Eric Hoffer: Fanatismo e Movimentos de Massa

Por Eric Hoffer

Trecho do livro “Fanatismo e Movimento de Massas”, publicado em 1951.

O Desejo de Mudar as Coisas

I

Pode-se considerar um truísmo quando se diz que muitos que se aliam a um movimento revolucionário em surgimento são atraídos pela perspectiva de uma súbita e espetacular mudança em suas condições de vida. Um movimento revolucionário é um nítido instrumento de reforma.

Um fato não tão óbvio é que os movimentos religiosos e nacionalistas podem ser também veículos de reforma. Ao que parece, é necessário algum tipo de entusiasmo ou estímulo generalizado para a reavaliação de reformas amplas e rápidas, e não importa que o entusiasmo derive de uma expectativa de grandes riquezas ou seja gerado por um movimento ativo de massa. Nos Estados Unidos, as reformas espetaculares havidas desde a Guerra Civil emergiram de uma atmosfera carregada do entusiasmo nascido de fabulosas oportunidades de progresso próprio. Quando esse progresso próprio não pode, ou não tem oportunidade, de servir de força impulsiva, é preciso que se encontrem outras fontes de entusiasmo, caso se deseje realizar e perpetuar reformas momentosas, tais como o despertar e a renovação de uma sociedade estagnada, ou reformas radicais no caráter e padrão de vida de uma comunidade. Os movimentos religiosos, revolucionários e nacionalistas são focos geradores de entusiasmo geral.

No passado, os movimentos religiosos eram notórios veículos de reforma. O conservadorismo de uma religião — a sua ortodoxia — é o coágulo inerte de uma cultura altamente ativa. Um movimento religioso é todo mudança e experiência — aberto a novos pontos de vista e novas técnicas de todos os quadrantes. O Islamismo, quando surgiu, foi um veículo de organização e modernização. O Cristianismo foi uma influência civilizadora e modernizadora entre as tribos selvagens da Europa. Os Cruzados e a Reforma foram fatores cruciais para sacudir o mundo Ocidental da estagnação da Idade Média.

Nos tempos modernos, os movimentos de massa que envolvem a realização de amplas e rápidas reformas são os revolucionários e os nacionalistas — isolados ou combinados entre si. Pedro o Grande foi provavelmente igual, em dedicação, poder e ousadia, a muitos dos líderes revolucionários ou nacionalistas bem sucedidos. Mas falhou no seu objetivo principal, que era transformar a Rússia numa nação Ocidental. E a razão de haver falhado foi que não infundiu nas massas russas um entusiasmo transbordante. Não achou que isso fosse necessário, ou não soube como transformar o seu objetivo numa causa sagrada. Não é de estranhar que os revolucionários bolchevistas que eliminaram o último dos czares e Romanovs possuíssem uma espécie de parentesco com Pedro — que era um czar e um Romanov. Pois o propósito desse se tornou o deles, e esperavam triunfar onde Pedro fracassara. A revolução bolchevista pode figurar na história como uma tentativa de modernizar uma sexta-parte da superfície do mundo ou de construir uma economia comunista.

O fato de tanto a Revolução Francesa como a Russa se terem tornado movimentos nacionalistas parece indicar que nos tempos modernos o nacionalismo é a fonte mais copiosa e durável de entusiasmo de massa, e que o fervor nacionalista deve ser canalizado caso se queira consumar as reformas drásticas projetadas e iniciadas pelo entusiasmo revolucionário. É caso para se pensar se as dificuldades encontradas pelo atual governo trabalhista na Inglaterra não serão em parte causadas pelo fato de uma tentativa de reformar a economia do país e o padrão de vida de 49 milhões de pessoas ter sido iniciada numa atmosfera singularmente desprovida de fervor, exaltação e esperança ardente. A repugnância pelos padrões feios desenvolvidos pela maioria dos movimentos de massa contemporâneos vem mantendo os líderes decentes e civilizados do Partido Trabalhista afastados do entusiasmo revolucionário. Ainda existe a possibilidade de que os acontecimentos forcem-nos a utilizar alguma forma benigna de chauvinismo, de modo que também na Grã-Bretanha “a socialização da nação (pudesse ter) como seu natural corolário a nacionalização do socialismo.”[1]

A fenomenal modernização do Japão provavelmente não teria sido possível sem o espírito de revivescimento do nacionalismo japonês. Talvez também a rápida modernização de alguns países europeus (particularmente a Alemanha) tenha sido facilitada até certo ponto pelo surgimento e larga difusão do fervor nacionalista. A julgar pelas indicações do presente, o renascimento da Ásia será conseguido através do instrumento dos movimentos nacionalistas, mais do que por outros meios. Foi a irrupção de um autêntico movimento nacionalista que permitiu a Kemal Ataturk modernizar a Turquia quase da noite para o dia. No Egito, não tocado por um movimento de massa, e modernização é lenta e falha, muito embora seus governantes, desde a época de Mehmed Ali, tenham acatado as ideias ocidentais, e seus contatos com o Ocidente sejam múltiplos e íntimos. O Sionismo é o instrumento para renovação de um país atrasado e para a transformação de comerciantes e trabalhadores intelectuais em fazendeiros, operários e soldados. Se Chiang-Kai-Shek soubesse como colocar em ação um verdadeiro movimento de massa, ou pelo menos como sustentar o entusiasmo nacionalista propiciado pela invasão japonesa, poderia estar agindo hoje como o renovador da China. Como não sabia como fazê-lo, foi facilmente afastado pelos mestres na arte da “religionização” — a arte de transformar objetivos práticos em causas sagradas. Não é difícil verificar por que os Estados Unidos e a Inglaterra (e qualquer democracia ocidental) não puderam desempenhar um papel direto e de liderança para levantar os países asiáticos do seu atraso e estagnação: as democracias não são inclinadas ou talvez não são capazes de estimular um espírito de revivescimento nos milhões de habitantes da Ásia. A contribuição das democracias ocidentais para o despertar do Oriente tem sido indireta e certamente não intencional. Essas democracias têm estimulado um ressentimento entusiástico contra o Ocidente, e é este fervor antiocidental que está atualmente levantando o Oriente de sua estagnação secular. [2]

Embora o desejo de reformar seja com muita frequência um motivo superficial, é contudo interessante verificar se um exame desse desejo não poderia lançar alguma luz no funcionamento interno dos movimentos de massa. Analisemos, pois, a natureza do desejo de mudar.

II

Existe em nós uma tendência de localizar as forças moldadoras de nossa existência fora de nós mesmos. O triunfo e o fracasso estão inevitavelmente relacionados, em nossa mente, com o estado de coisas à nossa volta. Assim, as pessoas com senso de realização acham o mundo bom e gostariam de conservá-lo tal como é, enquanto que os frustrados favorecem a mudança radical. A tendência de procurar todas as causas fora de nós mesmos persiste mesmo quando está claro que nosso estado de ser é produto de qualidades pessoais, como capacidade, caráter, aparência, saúde e assim por diante. Diz Thoreau que “Se qualquer coisa dói num homem, de modo que ele não desempenhe bem suas funções, até mesmo uma dor de barriga… ele imediatamente resolve reformar — o mundo.[3]

É compreensível que aqueles que fracassam se inclinem a culpar o mundo pelo seu fracasso. O que é notável é que os que triunfam, também, por mais orgulhosos que sejam de sua visão, fortaleza, sagacidade e outras “qualidades argentinas”, estejam no fundo convencidos de que o seu triunfo é resultado de uma combinação fortuita de circunstâncias. A autoconfiança até daqueles mais bem sucedidos na vida jamais é absoluta. Nunca estão certos de que conhecem todos os ingredientes que entram na formulação do seu sucesso. O mundo exterior parece-lhes um mecanismo de equilíbrio precário, e enquanto funciona em seu favor têm receio de mexer com ele. Assim, a resistência às mudanças e o ardente desejo delas emanam da mesma convicção, e uma pode ser tão veemente quanto o outro.

III

O descontentamento por si só não cria invariavelmente o desejo de mudança. Outros fatores precisam estar presentes antes que o descontentamento se transforme em desafeição. Um desses fatores é o senso de poder.

Aqueles que estão dominados pelo seu ambiente não pensam em mudança, por mais miserável que seja a sua condição. Quando nosso modo de vida é tão precário que torna patente que não podemos controlar as circunstâncias de nossa existência, inclinamo-nos a apegar-nos àquilo que é comprovado e familiar. Agimos contra o profundo senso de insegurança fazendo de nossa existência uma rotina fixa. Adquirimos assim a ilusão de que dominamos o imprevisível. Os pescadores, nômades e lavradores, que têm de enfrentar os elementos, o trabalhador criativo que depende da inspiração, o selvagem dominado pelo ambiente — todos eles temem as mudanças. Enfrentam o mundo como um júri todo poderoso. Os miseravelmente pobres também ficam perplexos com o mundo à sua volta e não acatam bem as mudanças. Quando a fome e o frio estão nos nossos calcanhares, vive-se uma vida perigosa. Existe, assim, entre os destituídos, um espírito tão profundamente conservador quanto o dos privilegiados, e os primeiros são um fator equivalente aos segundos na perpetuação de uma ordem social.

Os homens que se entregam a empreendimentos de grandes mudanças geralmente sentem que estão de posse de uma força irresistível. A geração que fez a Revolução Francesa tinha uma concepção extravagante da onipotência da razão humana e do alcance ilimitado de sua inteligência. Segundo De Tocqueville, jamais a humanidade fôra mais orgulhosa de si própria e jamais tivera tanta fé em sua própria onipotência. Juntamente com essa exagerada autoconfiança havia uma sede universal de reforma que atingia involuntariamente todos os espíritos.[4] Lenine e os bolchevistas que mergulharam ousadamente no caos da criação de um novo mundo tinham uma fé cega na onipotência da doutrina marxista. Os nazistas não possuíam nada tão potente quanto essa doutrina, mas tinham fé num líder infalível e também numa nova técnica. Pois é de duvidar-se que o Nacional Socialismo tivesse feito tão rápido progresso se não fosse pela convicção eletrizante de que as novas técnicas de blitzkrieg e de propaganda tornavam a Alemanha invencível.

Até o sóbrio desejo de progresso é sustentado pela fé — a fé na bondade intrínseca da natureza humana e na onipotência da ciência. É uma fé desafiante e blasfema, não muito diferente da fé dos homens que decidem construir “uma cidade e uma torre cujo cimo chegue até o céu” e que acreditam que “nada do que imaginaram fazer lhes será negado.”[5]

IV

Pressupõe-se que a mera posse de poder resulta automaticamente numa atitude provocante para com o mundo e na receptividade às reformas. Nem sempre é assim. Os poderosos podem ser tão tímidos quanto os fracos. O que parece contar mais do que a posse de instrumentos de poder é a fé no futuro. O poder quando não é acompanhado de fé no futuro, é usado principalmente para afastar o que é novo e conservar o status quo. Por outro lado, a esperança extravagante, mesmo quando não sustentada pelo poder, pode gerar uma ousadia maior, pois os esperançados podem extrair força das mais ridículas fontes de poder — um slogan, uma palavra, um distintivo. Nenhuma fé tem poder a menos que tenha também fé no futuro. A menos que tenha um componente milenar. Assim também a doutrina: além de ser uma fonte de poder, pode também intitular-se uma chave para o livro do futuro.

Os que desejarem transformar uma nação ou o mundo não podem fazê-lo cultivando e canalizando o descontentamento, nem demonstrando a racionalidade e conveniência das mudanças projetadas, nem coagindo o povo a adotar uma nova maneira de vida. Precisam saber como estimular e ventilar uma esperança extravagante. Não importa que seja a esperança de um reino celeste, ou do paraíso na terra, de prosperidade de riquezas indizíveis, de conquistas fabulosas ou de domínio do mundo. Se os comunistas conquistarem a Europa e uma grande parte do mundo, não será porque sabem como levantar o descontentamento ou como injetar ódio no povo, e sim porque sabem como pregar a esperança.

V

Assim, as diferenças entre os conservadores e os radicais parecem emanar principalmente de sua atitude em relação ao futuro. O medo do futuro faz com que nos inclinemos contra ele e nos agarremos ao presente, enquanto que a fé no futuro torna-nos receptivos às mudanças. Sejam ricos ou pobres, fortes ou fracos, aqueles que realizaram muito ou pouco podem ter medo do futuro. Quando o presente parece tão perfeito que o máximo que poderemos esperar é a sua continuação no futuro, as mudanças só podem significar deterioração. Daí os homens que se realizaram, que vivem vidas plenas e felizes, geralmente fazerem má cara às inovações drásticas. O conservadorismo dos inválidos e das pessoas de meia idade origina-se também de medo do futuro. Estão sempre à espreita de indícios de ruína, e sentem que qualquer mudança será provavelmente mais para pior do que para melhor. Os miseravelmente pobres também não possuem fé no futuro. O futuro parece-lhes uma armadilha enterrada na estrada à sua frente. É preciso pisar com cuidado. Mudar as coisas é procurar dificuldades.

Quanto aos esperançosos: não parece fazer qualquer diferença quem é a pessoa atingida por uma esperança entusiástica; quer seja um intelectual entusiástico, um lavrador faminto, um especulador em busca de dinheiro fácil, um sóbrio comerciante ou industrial, um simples operário ou um nobre latifundiário, todos eles procedem atrevidamente em relação ao presente, destroem-no se necessário, e criam um novo mundo. Assim, pode haver revoluções dos privilegiados e dos desprivilegiados. O movimento de segregação, na Inglaterra dos séculos dezesseis e dezessete, foi uma revolução dos ricos. A indústria da lã atingira uma alta prosperidade, e a pecuária tornara-se mais do que a agricultura. Os latifundiários expulsaram seus rendeiros, segregaram os comuns e fizeram profundas reformas na estrutura e econômica do país. “Os lordes e nobres estão perturbando a ordem social, destruindo a antiga lei e os costumes, algumas vezes por meio de violência, frequentemente por opressão e intimidação.”[7] Outra revolução britânica feita pelos ricos ocorreu no fim do século dezoito e início do século dezenove. Foi a Revolução Industrial. O espantoso potencial da mecanização pôs fogo à imaginação de fabricantes e comerciantes. Iniciaram uma revolução “a mais extrema e radical que jamais inflamou a mente dos sectários,”8 e num tempo relativamente curto esses respeitáveis cidadãos tementes de Deus mudaram a face da Inglaterra de um modo que a tornou irreconhecível.

Quando esperanças e sonhos estão à solta nas ruas, é bom que os tímidos tranquem suas portas, fechem suas janelas e fiquem quietos até que a ira tenha passado. Pois há muitas vezes uma incongruência monstruosa na esperança, por mais nobre e terna que seja, e na ação que ela desencadeia. É como se virgens e mancebos com guirlandas tivessem que enfrentar os quatro cavaleiros do Apocalipse.

VI

Para que os homens mergulhem de cabeça num empreendimento de reforma ampla, é preciso que eles estejam intensamente descontentes mas não destituídos, e precisam também ter a sensação de que, pela posse de uma doutrina poderosa de um líder infalível ou de alguma nova técnica, terão acesso a uma fonte de irresistível poder. Precisam também ter uma concepção extravagante das perspectivas e potencialidades do futuro. Finalmente, precisam ser totalmente ignorantes das dificuldades envolvidas em seu vasto empreendimento. A experiência é uma desvantagem. Os homens que iniciaram a Revolução Francesa eram totalmente desprovidos de experiência política. O mesmo se aplica aos bolchevistas, nazistas e revolucionários asiáticos. O homem de negócios experiente é um dos últimos a chegar. Ele entra no movimento só quando já está em pleno andamento. A experiência política do povo inglês talvez seja a razão que o mantém isolado dos movimentos de massa.

Notas:

[1] E. H. Carr, Nationalism and After (New York : Macmillan Company,
1945), pág. 20.
[2] Vide final da Seção 104.
[3] a Henry David Thoreau, Walden, Edição Modem Library (New York,
Random House, 1937/, pág. 69.
[4] Alexis de Tocqueville, On the State of Society in France Before The Revolution of 1 789 (Londres, John Murray, 1888), págs. 198-199.
[5] Gênese 11:4,6.
[6] Vide Secção 58.
[7] Karl Polany, The Great Transformation ( New York, Farrar and Rinehart lnc., 1944), pág. 35 .

© Eric Hoffer. Fanatismo e Movimento de Massas, 1951.

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