Analfabetismo e histeria: por que o brasileiro não consegue dialogar?

Analfabetismo e histeria: por que o brasileiro não consegue dialogar? Rosenstock-Huessy explica.

Por Laio Brandão.

MÁ EDUCAÇÃO E TECNOLOGIA, A COMBINAÇÃO PARA O CAOS

Quem quer que tenha tentado iniciar uma discussão civilizada nos últimos tempos, presenciou um dos fenômenos brasileiros modernos mais facilmente identificáveis, desde a crescente interferência da internet na personalidade individual: o fato de que cada vez mais pessoas, até então normais e equilibradas em suas posições, têm se tornado verdadeiros clichês, como que pré-moldados ejetados na velocidade terrível da produção em série. Notou que basta dar-lhes um tema, um assunto, um fato recente ou um problema milenar, e logo terá uma pronta-resposta bem ao gosto de quem foi instruído pelo manual do usuário. O que se agrava devido à bolha virtual, que lhes inspira uma tomada de posição somente para diferenciar-se daqueles de quem supõem ser adversários — e não raro lhes traz uma sensação de autoridade moral e de resistência heróica ao mal que inventaram dentro de suas cabeças, quando na verdade só estão pensando em bando.

No Brasil, o sujeito tem que se expressar preocupando-se já não com a precisão daquilo que diz, mas com a mensagem subliminar que o interlocutor histérico possa atribuir ao conteúdo.

Dada a impossibilidade de comunicação plena, o mensageiro tem duas alternativas; na primeira, antevê e pressupõe todas as objeções e equívocos que o interlocutor possa cometer, eivando a mensagem de subordinações, ponderações e atenuantes, sem qualquer garantia de sucesso, para alcançar a expressão sem ruídos; na segunda, vai direto ao ponto, confiando na capacidade intuitiva de seu interlocutor, e acrescenta somente mediante a necessidade esclarecimentos, explicações secundárias e até mesmo tréplicas desnecessárias, provenientes da confusão pura e simples causada pela incompreensão.

Com efeito, em ambos os casos evidencia-se o predomínio do signo sobre o significante, da forma sobre a substância, do vocabulário sobre a realidade. Seja pela imposição sufocante da redação analítica no primeiro caso, seja pela verborragia subsequente do segundo, que transforma o diálogo num bate-boca metalinguístico e auto-referente, em que as mensagens viram respostas para explicar as mensagens anteriores e assim sucessivamente, jogando para a várzea o objeto real e concreto a que se referiu o conteúdo da mensagem original. Quem não percebe esse fenômeno recorrente, desconhece sua capacidade de causar sofrimentos impensáveis.

LOUCURA E MÉTODO: BREVE GENEALOGIA DO DESASTRE

A história da filosofia está repleta de iniciativas que podem ter levado a esse estado de coisas que com o avanço da tecnologia chegou ao estágio do sublime. Da impossibilidade kantiana de conhecer a “coisa em si” devido à incapacidade humana para apreensão intuitiva da realidade ao projeto lógico-analítico de Wittgenstein; da descrença na existência da realidade, levada às últimas consequências pelo movimento cético, ao dualismo racionalista de René Descartes, que dividiu a realidade entre sujeito e objeto de uma vez para sempre; foram muitos os que, de alguma maneira, contribuíram para a desconstrução do princípio da identidade, relegando à lógica formal, analítica e matemática a totalidade das bases científicas e da atividade e expressão filosóficas. Sob essa perspectiva, tratados inteiros poderiam ser produzidos com coesão interna cirúrgica, embora mais descolados da realidade do que as margens de um rio que seguem eternamente paralelas.

No entanto, foi com o filósofo austríaco radicado nos EUA, Rosenstock-Huessy, que a autoridade dos signos alcançou novo patamar. Em “A Origem da Linguagem”, Rosenstock investigou a fundo o desenvolvimento da ordem da comunidade mediante o desenvolvimento da ordem do discurso, desde povos ancestrais orientados pelo discurso mito-poético e religioso, e por uma cosmovisão metafísica, à consolidação de sociedades modernas e democráticas, de economia de mercado e organização institucional racional. Diferentemente de seus contemporâneos mais conhecidos, como Charles Pierce e Ferdinand de Saussure, e de seus sucessores ilustres porém menos talentosos, como Foucault, Derrida e Bourdieu, Rosenstock vai aceitar a autonomia da linguagem sem negar-lhe a dimensão sociológica, psicológica e, principalmente, metafísica e religiosa. Fundindo assim o estudo da linguística como objeto isolado com a aceitação de diferentes referências teóricas para o empreendimento, e aceitando a princípio da identidade como condição fundamental para sua realização. O que no primeiro grupo foi negado pela primazia da lógica analítica, estruturalista, quase matemática; e no segundo, pelo relativismo completo que, amparado pelo primeiro, enveredou pelo aspecto sociológico, privilegiando as relações de poder, a disputa de narrativas, o controle do imaginário e a redução de tudo à ação retórica; o império da “construção social” no sentido pleno do termo, onde o “consenso democrático” é resultado da conquista de corações e mentes pela ato discursivo. O que pode ser conferido no aliás brilhante “Foucault e o Niilismo de Cátedra”, de José Guilherme Merquior, e em “Deconstructing Pierre Bourdieu”, de Jeannine Verdes-Leroux. A desconstrução da lógica, do racionalismo clássico, do crescente cientificismo positivista e empirista não era mera teoria sociolinguística, mas uma declaração de intenções.

A verdade, a identidade e a realidade já não existem, mas podem vir a ser alguma coisa por meio da construção e divulgação de um discurso que conquiste a todos e faça-os enxergá-las daquela maneira. E assim, ninguém negará que escravidão é liberdade, que homens são biologicamente mulheres, que ditaduras são democracias, que vítimas são algozes, se todos pensarem que são. Içada agora não somente a objeto autônomo, mas também a um meio de ação independente, o discurso torna-se determinante, e não variável; subjuga e exerce sobre a realidade sua força criadora, moldando-a conforme os caprichos das elites falantes, embevecidas por sua presunção de poder recriar o universo. É a histeria adquirida, a esquizofrenia voluntária, o retorno aos antigos céticos que, na ânsia de duvidar, caminhavam em direção a rios e penhascos com a intenção de demonstrar que estes não estavam lá. Ora, essa soma de fatores só poderia levar a consequências inevitáveis: o indivíduo perde completamente a noção da realidade e passa a se comportar na virtualidade das palavras sem sentido, levando uma vida errante de incompreensão inconsciente; aculturado e instruído numa mentalidade asfixiante e incapacitante, ele só pode agir de acordo com o lhe dão para dizer. Esvaziada a linguagem de sentido e negado o seu amparo numa realidade objetiva, não há referencial possível para balizar os significados plausíveis dos discursos, das palavras; e se esses podem significar qualquer coisa, é porque já não significam nada. O desgaste da palavra “fascista”, no Brasil contemporâneo, e sua redução de conceito político bem delimitado a mero xingamento e agressão verbal é o exemplo perfeito dessa condição.

Consagrados como referências obrigatórias em todas as universidades e instituições de ensino, os autores do que viria a se chamar de estruturalismo e desconstrucionismo alastraram-se pelas instâncias do debate e da formação cultural com a validade de um senso comum quase óbvio e autoprobante; escolas, faculdades, jornais, secretarias, institutos, editoras, todos agora empenhados na ensinança da população. Que o avanço e a consolidação desse movimento seja confluente ao aumento da criminalidade, dos divórcios, dos homicídios, da depressão e do analfabetismo funcional puro e simples, não é mera coincidência. Não há outro destino possível para quem caminha em direção ao penhasco e espera que este o segure nos braços.

Um movimento sinuoso e centenário, dificilmente assimilável até mesmo pelas novas gerações que o propagam e o impulsionam, as quais, sem o compromisso e muito menos a obrigação de rastrear a genealogia de suas idéias, dão sempre por óbvio que toda a história começa sempre senão a partir do momento em que elas mesmas entram no jogo. Quando as consequências de idéias ruins começam a estourar em exemplos cotidianos aparentemente desconexos e incontáveis, a distância histórica de suas causas as torna ainda mais incompreensíveis e elas são lembradas apenas como conteúdo abstrato sem nenhuma penetração na ordem da realidade, e dadas como peças museológicas há muito superadas na ordem da história das idéias e na opinião pública. Ou não são cogitadas de maneira alguma nem como hipótese.

Sob esse aspecto, uma má educação, baseada em falsos pressupostos, com premissas equivocadas, atua como um vírus, alastra-se com a naturalidade de uma epidemia e realiza catástrofes homéricas. Recebida e assimilada voluntariamente por aqueles que confiaram suas inteligências a um falso instrutor, a má educação leva à asfixia, à paralisia e à atrofia da consciência. Um estrago que espontaneamente não ocorreria com tamanha desenvoltura, mas que sob a autoridade institucional conquista livre acesso para dinamitar a capacidade intelectual de qualquer um. O ignorante é agora ignorante e meio louco, um pouco desequilibrado e cheio de convicções sem nenhum suporte na realidade. É a loucura adquirida sob o verniz bibliográfico. O delírio com método.

Os registros e análises das consequências culturais e sociais desse processo são incontáveis e consultá-los é trabalho suficiente para toda uma vida; todavia, podem ser citados “Visions of Order” e “Idéias Têm Consequências”, de Richard M. Weaver, “Experimentos Contra a Realidade” e “Radicais nas Universidades”, de Roger Kimball, “O Imbecil Coletivo” I e II, do professor Olavo de Carvalho e, last but not least, os clássicos, “A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia”, de Christopher Lasch e “Os Intelectuais e a Sociedade”, de Thomas Sowell. Na pedagogia, pode-se recomendar especialmente a leitura de “Repensar a Educação”, de Inger Enkvist, que, com toda a condescendência que só uma progressista sueca e professora de espanhol poderia ter, aponta todos os equívocos e falácias que compuseram o grande edifício, projetado para ruir abaixo, da educação moderna.

Soterrado pela avalanche do palavrório das classes falantes, a imensa obra de Rosenstock permaneceu aquém do seu lugar de direito, não encontrando no Brasil espaço para a publicação de seus livros mais populares, como “Speech and Reality”, sua autobiografia intelectual “I’m an Impure Thinker”, e sua autobiografia propriamente dita, o calhamaço “Out of Revolution: Autobiography of a Western Man”.

É somente no ano 2000, na série “Biblioteca de Filosofia” dirigida por Olavo de Carvalho, que Rosenstock ganha as prateleiras e estantes brasileiras pela Editora Record.

Quando o editor alemão Lambert Schneider concordou em publicar em dois volumes seus principais escritos sobre a fala e a linguagem (1900 páginas), Rosenstock-Huessy traduziu e revisou drasticamente seu manuscrito inglês inédito para inclusão na edição alemã, onde aparece não com o título inglês original, “Origin of Speech”, mas como “Im Prägstock eines Menschenschlags oder der tägliche Ursprung der Sprache”. Embora o título alemão fosse mais apropriado aos propósitos de Rosenstock, considerando-se o conteúdo da obra, sua tradução para o inglês foi muito difícil. Uma tradução literal possível teria sido: “Sobre o molde da cunhagem de tipos de homens ou a origem cotidiana da linguagem”.

SE QUER PAZ, PREPARE-SE PARA A GUERRA

É bastante simbólico que a maior parte das seções de “A Origem da Linguagem” tenha tido como pano de fundo os anos da Segunda Guerra Mundial, de 1941 a 1945. A guerra, como metáfora e como objeto, está presente do início ao fim das exposições do livro. Ela é causa e consequência da linguagem, num eterno retorno que jamais se consolida definitivamente. O conflito escalar de indivíduos, tribos, famílias e civilizações inteiras é a dinâmica que confere sentido à linguagem. A guerra não é a falta de diálogo, pois a indiferença também representa uma ausência de contato; com efeito, ela representa o diálogo por outros meios quando o conflito de visões chega a um estado insanável, é o contato pela ação direta quando os meios diplomáticos se esgotaram. Para que se chegue a tal estado de coisas, é necessário que o fato de as pessoas não falarem umas com as outras tenha alcançado um ponto crítico e gerado uma explosão de violência. Quando as pessoas não conseguem conversar entre si, o estado de guerra ainda está latente, e seu fim se dá quando o diálogo retorna à mesa de negociações. O tratado de paz é a calmaria depois da tempestade. “Como todo nascimento, a paz tinha de vir à luz pelo trabalho de parto chamado ‘guerra’”.

A nova ordem, portanto, irá cristalizar todo um novo universo de significações, apaziguando os ânimos sob a força pacificadora do vencedor. O propósito é restabelecer a estabilidade das relações entre grupos adversários. Ainda que sem a paz plenamente instituída, num “estágio inicial da relação em que eles nada têm a dizer um ao outro, razão pela qual não há valores comuns por expressar”. Ambos os lados estão devastados ao ponto de que a linguagem quase desaparece, não há vencedores senão no aspecto do poder, pois todos já perderam muito. “Ou um tratado ou pacto de paz estabelece uma lei comum, nascendo então nova unidade falante que compreende os dois exércitos”, ou a barbárie segue indefinidamente.

Partindo do seio familiar e das comunidades tribais orientadas pela religião, o filósofo identifica três objetivos alcançados pela linguagem elevada (nominal e explícita):

“1 – A paz entre os rivais sexuais e a punição de quem ofendesse a castidade. O lar adquire uma paz sagrada.
2 – A paz entre os grupos etários, entre as gerações de homens. Os que ofendem o espírito da tradição e do respeito são proscritos, tornam-se ‘lobos’. Tinham de deixar a tribo, fundar uma nova e criar nova linguagem.
3 – A paz entre o mundo dos cinco sentidos e uma ordem política hipersensual de espaços e tempos demasiado fora do alcance de qualquer ‘indivíduo’”.

A realidade, então, de fato aceita a soberania da linguagem nas relações humanas. Diferentemente de seus sucessores pós-modernos, no entanto, Rosenstock-Huessy preserva o princípio da identidade, ainda que com sutil relativização, para balizar o sentido das palavras. Há uma simbiose entre significados e o desenvolvimento orgânico da tribo; uma relação cujos resultados vão ficando mais evidentes quanto mais se consolidam os significados. Dessa forma, a linguagem é poder e controle, mas por isso mesmo é boa. Controlar, então, é libertar e incluir. É superar a barbárie, portanto. Os ritos das tribos instituem as famílias, que formam seus membros e constroem para eles uma rede de significados diluída ao mínimo denominador comum. O senso comum básico para orientação geral de seus membros. E assim “esse senso comum aceita a emergência sobrenatural de uma família que deixou de lado o ciúme, a rebelião, a tirania e o assassínio.”

Tudo o que um dia tornou-se uma convenção implícita, um pressuposto básico, teve de passar um dia, de forma explícita, à existência. Teve de ser afirmado em alto e bom som. Quando esse processo não ocorre, a linguagem não faz sentido algum, e toda questão pública passar a ter dois, três lados, seja de interpretação, seja de julgamento. E não raro todos eles podem estar certos ou errados ao mesmo tempo, considerando-se os princípios adotados pelos interlocutores. É uma condição natural de um país sem um senso comum, um “common ground”, um “topus” que reúna a todos em torno de um propósito, de um ponto de partida ou centro a partir do qual seus cidadãos possam se orientar e no qual o discurso público possa se basear. Quem não tem sensibilidade para perceber isso, e desconhece essa condição imprescindível para vida civilizada, é parte do problema. Segundo o autor,

“Na guerra, ambos os lados gritam desde as trincheiras palavras de propaganda, mas em seu próprio interior são perfeitamente articulados. O problema na guerra, portanto, é que a linguagem não deve ser verdadeira senão no interior de um espaço limitado. Em outras palavras, na guerra sobressai o caráter regionalista da verdade. Eu não acredito no que o inimigo diz; e, sem me importar com o que ele diga, faço a guerra contra ele. A vitória na guerra implica não ter escutado o inimigo! Podemos definir a guerra, em termos de linguagem, como uma situação em que não escutamos o inimigo porque estamos demasiado sensíveis a qualquer rumor ou murmúrio dentro de nosso próprio grupo”.

Como a linguagem formal consolidada pelas tribos e religiões foi a mola mestra da ordem civilizada da comunidade, seu esvaziamento de sentido e sua desconstrução formal serão a razão mesma do caos e do conflito, e “isso lança o homem de volta ao estado de animalidade, do qual a religião e a tribo, com sua linguagem formal, o tiraram”. Sujeita a todo o tipo de subversão voluntária e involuntária, a linguagem então depende do comprometimento de seus guardiões para a sua preservação. Devido ao desgaste da linguagem, o mau uso do vocabulário e a subversão do significado das palavras, três foram os fenômenos identificados por Rosenstock-Huessy:

— GUERRA: caracterizada pela hipersensibilidade a palavras vindas de dentro E imunidade às palavras vindas de fora.
— REVOLUÇÃO: caracterizada pela hipersensibilidade aos gritos da juventude E imunidade aos velhos lemas e leis de outrora.
— DEGENERAÇÃO: repetição mecânica de frases batidas E imunidade à vida nova ainda inarticulada e instável.

Além da guerra, foram identificados outros fenômenos decorrentes dos três anteriores: a tirania e a contra-revolução. A contra-revolução se dá quando os velhos atacam os jovens, o ontem assassina o amanhã. O jovem grupo revolucionário berra e esperneia, porque é desarticulado, incapaz de se fazer entender. Já os contra-revolucionários são tão articulados e estáveis que se enrijecem e se tornam hipócritas. A doença da reação é a hipocrisia. A lei e a ordem tornam-se chavões na boca dos que desejam a manutenção do status quo, justamente quando as circunstâncias possibilitam o despertar de uma nova visão de mundo. A dinâmica é a mesma, o que varia é o contexto. No caso brasileiro, uma elite encastelada de intelectuais de gabinete, professores ativistas e pseudopedagogos auto-intitulam-se “defensores da educação”, grupos radicais de ativismo partidário falam em “movimentos sociais” e “sociedade civil organizada”, pedófilos falam em “respeito”, defensores de ditaduras comunistas reivindicam a defesa da “democracia”, reclamam seus privilégios, presidiários falam em “honestidade” e assim por diante. O termo “tolerância” simplesmente se esvazia, e o mesmo acontece com “amor”, “igualdade” etc. O discurso sem sentido nem consistência é a causa da tirania. Uma ordem antiga degenera, abusando da futura vida onde quer que a falação oca tome o lugar dos gritos inarticulados da nova geração. “O equilíbrio entre o hoje e o amanhã consiste num jogo de ações e reações entre a nominalidade articulada e o desconhecimento inarticulado”. Dessa forma, a tirania dos antigos “conduz à degeneração. Já não nascem crianças, não se conjectura nenhum futuro, definham as pequenas comunidades. Já não surgem novos empreendimentos. Secam as fontes de vida nova”.

A linguagem então não somente apaziguou os ânimos e mediou as relações entre os contrários, mas realizou a ponte entre as gerações passadas, presentes e futuras. Consciente da morte, o homem passa a trabalhar dia e noite para incluir na comunidade do espírito seus descendentes; estes, por sua vez, por meio da absorção superior de sua língua, podem acessar o passado e tornar-se conscientes dos fatores que determinaram a sua existência. E na posse consciente de si, eles renovam o processo. É o filho que vê no espelho o olhar de seu pai que sempre o olhou e protegeu. Escandida pelo fenômeno da morte, a vida humana não se extingue individualmente, mas renova-se nas “alturas de um novo nascimento”. É precisamente essa a condição que distingue o homem dos outros animais: a consciência de si. Pois “o animal nasce, mas não pode penetrar o tempo que antecede seu próprio nascimento. Uma densa cortina impede-lhe o conhecimento dos antecedentes. Ninguém diz ao animal qual é sua origem. Mas nós, as igrejas e tribos de tempos imemoriais, elevamos toda a humanidade acima da dependência do mero nascimento”.

Ao transformar-se essa linha sucessória de antecedentes e sucessores numa continuidade temporal eterna, a vida deixa de ser um mero nascimento que termina com a morte, mas transforma-se num intervalo da eternidade, cuja plenitude e emancipação só são alcançadas pelo ingresso na comunidade dos antecessores. E assim chega-se à conclusão de que “a origem da fala humana é a fala da origem humana”; uma relação que tem na linguagem sua causa e sua consequência, pois:

“A origem da linguagem permite superar a relação ‘natural’ entre nascimento e morte. O ímpeto de nosso encadeamento de linguagem é o mesmo de todas as formas já referidas, de todas as canções cantadas, de todas as leis promulgadas, de todas as orações rezadas, de todos os livros escritos — todas apontam para a direção que faz da morte a predecessora do nascimento”.

A NECESSIDADE DE CORRIGIR-SE E O DEVER DE EDUCAR-SE

Quem não rastreia a origem de suas idéias, de seus pontos de vista, de suas opiniões buscando saber os valores e as premissas que as orientam, não desenvolve a noção de quem é e por que pensa o que pensa. É assim que muitas pessoas matam e morrem, enlouquecem e se deprimem; estão envolvidas numa rede de regras e perspectivas que desconhecem e não dominam, jogando um jogo que só se vence abandonado a disputa. A Europa e os Estados Unidos foram levados ao relativismo crítico após 100 anos de positivismo e racionalismo com excesso de rigor e rigidez intelectual e cultural. Um movimento de contrapeso ao cientificismo moderno — que já era um rompimento com o pensamento clássico. O Brasil, sem ter ele próprio uma retaguarda consolidada de tradição intelectual, o absorveu para contestar o nada; desconstruir o castelo que não erigiu.

Limitadas cada vez mais pelo verbalismo e pela virtualidade de um mundo de palavras que jamais desce à realidade objetiva, as pessoas foram reduzidas pouco a pouco ora ao logicismo abstrato, ora à subjetividade radical; a matrizes teóricas da educação brasileira instituíram a alienação voluntária como critério de pensamento.

Em “The Culture We Deserve”, Jacques Barzun foi explícito ao afirmar que esse processo levaria a uma insurgência por parte daqueles que, em meio ao caos e a crise, buscaram preservar a memória e a cultura. Pela simples insatisfação de terem visto tudo ruir bem diante dos olhos, a necessidade os faria agir em prol de sanear o ambiente cultural, do restabelecimento das normas e dos critérios elevados de expressão cultural: “nenhum esquema dura para sempre. Surgirá uma geração cuja ‘estima pelas coisas em geral’ recuperará sua importância, cuja consciência intelectual a impulsionará na direção oposta, para captar o mundo através de mil antenas. Pois os portadores da cultura continuam a nascer; o desejo de cultura é inato”. No Brasil, esse tempo chegou, sem dúvidas.

A solução, tanto para Barzun quanto para Rosenstock-Huessy, é a mesma: o retorno ao bom e velho estudo das humanidades em seu sentido originário, focado principalmente no estudo fundamental da literatura como elemento de formação básica e superior. A literatura, enquanto espaço virtual de possibilidades, de relatos históricos ou simbolizações metafísicas, é fluido estético que contribui para que diferentes indivíduos compartilhem experiências e sensações por meio da contemplação de objetos para além de sua condição material imediata. É um dos instrumentos que fazem a ponte abstrata entre entes de diferentes condições palpáveis e particulares, colaborando para a lubrificação da engrenagem social por meio do imaginário.

Objetos culturais como um todo não são analisáveis, domáveis e captáveis por mentalidades matemáticas e abstratistas. Grandes obras de arte são excelentes por serem sínteses da realidade possível, complexa e paradoxal como ela é, compactando num todo elementos indivisíveis. Elas não são um discurso sobre alguma coisa, nem uma charada para ser desvendada pela decodificação de signos sem substância, mas um exercício prolongado de refinamento intelectual. É preciso, portanto, voltar a cultivá-las como parte integrante da comunidade, aspectos vivos da realidade que, por inefável que seja a linguagem em que é expressa, existe. Caso contrário, estarão todos aprisionados no verso de Hamlet, em resposta a Polônio: “O que é que está lendo, meu Príncipe?” — Palavras, palavras, palavras.

16 comentários em “Analfabetismo e histeria: por que o brasileiro não consegue dialogar?”

  1. Rapaz, que texto necessário. O problema é que quase ninguém que conheço entenderia o que está escrito. E eles precisam entender.

  2. O texto é como água fresca no recanto escuro. Um retrato da polaridade insuportável do mundo contemporâneo. Realmente faz refletir numa importante porta de reconciliação, se possível.

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