao reino, o marrom, o azul, o preto ou outras cores que precisam ser lavadas com menos frequência são selecionadas para a vestimenta. Mas o princípio da coisa deve ficar claro.

A visão confirma ainda mais. As formas de lei e da economia da realidade onírica serão diferentes. A presença de Cristo em seu reino tornará as sanções legais supérfluas no futuro. “É questionável se haverá necessidade de ordenanças, pelo menos dessa forma que agora existe… A presença de Cristo estará lá e proverá todo tipo de ordenanças”. A provisão econômica de bens escassos, além disso, renderá a uma condição de abundância e prosperidade. Porque Cristo comprou o mundo inteiro; ele comprou para os santos e será entregue. Mais candidamente, o autor fornece o motivo de sua convicção: “Você vê que os santos têm muito pouco agora neste mundo; agora eles são os mais pobres e os mais desprezíveis de todos; mas quando a adoção dos Filhos de Deus vier em sua plenitude, então o mundo será deles … Não somente o céu será seu reino, mas este mundo corporalmente”. Nesses pontos também a visão é significativa não por causa de sua extraordinariedade, mas por causa do caráter típico de sua imagem. Fantasias sobre o paraíso são tipicamente um catálogo de negações de necessidades existenciais. Um paraíso tem que estar livre da pobreza, doença, morte, opressão e necessidade sexual. Os sonhos do Vislumbre estão concentrados nas necessidades político-econômicas – na pobreza e na autoridade coerciva. Estas são as constantes que se repetem em outros sonhos gnósticos, como na liberdade do querer e do medo da Carta do Atlântico, ou no paraíso terrestre do comunismo em que o Estado vai morrer e todos com seus bens serão atendidos na medida de suas necessidades.

IV

O visionário (der Blickende) permanece na realidade e forma uma imagem onírica do futuro (Traumbild). Por meio de sua visão antecipatória, ele quer mediar a outras pessoas que permanecem na realidade uma imagem da condição desejada e conquistá-las como colaboradores que o ajudarão a forçar o sonho a entrar na história. Para o observador crítico, o aspecto doente da visão e sua intenção motivadora consistem em um descarrilamento, uma ruptura com a realidade. Ele sabe que o sonho não pode ser realizado e que a operação do sonho, se for empreendida, conduz, após terríveis perturbações da ordem existente, a uma nova condição de realidade que nada tem a ver com a pretendida realidade onírica. Mas os mais inteligentes dos gnósticos compartilham a visão dos filósofos de maneira notável. O gnóstico também teme um descarrilamento, mesmo que a direção de sua preocupação seja invertida. Porque o que o filósofo prevê como necessário, o gnóstico deve temer como possível: que os santos revolucionários serão bem-sucedidos em destruir a velha ordem, mas que depois que a ação for realizada, eles serão provados como pessoas tão impuras quanto o resto e terão trazido a destruição sacrificial para nada.

A direção na qual este descarrilamento profano se desdobra é para ser aprendida muito claramente do Vislumbre Puritano. As imagens oníricas são a expressão de uma volúpia selvagem pela dominação carregada de ressentimento, assim como foi diagnosticada com habilidade psicológica magistral como a essência do puritanismo radical por Thomas Hobbes (e por Richard Hooker antes dele). O que quer que realmente aconteça no curso de uma revolução gnóstica, é certo que os santos vitoriosos formarão uma nova classe superior marcada por uma brutalidade requintada, e que os membros das classes superiores prévias serão basicamente maltratados. O ponto não é as terríveis consequências que inevitavelmente atingem as pessoas subjugadas em um conflito violento, mas a legitimação da violência como uma ação penal espiritual contra as forças opostas à luz. A situação dos subjugados é horrível porque eles não são adversários políticos na luta pelo poder; mas na fantasia onírica do gnóstico, eles são oponentes cósmicos na luta da luz com as trevas. O que é perpetrado sobre os representantes do velho mundo é um julgamento cósmico. A partir desta distorção onírica patológica, as inversões “dialéticas” outrora ininteligíveis das quais Marx foi especialmente o mestre tornam-se compreensíveis. Na realidade, fórmulas como “opressores dos opressores” ou “expropriação dos expropriadores” são eticamente contraditórias como exigências; na especulação onírica, por outro lado, eles têm o bom senso porque a opressão e a expropriação, se praticadas pelos gnósticos, são a liberação. Esta fase negativa de estabelecer o reino, a batalha com os poderes das trevas é, como já se observou, a única parte do programa gnóstico que pode ser realizada. E isso será realizado com algum nível de certeza, uma vez que coloca o prêmio não apenas de um bom trabalho, mas de um trabalho redentor na satisfação dos instintos inferiores – uma combinação que sempre tem sua atratividade psicológica e, numa era de vulgarização massiva pelos intelectuais secularizados, inspira poderosos movimentos políticos.

O gnóstico, que enxerga através desse truque do Aqueronte tão bem quanto o filósofo, tem que temer que seu movimento permaneça preso nessa fase de negação, que seus seguidores tomem a derrubada das instituições, o massacre e o saque dos oponentes, como a essência do estabelecimento do reino, e que o reino milenar vai encalhar em uma dominação coercitiva pirateada de ladrões e assassinos insaciáveis. Marx viu esse perigo e assim ele distinguiu entre o comunismo em estado bruto e o verdadeiro. O comunismo em estado bruto é “a generalização da propriedade privada”. O comunista em estado bruto está tão submergido pela dominação dos bens que quer aniquilar tudo o que não pode ser propriedade privada de todos. Ele considera a posse física e imediata como o único propósito da vida; ele não quer abolir a forma de existência dos trabalhadores, mas estendê-la a todas as pessoas; e, portanto, ele deseja extinguir todos os talentos distintos pela violência. O mundo das posses deixa a relação marital com a propriedade privada e entra em uma relação de prostituição universal com a comunidade. Este comunismo em estado bruto nega a personalidade do ser humano. A avareza da propriedade privada é satisfeita de uma nova maneira, na medida em que a inveja das posses dos outros é constituída como poder público. A competição na sociedade capitalista é a inveja e o desejo de nivelar a pequena propriedade contra a grande propriedade privada maior; o comunismo em estado bruto é o cumprimento desta inveja por meio de um nivelamento a um mínimo geral. Destrói a civilização por seu retorno a uma simplicidade antinatural de pessoas pobres que não estão além da propriedade privada, mas ainda não chegaram a ela. É uma comunidade de trabalho e de igualdade de renda paga pela comunidade como capitalista generalizada. No comunismo em estado bruto, manifesta-se a “falta de propriedade privada que se colocaria como essência ou comunidade comum positiva”.

Essa caracterização do comunismo em estado bruto é puxada de um trabalho anterior de Marx, Os Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844. É uma análise sutil do descarrilamento na realidade que se aproxima no insight psicológico de Hobbes. Tem seu valor especial porque elabora a continuidade entre a realidade que o gnóstico quer descartar e os componentes da realidade em seu sonho. Além da amarga luta de nossa época entre os movimentos gnósticos e seus oponentes, e dentre os uniformes de cores diferentes, é muito fácil esquecer que esses movimentos não emergem do nada, mas estão ligados histórica e causalmente à corrente da realidade, que o Puritanismo radical é o resultado coerente de um cristianismo já corrupto, e que o positivismo, o comunismo e o nacional-socialismo são os frutos canibalescos de uma sociedade liberal corrupta.

V

O gnóstico tem que ter medo do descarrilamento do sonho. O problema, no entanto, torna-se complicado para ele pelo fato de que a queda na realidade é um evento no tempo. A luta contra o velho mundo deve ser travada dentro da realidade; uma briga gnóstica turbulenta entre as forças da SA [Sturmbabteilung, tropas de assalto ou Camisas-pardas] e seus oponentes são, na realidade, indistinguíveis de uma briga não-gnóstica. O novo mundo começa com a destruição do antigo, com a derrubada de instituições. E se for um novo mundo comunista, então, psicologicamente e institucionalmente, ele será inevitavelmente parecido com o que Marx chamou de Comunismo em estado bruto. O novo eon começa com a crueza. Mas em que ponto começa a transfiguração? E se não for inserido imediatamente, quanto tempo o estado bruto deve durar antes de chegar ao veredito de que algo deu errado com a transfiguração?

Nos seus anos de juventude Marx havia se preocupado, na obra A Ideologia Alemã, de 1845-1846, com a geração do Novo Homem (usado sinonimamente com: homem total, homem socialista, super-homem). A nova pessoa transfigurada deve ser criada na experiência da ação revolucionária. Para a geração de massa da consciência comunista é necessária uma transmutação dos seres humanos na massa, uma alteração tal como só pode ser causada pela experiência da revolução. Assim, a revolução é necessária não apenas para derrubar as classes dominantes, mas, acima de tudo, para que a classe que está fazendo a derrubada chegue ao ponto em que “se livre da velha sujeira” e, assim, se torna capaz de uma nova fundação da sociedade. Essa ideia peculiar da criação do super-homem por uma intoxicação sanguínea revolucionária mostra como os gnósticos mais recentes se relacionam uns com os outros, mesmo que lutem entre si no cenário histórico. A intoxicação sanguínea marxista pertence ao mesmo tipo simbólico da mística nacional-socialista que permitiu ao homem da era milenar ser formado pela química do sangue e da terra. E na redação de um professor alemão de direito constitucional [Carl Schmitt] descobrimos, por ocasião do seu exame da brutalidade do regime, a fórmula idêntica à de Marx: “Fora com a sujeira!”

Devemos repetir que os gnósticos não são estúpidos. A ideia marxista da criação do super-homem pelo ato da revolução pode levar a dificuldades na prática política: por que, por exemplo, uma vez que a revolução tenha ocorrido e os novos governantes tenham poder firmemente ao seu alcance, as pessoas ainda são sempre os mesmos velhos seres humanos? Ou por que, quando há, por acaso, até mesmo preciosos tipos elitistas que trouxeram pessoalmente o burguês, o judeu ou o comunista à ruína, mas que agora têm que ser liquidados porque a intoxicação não os elevou a um status super-humano? Tais observações teriam um efeito preocupante sobre o gnóstico? Elas o despertariam de seu sonho para a realidade? De jeito nenhum! Ele prevê essa possibilidade e, com a astúcia de um louco, a constrói em seu sonho. Marx corrigiu a precipitação de sua juventude quando, nos anos seguintes, considerando essa possibilidade, ele elaborou uma alternativa. Sob a influência da Comuna de 1871, ele deu uma formulação definitiva a uma ideia que refinou desde o fracasso de 1848: Após a tomada do poder, haverá novamente um governo talvez ainda mais opressivo do que o mais antigo; mas os governantes terão mudado. E um governo governado por santos (ou confederados, ou camaradas) é diferenciado de todos os outros governos pelo fato de que ele morrerá na medida em que a nova humanidade cresce sob ele. O governo dos santos é um período de transição do antigo para o novo mundo. O período de transição pode durar um tempo indeterminadamente longo, talvez séculos, de modo que perguntas desconfortáveis não podem surgir sobre se a sua extensão não pode ser interpretada como um fracasso. E quem não acredita que a realidade brutal é apenas uma transição para o reino de Deus, essa pessoa é um vilão, um burguês, um judeu, um comunista ou um fascista, dependendo de seu século e posição. Essa especulação onírica, tão segura de sua argumentação, é o coroamento final da loucura gnóstica como desenvolvida por Marx na Crítica do Programa de Gotha (1875) e mais elaborada por Lenin no Estado e Revolução (1917). É a doutrina da ditadura do proletariado como a fase de transição que a segunda fase do verdadeiro comunismo deve seguir em um tempo remoto indeterminado.

VI

A doutrina das duas fases alcançou sua primeira formulação explícita na segunda metade do século XIX. Como um pressuposto mais ou menos claramente compreendido da ação gnóstica na realidade, certamente esteve presente desde que houve uma política desse tipo; O grande retrato dos puritanos, elaborado por Richard Hooker no final do século XVI, já mostra com toda a clareza possível que está contido na argumentação de seus oponentes. Essa lógica interna da ação gnóstica já havia alterado a ideia de revolução de maneira notável mesmo antes de sua formulação explícita. No sentido dessa doutrina, a revolução não é mais o massacre da sociedade em que um regime político é substituído por outro, mas um processo indeterminadamente estendido no qual a tomada do poder é apenas uma fase, ainda que de significado decisivo. Décadas de trabalho revolucionário podem preparar esse golpe decisivo, e séculos podem segui-lo até que o objetivo real seja atingido, a realidade do sonho. É a “revolução permanente”.

A palavra revolução primeiro entrou em uso comum com a Revolução Francesa de 1789. A frase “revolução permanente” foi cunhada nos círculos liberais da monarquia restaurada na França. No jornal Le Censeur, depois de 1815, Charles Comte e Charles Dunoyer desenvolveram a ideia de uma política que deveria impedir as erupções violentamente destrutivas e as igualmente violentas restaurações despóticas da ordem, como demonstrado pelo balanço da grande revolução do terror ao império. Isso seria realizado por reformas graduais das condições maléficas no momento apropriado por meio de uma “revolução permanente e sabiamente regulamentada”.

Essa tentativa de vender a revolução através da reforma social para os gnósticos é digna de nota em mais de um aspecto. Isso mostra especialmente que a gnose patológica havia penetrado muito além do ativismo revolucionário na política moderna. À sombra da Gnose, desenvolve-se uma ala progressista “direita”, liberal, que retoma a ideia de revolução, mas quer se defender de sua violência destrutiva por meio de um procedimento evolucionário e ordenado. A formação de tal ala pode ocorrer dentro dos próprios movimentos ativistas, como mostrado no caso da Alemanha do Partido Social-Democrata revisionista. Ou, como no caso dos liberais do Le Censeur, pode surgir de uma política de compromisso no nível da realidade; ou fora de uma política de “mudança pacífica”, como foi especialmente propagada pelos americanos entre as duas guerras mundiais. E, na esfera da política internacional, pode se constituir na tentativa de criar uma instituição sob o título de “Liga das Nações” ou “Nações Unidas”, que subjugaria a crise gnóstica das civilizações ocidentais e ocidentalizadas por procedimentos legais e que desejam para construir o reino divino da paz na terra a custo em larga escala.

A primeira coisa notável sobre essa tentativa é a indiferença de uma política sem qualquer vontade formativa que queira “tirar o vento das velas” de uma vontade perigosamente forte com muito pouca astúcia. A segunda coisa notável para o contexto contemporâneo é essencialmente o erro de que o “vento” da política gnóstica é uma exigência de reforma e que o descarrilamento em realidade condenado por Marx é a essência do sonho gnóstico; e, portanto, de fato, o partidário evolucionista ou gradualista pode chegar a este sucesso aparentemente “real” da revolução a um menor custo. Esse erro é carregado de graves consequências: No passado recente, motivou a política ocidental de apaziguamento; e ainda hoje motiva inúmeras medidas particulares bem-intencionadas voltadas para deter o comunismo.

O fato de estarmos lidando aqui com um erro maligno torna-se claro assim que se considera o que significa “revolução permanente” para os ativistas gnósticos. A frase aparece em Marx pela primeira vez em sua Carta à Liga Comunista de 1850. A diretoria do Congresso teve que tornar compreensível para os membros por que o fracasso de 1848 não foi o fim e como a ação revolucionária deveria prosseguir. A solução é simples: Não há falha de revolução; a revolução avança, movida permanentemente para o objetivo do sonho irreprimível; existem apenas obstáculos na realidade e devem ser superados incessantemente por um estilo de atividade política para o qual Marx cunhou o nome de “tática”.

A ação política gnóstica, cuja ideia Marx desenvolveu, segue seu curso na realidade, mas tem como meta a realidade onírica. Como, no entanto, a realidade onírica não pode ser implementada na realidade, surge a questão de como os meios dentro da realidade podem ser orientados para uma meta fora da realidade. E a seguinte pergunta: Como pode tal orientação onírica ser interpretada nas categorias da realidade? Certamente, a orientação onírica não é um tipo de ação racionalmente intencional; e é questionável se ainda se pode falar disso como ação política. A designação dessa ação onírica como “tática” é a solução terminológica descoberta pelos próprios gnósticos.

Por trás dessa distinção linguística está o fato perigoso de que a política gnóstica é um fenômeno patológico além do cálculo político normal. O que tática significa concretamente pode ser aprendido do conselho marxista dado na situação de 1850. Os comunistas devem estar interessados, não na reconciliação de oposições de classe, mas na abolição de classes; não na reforma da sociedade atual, mas na fundação de uma nova. Para manter a luta, uma estabilização da situação política deve ser evitada a qualquer custo. Durante um conflito revolucionário, assim como depois, os comunistas devem evitar qualquer tentativa de acalmar o estado de excitação. As revoltas da massa não devem ser impedidas ou apenas toleradas, mas instigadas e organizadas de modo a comprometer os democratas. Sempre que a ordem constitucional é restaurada, os comunistas teriam de sobrepujar qualquer medida de reforma democrática com exigências mais radicais. Se os democratas propuserem a nacionalização de ferrovias e fábricas em troca de uma compensação adequada, os comunistas pedem seu confisco; se os democratas exigissem um imposto moderadamente progressista, os comunistas teriam que exigir um que arruinasse a renda mais alta, e assim por diante. Basicamente, as demandas dos comunistas devem sempre estar voltadas para as concessões e medidas dos democratas. O princípio subjacente a este conselho é válido para todas as situações, sejam de política interna ou externa. As táticas são a negação patológica da política, na medida em que, em princípio, elas não criam ordem, mas procuram destruí-la.

VII

A transformação da revolução da derrubada política a uma luta tática sem fim está enraizada na lógica do sonho das eras. Nem a era da luz pode ser realizada nem a realidade pode ser eliminada. Assim, a ação gnóstica deve assumir a forma da luta permanente contra pessoas, instituições e ideias que são sempre obstáculos táticos concretos do momento. Uma ordem concreta da realidade é impossível porque tudo o que é concretamente o conteúdo da realidade deve ser superado. A revolução permanente da Gnose é uma úlcera cancerígena no corpo da realidade; é a morte de uma civilização se não for detida por forças formativas mais fortes. Do ponto de vista da realidade, o problema da Gnose não é, portanto, o advento da nova era, mas a luta de forças concretas na realidade contra a ameaça mortal de sonhadores patológicos.

Mesmo este ponto não escapou dos gnósticos. Um documento puritano, as Perguntas a Lord Fairfax de 1649, está ocupado com os detalhes da tomada do poder e com a provável resistência daqueles que são as possíveis vítimas sacrificiais. A tomada do poder é preparada pela organização federativa de sectários de grupos locais – a comunidade de santos – para cima. Quando a organização atingir o nível das assembleias ou parlamentos regionais da igreja, “então Deus lhes dará autoridade e governará sobre as nações e reinos do mundo”. Concretamente, os “magistrados e parlamentos cristãos da Inglaterra” devem ser substituídos pelo governo imediato do Espírito em seus vasos, os santos, os “oficiais de Cristo”. Não é suficiente que os governantes sejam cristãos; eles devem ser santos. “Como pode o reino ser os Santos, quando os ímpios são eleitores e eleitos para governar?” Nenhum compromisso com a velha classe dominante é permissível, pois “como então pode ser lícito consertar o velho governo mundano?” O único procedimento permitido é “suprimir os inimigos da piedade para sempre”.

O ataque radical às instituições da Inglaterra que amadureceram historicamente e a intransigente alienação da oposição da vida pública e sua supressão (hoje diríamos “liquidação”) assumem suas características peculiares nas Perguntas pelo fato de que os “oficiais de Cristo” intencionam nos cristãos. A expressão linguística continua vacilando. Os líderes da Inglaterra foram designados como “magistrados cristãos”; mas em outras passagens, quando o espírito de luta irrompe, a oposição é mencionada como o Anticristo. Assim como no sermão de Collier, o cristianismo dos Puritanos nas Perguntas foi levado ao extremo no qual se torna impossível distinguir um movimento anticristão de um ataque aniquilador ao status histórico de uma sociedade cristã nacional.

Os autores das Perguntas não tinham dúvidas de que os cristãos não iriam desocupar para os santos sem luta. O novo reino era universal em sua reivindicação de domínio; deveria estender “a todas as pessoas e coisas universalmente”. (O “universal” do século XVII seria traduzido como “total”). Os santos esperavam que a reivindicação universal de sua federação chamasse uma aliança igualmente universal do mundo contra eles. Os santos tiveram que se unir “contra as potências anticristãs do mundo”; e os poderes anticristãos, por sua vez, teriam que “se unir contra eles universalmente”. Dos dois mundos que deveriam seguir um ao outro cronologicamente viriam dois campos históricos e concretos, armados universalmente, engajados em uma luta de morte entre si. Já aqui, na mística Puritana dos dois mundos, são pressagiadas as guerras universais que de fato eclodiram no século XX. A reivindicação universal ao domínio do sectarismo gnóstico produz a aliança universal contra ele. O perigo real das guerras mundiais contemporâneas não é a extensão global do teatro de guerra, mas seu caráter de guerras entre mundos, no sentido gnóstico, que só pode terminar com a aniquilação do contra-mundo.

VIII

As considerações anteriores tentaram esboçar os traços essenciais da política gnóstica com base em fontes selecionadas. Tal esboço de sua essência ainda não exaure os problemas. A fim de evitar mal-entendidos, vou encerrar, portanto, as limitações de nosso tratamento do assunto, bem como as outras questões ainda não mencionadas expressamente.

Qualquer determinação da essência da Gnose política tem que levar as palavras dos pensadores gnósticos em relação à sua intenção. Eles querem projetar uma imagem verdadeira da realidade da humanidade na sociedade e na história; e legitimam sua ação pela verdade da imagem. O crítico deve, portanto, determinar o que é a Gnose em sua verdade essencial; e ele só pode fazer isso na medida em que o mede pelos critérios de seu próprio conhecimento da verdade. O resultado é a determinação de sua essência como a tentativa patológica de realizar um reino de perfeição transcendente histórica e imanente. Essa determinação leva a importantes insights sobre o declínio da cultura racional e da disciplina em nosso tempo. Mas não responde a uma série de perguntas que nos pressionam com urgência. Quais são os processos intelectuais e espirituais que levam, em casos individuais, a esse desvio patológico? Quais são as condições históricas sob as quais esse desvio se transforma em movimentos de massa? Quando e por que esse desvio entrou em cena e com tal eficácia social?

Esses são grandes temas que vão além da estrutura deste exame da essência da política gnóstica. Mas as fontes foram selecionadas de modo que as sugestões de respostas estejam contidas nelas. Documentos puritanos e fontes do passado mais recente foram utilizados em igual medida para confirmação. A seleção pretendia sugerir que a Gnose política é um processo social de imensa profundidade histórica. E os documentos puritanos apontam para profundidades adicionais que remontam aos movimentos sectários heréticos nos séculos XII e XI. A massividade dessa profundidade histórica deve ser considerada se quisermos entender a massividade dos movimentos gnósticos em nossa época. Seu poder destrutivo não brota das asneiras de um par de intelectuais dos séculos XIX e XX; em vez disso, é o efeito cumulativo de problemas não resolvidos e tentativas superficiais de uma solução ao longo de um milênio da história ocidental. E suas origens em movimentos hereges na Alta Idade Média indicam que estamos lidando com uma alta cultura urbana e nacional expansiva cujos problemas o Cristianismo institucional não conseguiu resolver.

Finalmente, lembrem-se de que a Gnose política é uma doença crescente dentro da civilização ocidental, crescente dentro da tradição clássica e cristã. Essas tradições são suprimidas hoje; elas são gravemente danificadas e desacreditadas por séculos de propaganda anti-filosófica e anti-cristã entre os intelectuais. Mas elas não estão completamente mortas. Ao contrário, na visão retrospectiva da história, o último meio século pode parecer o período decisivo do renascimento; em comparação com os dias por volta de 1900, nós hoje novamente temos uma ciência do homem na sociedade e na história que pode ser chamada de ciência sem evocar zombaria. Mas a influência social dessa disciplina intelectual e espiritual recuperada é ainda muito insignificante, abafada pelas práticas tendenciosas de intelectuais políticos e seus dependentes em posições bem estabelecidas em baluartes acadêmicos, partidários, sindicais, editoriais, jornalísticos e outros baluartes sociais. Levaria muito tempo, persuasão, trabalho e, provavelmente, até mesmo o uso do poder para suprimir esses fatores destrutivos o suficiente para impedi-los de fomentar ainda mais a falta de saúde do que eles já conseguiram. Mas a tarefa não é sem esperança.

traduzido por Mariano Henrique Rodrigues

 

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2 comentários em “Eric Voegelin: Política Gnóstica”

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