A quem pertence a Arte de Educar?

Por Pedro S. Silva

Sempre que nos propomos uma análise mesmo que diminuta acerca do processo educacional na atualidade, incorremos fatidicamente no discurso reducionista que atribui à escola o papel central de toda a formação humana; naturalmente se enxerga a escola como a redentora das mazelas sociais. Destarte, é conveniente a inquietação acerca dos protagonistas neste processo. Perguntas aparentemente triviais nos inquietam, tais como: O que é educar? A quem pertence a responsabilidade de educar? Qual a diferença entre educar e instruir? Professor é educador? É certo que a aparente trivialidade destes questionamentos pode nos endereçar a questões ainda maiores e que necessitam de uma boa reflexão e embasamentos plausíveis. Por ora, tentaremos resolver somente alguns desses questionamentos, mas, sobretudo este: a quem pertence a missão de educar?

De antemão, faz-se necessário compreender que o processo educacional se inicia na instituição base, a família. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei 9.394/1996 em seu artigo 2º afirma que a educação é um dever da família e do estado. Neste sentido, por exemplo, compreende-se a necessidade de uma parceria indissolúvel entre ambas as instituições no processo educacional. Entretanto, temos percebido a constante sobrecarga de responsabilidades atribuída às instituições de ensino que caminham em boa parte a passos trôpegos. Gadotti (2013) nos instiga à percepção da escola como sendo uma instituição integradora e não redentora.

O filósofo Immanuel Kant na obra Sobre a Pedagogia publicada em 1803 um ano antes de sua morte, afirma que a educação é o maior e mais árduo problema proposto ao homem. Para o autor, é somente por meio da educação que o homem constrói sua própria humanidade. Neste sentido, educar consiste em fazer o homem sujeito racional e protagonista de sua história; consiste em construir-se como pessoa à medida que foge das inclinações e de certa liberdade irrestrita que para Kant significa a ausência total de normas que disciplinem o homem rumo a um estágio melhor. O autor reafirma o início do processo educacional na família com os cuidados dos pais, posteriormente reafirma a necessidade da escola. Em toda a pedagogia proposta por Kant a disciplina se estabelece como mecanismo norteador.

Retornando ao pensamento de um autor contemporâneo vimos em Libâneo (2001), a afirmação de que a educação é uma prática social. Neste sentido, o autor nos reporta uma vez mais à Lei 9.394/96, especificamente ao artigo 1º que expressa a abrangência dos processos formativos identificando-os na “vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.” (BRASIL, 1996) Ora, as afirmações da própria Lei são suficientes para percebermos que a educação não deve se restringir aos muros das escolas.

O professor e filósofo Armindo Moreira com mais de 40 anos dedicados à docência nas diferentes modalidades deste ofício, apresenta em uma de suas mais recentes produções bibliográficas uma premissa um tanto quanto polêmica, sobretudo, àqueles que advogam a escola e o professor como o centro de todo o processo educacional. O filósofo, que inclusive afirma ter conhecimento de toda a obra de Paulo Freire, é categórico ao afirmar; professor não é educador.

O autor está certo de que a arte de educar que consiste entre outros fatores em promover na pessoa sentimentos e hábitos que lhe possibilitem viver em harmonia no ambiente em que está inserido é tarefa intransferível da família. Segundo Moreira (2013), só é possível educar com eficiência quem, de fato, ama o educando. Ora, ninguém poderia/deveria oferecer mais amor e afeto do que os próprios pais, ou seja, a família. À escola e aos professores cabe a missão de instruir, de possibilitar ao educando conhecimentos e habilidades que lhe oferecerão capacidade para subsistência.

O autor deixa claro ainda que a melhor maneira de compreender esse processo é considerar que os papeis devidos a cada instituição (família e escola) devem ser cumpridos para que não exista uma carga de responsabilidade demasiada a nenhuma das partes. Não se trata de diminuir o papel da escola, tampouco de acreditar que todas as famílias dispõem do tempo necessário para oferecer a educação devida a suas proles. Trata-se essencialmente de pensar o equilíbrio necessário para a existência de uma relação harmoniosa entre família e estado e vice-versa na arte de formar cidadãos.

Conforme explicado acima se ratifica a indissociabilidade entre sociedade e prática educativa. Essa, porém, é uma tarefa que requer a priori, conforme apresentamos a compreensão de que a educação não é um dever somente da escola e do professor. Vê-se, pois, que a abrangência dos processos formativos possibilita o entrosamento de toda a sociedade. É preciso ressaltar, uma vez mais a escola como sendo instituição de integração, ou seja, como aquela que deve fomentar a participação da sociedade no processo educacional. É fato, infelizmente, que a quase inexistência de políticas públicas efetivadas nesse sentido impossibilita maiores resultados. Faltam, por exemplo, espaços pedagógicos e culturais em regiões menos favorecidas que possibilitem o mínimo de educação integral.

É mister destacar, contudo, que educação integral difere demasiado de escola em tempo integral. Ora, o primeiro processo inclui a comunidade, a família, enfim, cria espaços e situações para que a educação seja efetivada além da instituição escolar. Ao passo que o segundo, por sua vez, reduz novamente tudo à escola. É conveniente destacar ainda a facilidade com que o discurso da escola em tempo integral fascina a comunidade justamente por eximir o papel que lhe é devido.

Por fim, ratificamos a própria letra da Lei 9.394/96 em seus artigos 1 e 2. Deste modo, compreendemos que a educação abrange uma série de processos formativos que são desenvolvidos na sociedade como um todo. Todavia, ratificamos que a família é a instituição base, é nela que a educação tem sua gênese. A escola, por sua vez, escolariza: apresenta uma gama de conhecimentos históricos e científicos que possibilitarão a construção do cidadão profissional. Ora, escolas e professores têm sidos sugados até o fim por um papel que não lhes compete. A educação certamente ganhará um up quando deixarmos de atribuir somente à escola um dever que não compete exclusivamente a ela. A consciência clara dos papeis de cada instituição no processo educacional certamente trará um novo ar e uma nova expressão à educação.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da Educação Nacional. Brasília, DF, 20 dez. 1996.

GADOTTI, Moacir. Qualidade na educação: uma nova abordagem. Congresso de educação básica: qualidade na aprendizagem. COEB 2013. Rede Municipal de Florianópolis.

KANT, Immanuel. Sobre a Pedagogia Trad. Francisco Cock Fontanella. 2ª ed. Piracicaba. Ed. UNIMEP, 1999.

LIBANEO, J. C. Pedagogia e pedagogos: inquietações e buscas. Educar, Curitiba, n. 17, p. 153-176. 2001. Editora da UFPR.

MOREIRA, Armindo. Professor não é educador. 3ª ed. Ed. EDESIO. 2013

1 comentário em “A quem pertence a Arte de Educar?”

  1. Radiante! Realmente percebo a indulgencia que muitas escolas tomam parte, a minha por exemplo nas aulas de Filosofia, Sociologia e Religião não acrescentam em nada. Partem em aspectos interessante como os nossos “direitos” na sociedade, mas sempre partindo do ponto de que só existem direitos porque o Estado nos dá… Um erro que já tentei corrigir na minha época de “palpiteiro” em dizer que o direito transcende o Estado. utilizando um termo dito dos ancaps, estas minhas aulas ensinam direitinho a ser um gado promisso. “Saúde é um direito” a professora diz, eu digo que é um serviço e nada mais, e tudo que ela diz tem que aceitar, fazer o que :v. Enfim, espero que a parte educacional da escola mude, abordando apenas o que importa para formar seres inteligentes e em busca de conhecimento pelo que ama.

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